patologia do acaso, diário, 53: A Democracia e o Portugal dos Pequenitos

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Machado de Castro [1731-1822], Parte superior da Estátua Equestre de D. José I, Lisboa, Praça do Comércio. Fotografia: prova em papel de revelação baritado, 245 x 180 mm., Arquivo Municipal de Lisboa, Arquivo Fotográfico, Câmara Municipal de Lisboa, PT/AMLSB/CB/14/02/274

 

2017, Outubro, 22. A Democracia e o Portugal dos Pequenitos. As pessoas, e assim os povos, vivem orientados por dois marcos miliares cíclicos: o passado e a culpa. Um e outro conceito, uma e outra vivência, nesses cíclicos confrontos e fora deles, carecem de nomes porque são elementos de identidade e de regeneração; carecem de nomes que identifiquem as coisas e qualifiquem as acções, condição para a sobrevivência ao caos e para a segurança de um logos; condição para os cosmos individuais e para os cosmos colectivos. Porque nomear é também dominar, possuir e instaurar a possibilidade da transformação e, portanto, instaurar a potência do melhoramento e do progresso. Talvez seja assim que as civilizações se erguem e se extinguem. Todavia, a segurança de um logos não é mais do que o equilíbrio possível de milhões de labirintos, cada um diferente do outro em forma, matéria e conteúdo; todos, porém, são a cabeça; ou melhor, as cabeças que decidem ou delegam decisões consequentes no que concerne à vida colectiva. Por esta razão, a Educação é a pedra angular da civilização e da maioridade intelectual dos povos; é a pedra angular da Democracia, o fundamento de toda a esperança no futuro, a redenção de todos os sofrimentos que o presente nos exija como sendo necessários e superiores à vontade individual. É a qualidade da Educação que permite a qualidade da opção e esta é o garante do aperfeiçoamento da Democracia, do governo de todos. Mas quando ninguém se entende, porque ninguém sabe o que pretende por razão de fraca ou inadequada instrução, ou até de torcida instrução, existe apena suma de duas soluções: alguém ou uns poucos que a todos salve de Babel, ou o triunfo dos piores, evidente ou dissimulado por uns quantos piores do que os piores, mas suficientemente ricos e poderosos para atearem nos piores o convencimento de serem, pelo ardil do falso mérito, se não os melhores, pelo menos os indispensáveis para que a multidão de labirintos se pacifique e entenda segundo ditames exteriores e considerados superiores. E de facto, ficou apegada às discussões sobre a natureza da Democracia a célebre intervenção de Chuchill na Casa dos Comuns do Parlamento Britânico em 1947: «Many forms of Government have been tried, and will be tried in this world of sin and woe. No one pretends that democracy is perfect or all-wise. Indeed, it has been said that democracy is the worst form of Government except all those other forms that have been tried from time to time; but there is the broad feeling in our country that the people should rule, continuously rule, and that public opinion, expressed by all constitutional means, should shape, guide, and control the actions of Ministers who are their servants and not their masters» ( Parliament Bill, House of Commons [5th Series], 11 November 1947, vol. 444, 206-207 ). Mas três anos antes, em 1944, na fase do esforço final para derrotar o nazismo, Churchill definiu bem a simplicidade, a força e simultaneamente o risco do regime democrático: «At the bottom of all the tributes paid to democracy is the little man, walking into the little booth, with a little pencil, making a little cross on a little bit of paper — no amount of rhetoric or voluminous discussion can possibly diminish the overwhelming importance of that point»House of Commons, 31 October 1944 ).

