dos frutos da minha procura

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Fotografia: autor não identificado, anos 1970 [Espanha, Torremolinos, Palacio de los Congresos, Gala Hispano-Portuguesa, 13 de Novembro de 1971]

 

Amália

 

não sei o nome, sob a voz, onde aferir o devir da tua ausência;
mas sei, nas mãos, as brasas que me ateiam o corpo da tua ausência.

não sei que verosímil plano de cidade pudesse existir onde te procurasse,
nem que noite viria por ti, no esplendor ermo do frio, cortar-me a face.

não sei o nome do rio onde os meus gestos te vão desaguar,
nem onde fica o chão do contrário desejo de me afogar.

de um ponto ao outro desta terra arável vai toda a lonjura
dos frutos da minha procura.

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tenho a noite cheia de ervas venosas

All-focus
Fotografia: Jorge Muchagato, 30 de Abril de 2018

 

 

 

 

tenho a noite cheia de ervas venosas daninhas e de árvores indomáveis,
de cavalos livres e absolutos,
a noite pura que aparece da água gelada, dos rios insondáveis,
onde os sonhos sorriem astutos.
tenho a noite escarpada no silêncio límpido, de luz queimado, do imperativo
da manhã, da escalada e da transfiguração,
a noite prodigiosa que resume o paradoxo vago e morto e cativo
de tais ervas venosas maninhas das palavras e de uma canção

 

30 de Março de 2016 e 23 de Maio de 2018

dos deuses, nem a sombra nem as aparas

Poseidon ou Zeus
Kalamis, Poseidon ou Zeus, bronze, 209 cm. (altura), século V a.C., Atenas, National Archaelogical Museum. Fotografia [editada]: commons.wikipedia.org.

 

 

dos deuses, nem a sombra nem as aparas do lápis – obscurecem
a claridade negra do universo, decepam significados e sentidos, gestos,
perfeições mortas. o que sabem os deuses da miséria e dos restos
daqueles que os inventaram, senão o cansaço e o bolor de que falecem…

dos deuses, nem a existência nem a prova; nunca os houve nem há agora:
na verdade apodrecem.
impotentes, não alvorecem.
uma vereda de terra e ervas selvagens sob as estrelas, o ácido do Verão numa amora.

quem deseja deuses deveria transformar-se num e comer, sem azeite nem sal, o universo

 

28 de Abril de 2016 e 23 de Maio de 2018

patologia do acaso, diário, 89: Afinidades de espécime

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Jacques-Louis David [1748-1825], La Mort de Socrate, desenho sobre papel, 24,4 x 37,8 cm., ca. 1784. Nova Iorque, The Metropolitan Museum of Art. Fotografia: metmuseum.org

 

 

2018, Maio, 17. Afinidades de espécime. Quando as evidências há longo tempo interiorizadas conseguem o terrível prodígio de nos surpreender, é porque existe ainda um irracional laivo de esperança, profundo e insuspeito, à mercê de nova derrocada. E achamo-nos, assim, de impotência em impotência, desabrigados da terra de que somos naturais por via das malfeitorias desses desnaturados da honradez da terra.

Parece que houve por aí uns desacatos raivosos no melindroso reino da Bola, com extensões de preocupação na novelesca política, que manifesta pressuroso interesse em disciplinar a coisa. Reinações passageiras, em suma, da Bola e do Poder. O Povo, esse, adere ao foguetório, nunca conhecerá a Music fot the Royal Fireworks de Handel, votará, com gravidade diligente e conscienciosa nos mesmos do caleidoscópio, e segue carregando sobre si desacatos bancários justificados pela condescendência magnânima de um benevolente Poder que é pai, aceitando também, com o mesmo sentido sublimatório do fado, sob a bênção dos medianeiros do sagrado, os desacatos nepotistas da plutocracia vigente.

