Voltas a mote

Noite escaninha – suspensa vida – me abraça e fere,
seduz e beija no abismo onde a sombra vã dilacera
este vago silêncio de ímpio rubro vinho que profere
vaticínios de cravos, horas e muros tomados de hera.

O cansaço encarnado meu à noite confia lúcidos degredos,
escalavradas paredes, férteis labirintos de guerras e medos
amados no poço do chão, onde da água escura sobem ervas,
gumes de luz reflectida, derrotas passadas, conquistas supostas.
Redime a noite diurnos passos, risonhas expectativas de agiotas
mudadas em larvas de cadáveres sem cuidados nem reservas.
Prossigo a redondez obscura do mundo (a dor não difere):
noite escaninha – suspensa vida – me abraça e fere.

 

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Jorge Muchagato, 9 de Janeiro de 2018
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patologia do acaso, diário, 72: O retorno da beleza das elegias

2018, Janeiro, 19. O retorno da beleza das elegias. O mundo começa agora a regressar, uma lentidão comovente traz consigo breves mas fulgurosos lampejos de esperança. Na translação terrestre, a luz solar que as paredes reflectem, muda-se em horizontes alcançáveis, a perspectiva dissolve o nevoeiro e aplaca o frio. É um início visível de consolo; as palavras, tão preciosas como um fio de azeite, guardaram-nos da esterilidade e da morte durante o Inverno. A beleza das elegias retorna. Agora, é apenas um pouco mais.

 

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Jorge Muchagato, 10 de Outubro de 2017

patologia do acaso, diário, 71: Liberdade e gente à porta

2018, Janeiro, 17. Liberdade e gente à porta. A própria literatura e a sua história nos dizem que não é importante, nem significativo (para o que verdadeiramente interessa e vai ao encontro da motivação criadora de facto do escritor) ter muitos leitores. Com efeito, existe uma correlação íntima entre o universo de leitores e a liberdade do escritor: quanto menos leitores tiver maior será o seu desprendimento e a sua indiferença, condições essenciais à liberdade criadora. Ao escritor motiva a reciprocidade dos leitores que o encontram e depois o procuram. Encontra-se muita gente, neste mundo, e é ínfima a que procuramos. Ser-se bestseller significa apenas muita gente à porta.

 

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Jorge Muchagato, Veias, 13 de Janeiro de 2018

patologia do acaso, diário, 69

2018, Janeiro, 16. A primeira disciplina com que o nosso juízo se depara é viver. Conhecendo essa, saberemos conhecer e utilizar as demais, em nosso favor e em favor do bem comum, seja qual for a dimensão que este tenha. Por outro lado, confundimos o ser tarde com o início de outro tempo do ser. Podemos ser fielmente o mesmo, mas nunca somos exactamente o mesmo.

 

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Jorge Muchagato, Acaso involuntário, 15 de Janeiro de 2018

patologia do acaso, diário, 68: Imagem, espelho e arte

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Jan van Eyck [activo em 1422 – m. 1441], Portrait of Giovanni (?) Arnolfini and his wife [pormenor], 1434, óleo sobre madeira de carvalho, 82,2 x 60 cm. Londres, The National Gallery.

patologia do acaso, diário, 68. 2018, Janeiro, 15. Imagem, espelho e arte. A produção de objectos a que hoje chamamos artísticos e, por consequência, entendemos sob o conceito moderno de arte (mesmo quando não eram, efectivamente, arte, mas imagem e espelho) é, na civilização ocidental judaico-cristã, uma questão que se localiza entre a moral e a beleza. Por conseguinte, o historiador não a poderá compreender fora da cultura, ou seja, fora da filosofia e da literatura, considerando que a filosofia foi durante séculos de natureza teológica. O deleite, ténue e subjectivo, procura na arte as “características” formais num esquema diacrónico; o conhecimento procura-lhe o invisível a partir de um imponderado que toda a forma de arte é incapaz de domesticar, porque o que se deseja que fique é motivado por uma funcionalidade intencional repleta de testemunhos do inconsciente. A palavra «arte» não é um conceito adquirido; logo, não o deve ser também o método.

patologia do acaso, diário, 67: Invisibilidade e paradoxo

patologia do acaso, diário, 67
2018, Janeiro, 15. Invisibilidade e paradoxo.