 

Suponho que ninguém, no uso da sua razão, convocaria, para a praça principal de uma cidade capital, uma manifestação contra a Natureza e os seus fenómenos, previsíveis ou não. Alguma serventia vem tendo a Ciência há séculos. É assim tão destituído de sentido da realidade, tão ridículo, mesmo, convocar uma manifestação contra os incêndios, como convocar uma manifestação contra a lagarta do pinheiro. Não é todavia difícil compreender, para quem saiba decifrar a realidade com a devida inteligência, que a manifestação não aconteceu, propriamente, contra os incêndios, mas contra uma situação política e legislativa, nacional e local, que, apesar da existência de eleições, se tem mantido quase inalterável de há muitos, muitos anos até agora. Em todo o caso, não sejamos tão ingénuos, mas, enfim, concedamos. Sucede que no meio de toda aquela dignidade de pacotilha, no centro nevrálgico da capital há mais de quinhentos anos, quando rei D. Manuel I decidiu assentar residência no lugar do comércio e do dinheiro e reconstruída com a central estátua equestre de D. José I no enfiamento perspéctico de um arco triunfal, apareceu um cartaz a dizer a verdade: somos há quarenta anos governados pela alternância entre dois partidos políticos e um terceiro que, em podendo, trepa.

Não conferir às coisas o nome real que elas têm é fácil, pois não se toca, assim, nas feridas do passado e da culpa; quebra-se o espelho. Continua tudo, pois, a permanecer em família até às próximas eleições neste Portugal dos Pequenitos verdadeiro, à escala real…

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patologia do acaso, diário, 52: Prometeus, Sísifos, Ícaros

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Jorge Muchagato, 7 de Novembro de 2015

 

 

2017, Outubro, 20. Prometeus, Sísifos, Ícaros. A cabeça avança-me no sentido da obscuridade onde impera uma devastadora pulsão de morte a que não sei se alguma vez declarei guerra, se alguma vez me rendi sem condições; uma sedutora pulsão de morte que talvez se tenha transformado, em algum lugar do caminho, no próprio sentido da vida, da minha vida. Uma pulsão de morte amada que me assassina e beija quando acontece sentar-me em alguma pedra ou marco miliário na beira da estrada. Sentar-me é um acontecimento quando sucede a cabeça avançar-me demasiado e me canso de desespero e de abandono ao vagar. O que então empreendo não tem propriamente as qualidades de um dado vazio nem de uma indefinida ausência. Quando me sento estou a cair; preciso desta queda para conseguir resistir-lhe; preciso da obscuridade e do chão último para regressar à claridade iludida e ao movimento. Penso agora que talvez tenha transformado a morte no sentido da vida; transfigurado a pulsão de morte em força de viver. Uma transfiguração, de facto, e escrever é um indício de ordem no caos, um logos, um princípio de inteligibilidade, uma guerra infinda e incondicional, em que me sento e levanto, sento e levanto, alcanço e falho, ganho e perco. Mas sob a pele das convenções está verdadeiramente o caos e as suas contradições. A história fincou na minha sensibilidade, desde que tenho lembrança de me entender, o fascínio maior. A história é o império da Morte; de um passado extinto e perdido onde vive ainda a matéria pensada da consciência de uma pulsão de morte, ou melhor dizendo, diversos conceitos de morte enquanto sentidos para o acto e para a realização. Desejei também, desde muito cedo, ser arquitecto, mas a matemática não é para a minha cabeça; mais tarde, seduziu-me a vontade de ser artista plástico, mas tive medo de enlouquecer. E no princípio de mim, condutor de autocarros ou maquinista de comboios. Durante a infância desenhei sobretudo casas e navios, veleiros. Ficar e partir. Todavia, o caos não se me afigura necessariamente como o excesso absoluto da desordem e da ansiedade. Quando me sento também acontece o caos. A vida perderia todo o sentido se não morrêssemos, mas a Humanidade, a inteligência humana, aliada e subjugada pela inteligência artificial, conseguirá vencer a Morte chegando à obra de um outro corpo sem a contingência da degradação. É provável que seja isso o Apocalipse da aniquilação e por fim da extinção. Eu fui roubado às unhas da Morte quando tinha dois meses de idade, há cinquenta e um anos, por esse mesmo processo. Não é a vida que nos diz que estamos condenados a morrer; é a morte que no-lo afirma: que estamos condenados a viver. Prometeus, Sísifos, Ícaros.