A melhor e mais proveitosa das ditaduras é aquela que consegue, não somente sobreviver, mas vigorar dentro de uma democracia sob a justificação do inalienável interesse de nunca a derrubar.

um pouco acima das fábricas do cansaço do mundo

All-focus
Fotografia: Jorge Muchagato

 

 

 

um pouco acima das fábricas do cansaço do mundo, um pouco
acima da linha informe da fuligem
o sol desenha nas fachadas felizes dos prédios fragmentos de toco,
sombras aspergidas de vaga origem.

a esfera move a penumbra, trespassa as bocas da escuridão a luz,
e a manhã decifra o silêncio que fingem
as sacadas dos alçados que o prumo do vazio à mão seduz
mas as copas rebentadas das árvores corrigem

um pouco acima de tantos anos sem saber o dia, um pouco
acima do labirinto ensanguentado da porfia

condição

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Paul Cézanne [1839-1906], La Montagne Sainte-Victoire, óleo sobre tela, 65,1 x 83,8 cm., ca.1904-1906. New Jersey, Princeton University Art Museum

 

mas da nossa condição, tão breve, o que seríamos e o que faríamos sem sonhos altos, sem o sofrimento das montanhas, sem a vertigem dos rios, sem a pacificação dos planaltos

 

mais de notre condition, aussi brève, qu’est-ce qu’on serait et qu’est-ce qu’on ferait sans les hautes songes, sans la souffrance des montagnes, sans le vertige des fleuves, sans la pacification des plaines

 

tradução: Ana Horta

poema vermelho

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Fotografia: Jorge Muchagato, 30 de Dezembro de 2010 e 11 de Maio de 2018

 

 

é de ti
que choras na mudez da noite e da cama, comendo as ervas venenosas, o pão que partiste
à mesa da cozinha entre os teus filhos que sorriem com os olhos do sol do mundo,
que é feita toda a esperança absoluta, pura e intocável, da humanidade no que ainda não existe,
mas um dia aportará, crescendo da raiz terrosa e fértil das veias do sofrimento mais fundo

é de ti
que anuis ou dizes sim, senhor, quando o coração te grita com a força contracta dos seus músculos o não!
que transfiguras em vinho ácido de cêntimos para que os teus filhos se levantem do algodão da manhã
sorrindo ao futuro, que lhes constróis, nas cicatrizes indolores do teu coração,
que é feita a argamassa dos injustiçados e por consequência das nações, a beleza do mundo, e tudo o que vem com a manhã

é de ti
que te vences no abraço forte dos teus filhos e depois choras, nas rotas chãs da solidão,
a incerteza e as contingências da esperança dessa força imensa, limpa e mais poderosa do que o mundo
que a vida em golpes há-de ferir quando tu já não estiveres para a sarar com a imensidão
dos teus braços, dos teus beijos e dos teus dedos nos seus cabelos de meninos vagamundos

é de ti
que recebes dos usurpadores os papéis alvos e frios com a notificação do gás, da água e da luz
os números daqueles que têm o que tu nunca terás no decurso de uma vida inteira,
que é feita a solidez moral, o castelo da alma dos teus filhos e a crença na vida que os conduz
quando tu, à noite, te deitas sob os destroços, os naufrágios, as guerras da realidade verdadeira

é de ti
que te levantas antes do regresso do sol e aproveitas a viagem do autocarro para dormir
depois de teres beijado, como um derradeiro gesto da tua vida, os cabelos e a face dos teus filhos, e de teres cantado na cozinha
enquanto lhes fazias a primeira refeição do dia, chorando na parvoíce do que estavas a rir
que é feito o mundo inteiro que depões nas mãos e no olhar dos teus filhos

é de ti
mulher que te levantas das ruínas que na tua carne só tu conheces para esfregar o chão ou dizer sim ao senhor doutor, ao senhor engenheiro;
homem que choras na varanda da marquise de alumínio olhando a cidade nos incógnitos e perdidos pontos de luz,

é de ti
só de ti
e da tua carne e das tuas veias, do teu sangue,
que é feito o mundo que do teu amor te abraça
quando os teus filhos te dizem, sem que o esperes, amo-te!
é de ti que é feito o mundo,
não te esqueças disso em cada hora dos dias da tua vida,
porque isso é vermelho; é o vermelho do teu sangue.

