a ala psiquiátrica – terceira dimanação do caos

Sketchbook 063 - Cópia

 

desenhávamos artérias, veias, gestos de lâmina errados nos pulsos – não basta cortá-los, é necessária a arte de lhes conferir o golpe certo da liberdade, o exangue descanso antes do desapropriado descanse em paz –
o número dos comprimidos restantes
– ninguém ali desejou viagem alguma, e os passos, agora, sincopados, na perspectiva hirta do corredor, do princípio
para o fim e do fim para o princípio,
dentro do espelho,
medem apenas o branco, a ausência de todas as cores – não existe qualquer deslocação, nem caminho, nem libertação; apenas uma descoincidência tectónica e definitiva;
a tectónica da terra, do corpo e da sua inata respiração, e da linguagem,
das mãos e dos braços que seguram a acusação da própria morte que não deseja ser encontrada: o corpo desprovido enfim de um alvedrio do acaso sem razão alguma
(a minha decisão está no mar)

desenhávamos o branco da falta e do abandono, da verdade do impensado, o silêncio e as cores deambulavam ainda no sangue – mas estava envenenado, o sangue, pela supra descoincidência citada

eu chorei quando me trouxeram a comida no recipiente de alumínio e disseram que iam cuidar de mim, todavia o meu choro não era o de uma pessoa, mas o de um cão

jogavam-se cartas a cigarros, dentro do espelho,
dez cigarros pela manhã, dez cigarros pela tarde, cumpridas as refeições e os comprimidos e as cápsulas
as mãos postas a revelar as linhas da vida aos que nos queriam salvar
– mas isso não era possível

estávamos debaixo da garrada, na deformidade vítria da morte indiferente

eu acordava muito cedo e tinha que esperar duas horas pelo pequeno-almoço, todos os dias via o sol que resulta da rotação da Terra
entretanto abria a madrugada e chegava o carrinho, chiando no sufoco deserto do corredor, com as medidas dos pijamas lavados e as toalhas para o banho
mas nunca era manhã
alguns mandavam vir de casa os pijamas próprios, perguntaram-me, mas eu desprezo os simulacros

debaixo da garrafa existe algum espaço côncavo, um último bilhete de respiração

éramos todos salvados de um patíbulo algures na razão,

o meu patíbulo está certo desde o estalo da parteira naquela manhã de Abril
– nada existe para vencer

*

Ilustração: [sem título], tinta-da-china, papel, 1998.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s