diário revisitado, 6 de Fevereiro de 2011

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Fotografia: Jorge Muchagato, 5 de Março de 2011

 

 

as escadas de mármore ao milímetro, o último vértice da lâmina
sagrando o corte na pele e nos tecidos tensos da perna, na depressão abrupta e profunda da carne,
um corte metálico, um corte impuro,
o meu nome
escadas de mármore ao milímetro, milhentas vezes iguais e mortas a ligar as parcelas dos loucos sob a guarda esbatida de um corrimão de alumínio
caixa sombria
o meu nome

saí de casa às dezasseis horas e cinquenta e oito minutos (lembro-me e era longe)
porque o frio me cortava com delicadeza o rosto dentro de casa e eu estava perdido,
eu estava perdido, acordei tarde, o que mais me afundou na confusão e na culpa
e sob o tecto do pesadelo o sono torturava-me ainda, pressionava-me os olhos, mas
mas não sentia verdadeiramente tal morte-viva, não sabia
onde estava a minha casa                                                                      a angústia muda
dos medicamentos enforcava-me a dor num ramo da árvore    era uma fronteira aberta
inextinta, não a sossegavam não a condenavam, nem à vida nem ao sonho      prosseguia
na varanda, a latejar nas ceias sob o peso dos olhos, a enodar-se na garganta    o tempo
ia-se deslaçando, a vulgaridade do tempo diluindo-me as urgências e as tentações das púberes filosofias da vida

saí das paredes que vertiam humidade sobre os azulejos à beira abissal da única janela da casa

mulheres velhas, curvadas de viuvez e caídas na sua mais longa brevidade, passeavam nas ruas os seus cães trajados para o Inverno, passando a ruína do alcatrão de outrora

eu precisei de sair do frio desordenado da minha casa, não de pensar, porque eu era e sou um excesso e
todavia
pensava na recusa de pensar, desde o suicídio do meu abandono à rua, que a vida poderia agir
por si mesma e sem mim, numa beneficência oculta e miserável, fora de mim, revelar-se-me, conduzir-me sob pena se
eu lhe desse o espaço e o tempo, coisas que eu não sabia naquele momento, por detrás do vidro, antes da varanda do último andar, o que eram;
por isso saí de casa e estava confuso acerca das propriedades do destino

na mesa defronte, uma mulher jovem escrevia e os nossos olhares coincidiram em ocasiões dispersas e vazias dentro do calor artificial do café;
ela escrevia em segredo, dobrada sobre o caderno,

num assomo barulhento de infância ou de culpa e o braço escondia as palavras;
outras pessoas entraram no café e ocuparam as mesas entre mim e a mulher jovem que escrevia, não houve muito mais ruído por causa dessa flutuação vulgar e quotidiana

 

terei que voltar para a minha casa fria de sala e quarto, no extremo oposto e pobre da cidade, e nessa altura pensarei não sei ainda em quê, decerto que não em quem
na minha casa o frio torna o hálito visível e eu não sei muito bem o que fazer dentro da minha casa, dentro de uma dilacerante inércia mental
se tivesse televisão talvez não tivesse saído de casa

a mulher jovem que escrevia saiu do café

escurece cedo, mas os dias começam a cada ocaso a alongar-se, a adiar a noite
a noite, e isso é bom porque tenho dificuldade em suportar o Outono e o Inverno, a sombra e o frio que tolhem o mundo de Outubro a Março sem a bondade última da neve

preciso de comprar cigarros, não posso esquecer-me, dos novos que agora fumo, mais baratos e piores
talvez fique para uma sopa, não terei que pensar no jantar, e voltarei para casa com a noite pelo mesmo
caminho

 

6 de Fevereiro de 2011, 28 de Setembro e madrugada de 19 de Outubro de 2017

as uvas do fim de Agosto

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Fotografia: Jorge Muchagato, 29 de Agosto de 2017

 

digo às uvas do fim de Agosto, sob o declive da luz condescendente e triste dos meados de Outubro –
eu estava capaz de pegar na terra, pai, estava capaz