 

2015 e madrugada de 11 de Maio de 2018

as horas

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Jorge Muchagato, 26 de Outubro de 2016, manhã

 

 

e de dentro do frio das cascas de muralhas, às cavalitas dos mortos
invisíveis, de boca aberta ao calor voltado dos girassóis, olhamos
o céu na omnisciência de o beber como se fora vinho; abaulamos
de choro e de silêncio, boca fechada na língua estranha e ácida dos portos

sob esse etéreo convexo eterno, há tantos anos matéria de lápis de cor
e de felicidade.
do céu nos abeiramos como de um curso de água errática, pura e incolor,
e da verdade.

todavia, certeza alguma nos augura qualquer explicação para a evidência do atos;
amamos a noite e as horas no molde das palavras e na crua nudez de um corpo,
sufocamos nas mãos os medos, bebemos o vinho, separamos os gomos das laranjas do horto.

patologia do acaso, diário, 88: O tempo trespassado

All-focus
Jorge Muchagato, 10 de Maio de 2018

 

 

2018, Maio, madrugada de 10. O tempo trespassado. Da vulgaridade dos dias sói a cada um decidir, ainda que em muito das suas qualidades pareçam semelhantes ou iguais, dado que o tempo é trespassado por um enorme cansaço que ao termo do Sol se nos depara, desprovido de toda a misericórdia, vazio de toda a contemporização. É o silêncio da noite, a obscuridade das parcelas da pequena conta diária; o silêncio que escolho e o silêncio de mim. A sombra que me abraça na ampla sala onde escrevo e quase sinto tocar-me os ombros, a luz do candeeiro baixo que ilumina até ao excesso a caneca branca do café, o maço dos cigarros, o isqueiro e a taça que serve de cinzeiro, projecta uma sombra densa e imóvel entre as pequenas pilhas de livros sobre a mesa, e essa quietude tão próxima da conquista desta escrita afigura-se-me estranha e bela por ser o tempo de um reduto precioso e um problema de realidade. Esta constatação angustia-me e fere-me as cordas vocais, mas já tomei o tranquilizante da noite e não devo recorrer a uma taça de vinho que pudesse suavizar um pouco as forças psíquicas que se confrontam no interior desta paz nocturna: a conhecida queda depressiva e a ausência de medo. Não sinto medo, mas não estou certo disso, pois receio estar a confundir o descampado do medo com a mais pesada forma de desespero, a omnisciente. Não ter medo não me liberta do desespero, como um homem bem ataviado a caminho da guilhotina. O trabalho exige-me que durma, todavia, estas veredas não acendem senão à noite, e a noite é implacável com a vulgaridade. Vou à cozinha buscar mais café bem quente mas amargo porque me tenho esquecido de comprar açúcar. Melhor assim, aprecio o café forte. A contingência em parte indomável das circunstâncias parece desalojar quase tudo do lugar onde deveria estar, cerceando uma liberdade na sua vivência radical. Acendo um último cigarro antes de me decidir ao sono e observo o movimento harmonioso das volutas brancas de fumo reveladas pela luz branca do candeeiro e o fumo informe que liberto pelas narinas e pela boca e se lhe junta. A tensão nas cordas vocais expande-se até à fronteira da respiração. Os pesadelos diários durante o sono cessaram ou não me recordo deles pela manhã. Saí ao final da tarde para caminhar e comprar cigarros, mas demorei-me pouco tempo na livraria.

Erótica [1]

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Egon Schiele [1890-1918], Die Umarmung (Liebespaar II) / O Abraço (Amantes II), óleo sobre tela, 100 x 170 cm., 1917. Österreichische Galerie, Viena

 

 

a luminosa mudez que depois do sexo nos amendoa; a posse do abraço,
a última a verdadeira posse recíproca que sucede ao êxtase da violência carnal,
à morte contracta na obscuridade mais funda e indecifrável do ser corporal
é o amor alongado do amor sob a forma só do silêncio sem nome de cansaço;

a pele ligada pelo suor e pelo calor, a respiração bebendo o odorífero segredo
dos sexos ainda unidos nos últimos espasmos, os poros vivos, sedentos, nas cadenciadas,
harmoniosas distensões do diafragma, os beijos livres de todas as palavras cansadas,
a língua gostando a pele da face, os lábios, a união que suprime a derradeira falta:
as bocas no cálido lume dos hálitos – poderíamos morrer no cume deste degredo

– a vida mais do que antes desejando, a vida mais do que antes erguendo-se
do informe barro húmido do medo.