(vejo-te agora, na fotografia, de camisola branca interior de alças, as calças pintadas da tinta do teu ofício, os pulsos pousados no cabo da enxada, os botins de borracha pretos)
sorris, a terra era-te uma fecunda forma de felicidade, quando me ensinaste a conferir o balanço da enxada –
eu não sabia a última consequência de ser livre:
o silêncio, a morte e o nome,
o chegar à pedra – a neblina da manhã gelada vencida pela terra

numa dessas manhãs de luz fria abrimos a par os dois a terra, hoje
enclausurada no lento abandono dos dias da conta, pai
soube-me tão bem o almoço depois de deitar os sentidos à terra, era peixe com batatas cozidas,
um longo fio de azeite, salpicos de vinagre, tomate cru

pai
nunca mais comida alguma foi tão legítima
tu não sabias as palavras, mas sabias que era a terra granulosa, sedenta, sabias mais do que eu
que agora te seguro as mãos e ao mesmo tempo o tempo de as segurar
agora estamos os dois velhos, pai
mas a tua mão chegou à minha face, pousou nos meus ombros, a tua voz alcançou meu filho,

eu estava capaz de pegar na terra, pai, estava capaz
abrir os sulcos para a sementeira,
sangrar a terra com a enxada – é tudo matéria do sangue, pai – o cheiro bolorento da terra amanhada nos augúrios do Inverno

semeaste uma videira porque eu te pedi, lembras-te
estas uvas do fim de Agosto

eu ainda não sei, pai
quando a laje descoincidir e a morte me contaminar o sangue a memória, verei o que sinto, verei o que existe na cisterna do sofrimento, por enquanto, ainda tudo é chão,
as uvas do fim de Agosto, sob o declive da luz condescendente e triste dos meados de Outubro –

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 10 de Outubro de 2017

 

A tecnologia das trevas

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Robert Mapplethorpe (1946-1989), Dennys, 1978

 

A realidade é hoje mais interiorizada do que vivida; exposto assim, ao arbítrio que em cada um vai da culpa ao desejo, da punição ao prazer, o interiorizado é, sem limites aparentes, idealizado, distorcido, informe ou disforme, grotesco ou sublime, abjecto ou belo, o nada ou o estético. A realidade assim não cai no precipício do risco; é mais fácil, mais segura, mais protegida, mais relevada. Na verdade, numa realidade sobretudo interiorizada, engana-se cada um a si mesmo conforme pode ou conforme alcança. Mas se se engana a si, ilude os outros, com intenção ou por omissão; se se engana assim, cega a verdade com o excesso ou a ausência de si mesmo. Sobretudo interiorizada, a realidade transformou-se num caos avesso a toda a forma de ordenação onde a verdade e a mentira se confundem sem confronto, sem luz nem sombra. É a benevolência do carcereiro, não a exigência do libertador; a mentira que se releva, a verdade que não se perdoa. Nada é o que é, tudo é uma utopia do avesso, que suga até ao fim e depois passa ao corpo seguinte. Vive-se na ilusão de um domínio da totalidade, mas tal poder, no mundo sublunar, não é possível. O tributo da totalidade é o caos. As trevas disseminam-se na ilusão, tal qual uma epidemia, e a ilusão confunde o saber com a ignorância numa contaminação recíproca e cíclica. Mas não vivemos, todavia, naquilo a que nos habituámos a designar, segundo os padrões conhecidos, ou seja, segundo os padrões do passado, uma «idade das trevas»; apesar dos mais nefastos revivalismos, apesar de toda a novidade que não passa de ideologias caducas ou de anacronismos regurgitados, tudo é hoje diferente do que alguma vez já foi. Interiorizámos as trevas e as suas diversas formas e o seu fundamento mais eficaz e manipulador: a culpa, a milenar e castradora culpa judaico-cristã. A ideologia cristã da história sustenta-se no providencialismo e no sentido deísta que nos transformou em escravos do destino espoliados da dignidade de Prometeu. Esta interiorização das trevas começa pela negação da própria humanidade, pela negação do corpo ele mesmo. Negar e punir o corpo é negar e punir a existência, expurgá-la da culpa induzida, o que significa, de imediato, negar, punir e, por fim, disciplinar a arte. Mas este nosso “existir” não equivale, no entanto e por paradoxal que pareça, ao fim seja do que for que nos tem vindo a transformar em viventes invisíveis; equivale à contaminação de tudo – o ser destrói-se no método insano de se tornar puro e esse método é o lugar da alienação. Trata-se de existir no consumo, de existir numa tolerância radical e anódina, numa indiferença suicidante. Ainda que tudo pareça indicar-nos o contrário, vivemos uma era da invisibilidade sob a égide da manipulação. A tecnologia das trevas é o caos de uma totalidade a que a cultura suficiente, aceitável e legitimada – que não deixa de ser uma das formas da ignorância – é incapaz de conferir qualquer sentido, porque ficou impotente para lhe dar uma ordenação capaz, ainda que parcial. Uma das evidências deste caos indomesticável é a escrita da história que regride, sob o jugo do sucesso comercial, à sua dimensão literária e diletante, numa equívoco nefasto com a prática jornalística. Não é já necessário queimar livros, basta torná-los ilegíveis para a inteligência.

 

escrever

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O que poderia ter acontecido mas nunca aconteceu, não é substancial, não é matéria nem carne do esquecimento, mas matéria e corpo da poesia; é então que o que nunca aconteceu mas poderia ter acontecido, acontece ao lado, na verdade que a poesia é, ainda que seja mentira. O acontecimento é, portanto, o poema, o poema descarrilado e não o que poderia ter acontecido mas nunca aconteceu. Escrever é arquivar, não é esquecer. Nada esquecemos, só não sabemos que esquecemos, a neblina é imprevisível, e numa certa manhã cega-nos o índex. Não temos mão no esquecimento, tal como não temos mão na origem do que pensamos. Estamos indefesos perante o esquecimento e por isso escrever é resolver, é o bastante.

 

*

Fotografia: Jorge Muchagato, dos diários gráficos, 1998

patologia do acaso, diário, 51: O medo

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Ilustração: Jorge Muchagato, dos diários gráficos, 2004, vieux-chêne, papel

 

 

2017, Setembro, 29. O medo. A vida não eclode para o medo, mas conhecemos e precisamos das diversas formas, cores, gostos, cheiros, visões e sentidos que o medo tem, suamos medo, uma pulsão de morte nos surpreende num qualquer desequilíbrio, numa inesperada hesitação, num imponderado salto. Também a vida não está feita para o sofrimento, mas conhecemos e precisamos das diversas tonalidades e tessituras do sofrimento, do gosto do sangue quando mordemos, inadvertidos, dentro a boca, mutilamo-nos no sofrimento. Misturar os comprimidos com o álcool, olhar com desejo o gume da faca na cozinha, apelar à sedução da ravina, da trave no tecto, do ramo capaz da árvore. Uma guerra insaciável, de batalhas obscuras e incertas cuja derrota final nos vai adiando, salvando, num ensaio teórico de mortes sucedidas, sem apelo reescrito e esquecido. Eu julgava que poderia ser uma falha repentina da razão, mas talvez seja a razão na sua última totalidade, no seu maior esplendor. Não sei, porque o medo último, o medo verdadeiro, é o momento fulminante de um nada ignoto no derradeiro ponto matemático da consciência, que não sabemos se é a saturação ou a ausência absolutas de cor, se a escuridão se a luz; mas em todo o caso, talvez uma forma de cegueira por excesso na qual esbracejamos na esperança de algum suficiente madeiro da consciência. Não sabemos, é esse o medo sem fim. Entretanto, o único sentido viável é o risco do desejo e da verdade, palavras e gestos. É o que temos, do absolutamente nada a que chegaremos, desabitados de nós.

vermelho-púrpura

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Fotografia: Jorge Muchagato, 27 de Setembro de 2017

 

 

Acredite que vi gente morrer porque era maior que o corpo
tenho a impressão que o corpo não sabe o que tem dentro

António Amaral Tavares, «Coimbra, 16 de Agosto de 2011», in Movimento de Terras, s.l. [Lisboa], Língua Morta, 2016, p. 89.

 

 

esta é a hora da lavoura, as palavras agitam-se como os espermatozóides na senda da vida,
a casa fica alagada em sombra até às convulsões do afogamento                           a noite
o pior é a noite, o frio do erro-ser, vagando no risco
de uma dada liberdade mortal e tão antiga como a ferrugem que chove
da corrosão do ferro da voz que me condenou à culpa de ser
tão livre como a morte e a recusa das âncoras
esta é a hora da terra e dos ossos

a hora nodosa do reflexo brilhante da lâmpada acesa no verniz das ombreiras
de madeira negra, do silêncio tecido até ao absoluto do não-saber do sono         a noite
das escarpas sedutoras da morte envolta numa doce neblina sem pontos
de orientação, sem volume nem perspectiva; um excitante nevoeiro
que não é uma nuvem ao contrário     esta é a vala do nada, o lugar centrípeto de tudo

prometo-me os medicamentos que me cegam a angústia numa arca
de escuridão e de sossego falsos,
mas a vingança faz vencer as variações tonais em relação ao trópico

o vermelho-púrpura que une as palavras e a safra na língua          a súmula do sangue

Cinzas

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[ no apogeu da tarde outonal, enquanto bebo o café e fumo, sinto as lágrimas ainda tépidas abrindo sulcos na irregularidade da pele. mas é por mim que choro, por me lembrar agora de ouvir os velhos dizerem que se ousarmos comer cinza enlouquecemos. faziam-se ainda lareiras nesse tempo, toscas ou artísticas, nas cozinhas ou nos salões, o fogo era gregário a cinza um desespero catártico; o lume tornou-se um privilégio e a cinza já não é o apanágio acidental dos loucos. choro por mim, por certas vidas e coisas de mim abandonadas ou traídas. gosto de ficar horas mortas a olhar o lume numa lareira real não contaminada com o egoísmo de um recuperador de calor. a radical verdade última revela-se na coincidência entre a palavra e o gesto, fora desta coincidência, a verdade não chega a ser uma palavra. ]

Palavras revolucionárias não são a Revolução; amorosas palavras não são o Amor propriamente feito. Carecem assim, as palavras, do sangue e da decisão; do movimento e do risco; do recuo ou do salto.

Do ser à visibilidade de si, existem as palavras que erguem, para nós e para os outros, uma dada verdade, uma dada persona; mas a verdade última, a verdade de si e, por conseguinte, a primeira verdade das palavras, carece, na fronteira decisiva, do crivo da acção, dos gestos, da verdade física, vertiginosa. É por isto que nas sociedades mais civilizadas o Teatro e a Música florescem enquanto condição feliz de humanidade. O Teatro é o que não somos e poderíamos ser, o que somos e não deveríamos ser, o que confessamos, o que omitimos, o que ocultamos e, sobretudo, o que desejamos. A Música é a civilização. As sociedades decadentes por opção e que assim iludem a dor de ser-se não apreciam a violência dos espelhos e, por consequência, decepam o Teatro. As sociedades domesticadas confundem a decadência imposta com o Bem possível. Mas o Bem possível, uma espécie menor de felicidade, não é mais do que o Bem permitido, precisamente esse Bem menor destinado a envenenar toda a utopia.

Saber ler não é o bastante, é preciso ler sem medo. A mentira não se resume a ser nem a estar no antípoda da verdade.

 

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Fotografias: Ruínas da Casa da Cultura e antigo Casino de Caldas da Rainha, Jorge Muchagato, 26 de Setembro de 2017, durante o evento Noites da Lua Azul, organizado por Electricidade Estética