«Porque eu não vejo a nossa memória como um elemento que, por acaso, conserva isto e perde aquilo, mas antes como uma faculdade que sabiamente organiza e exclui.»
Stefan Zweig, O Mundo de Ontem, tradução de Gabriela Fragoso, 2.ª edição, Lisboa, Assírio & Alvim, 2014, pp. 17.

 

 

A simplicidade da afirmação de Stefan Zweig é aparente – o seu enunciado pressupõe uma acentuada complexidade anterior. Antes de poder vir a ser uma das testemunhas do seu tempo, o historiador é o seu próprio tempo, nele se construiu, nele vive. Para além das épocas da sua “especialidade”, um historiador deve interessar-se pelo seu tempo; pensar e decifrar a existência comum onde vive; tarefa difícil, dado que sujeita às idiossincrasias próprias de um ser no tempo e no espaço.

 

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Soldados da Infantaria britânica na Batalha do Somme (1 de Julho a 18 de Novembro de 1916). Fototeca Storica Nazionale.

 

O século XX começou em 1914-1918 com a Primeira Guerra Mundial, que o historiador Eric Hobsbwm [1917-2012] definiu «por várias razões o início do afundamento na barbárie» e que, a partir daí «habituámo-nos a matar», «os sacrifícios desmedidos que os governos impuseram aos seus próprios soldados ao empurra-los para os holocaustos de Verdun e de Ypres instauraram um precedente sinistro, quanto mais não seja por estipularem chacinas ainda mais sem limites sobre o inimigo» e «a própria ideia de uma guerra de mobilização nacional total destruiu o eixo que definia a guerra civilizada, ou seja, a distinção entre combatentes e não-combatentes» *. A Primeira Guerra Mundial foi um acontecimento sem retorno – «talvez devêssemos perguntar-nos por que motivo a civilização do século XIX não pôde recompor-se a seguir à Primeira Grande Guerra, ao contrário do que foram as expectativas de muitos. Mas o certo é que não se recompôs. Começara uma época de catástrofes: guerras seguidas de revoluções sociais, queda de impérios, colapso da economia mundial à escala mundial, recuo ininterrupto das formas de governo constitucionais e democráticas, ascensão do fascismo e do nazismo».

O século XX, iniciado com a morte industrializada – e sob ideações onde ainda vigorava a memória do último conflito europeu, a guerra franco-alemã de 1870 – e a revolução (Rússia, 1917), terminou em 1989-1990 com a queda do Muro de Berlim, a desagregação da União Soviética e a reunificação da Alemanha. Seguiu-se um interregno de dez anos que correspondeu a um período de indecisão entre o “clássico” do século precedente e o “invisível” do que não se sabia mas se aguardava. Entretanto, a China torna-se uma potência capitalista sem abdicar do ideário comunista. O século XXI começou com o 11 de Setembro de 2001 e as suas consequências. Hoje parece “evidente” que a Humanidade não se destruirá – quer dizer, passará a um novo estádio da sua existência – pela guerra geral, mas pelo veneno, por várias formas de veneno – do ar que respiramos ao conteúdo do que pensamos. Vivemos, assim, numa Era da Invisibilidade – dos poderes, dos cidadãos, das pessoas. O corrente estádio da Humanidade é um paradoxo.

 

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Tropas portuguesas partem para a frente de guerra, na Flandres. Joshua Benoliel [1873-1932], Arquivo Municipal de Lisboa.

Uma das perspectivas vividas sobre a civilização que ruiu em 1914-1918 pode ser encontrada no conhecido livro de Stefan Zweig, O Mundo de Ontem: «Quando tento encontrar uma fórmula prática que descreva a época na qual cresci, a época que antecedeu a Primeira Guerra Mundial, penso ter encontrado a mais precisa se disser: foi o período áureo da segurança. […]. Ninguém acreditava em guerras, em revoluções e subversões. Todo o radicalismo, toda a violência pareciam não ser já possíveis numa época de razão. Este sentimento de segurança era o tesouro mais desejado por milhões de pessoas, o ideal de vida comum. Só com esta segurança se podia considerar a vida digna de ser vivida, e círculos cada vez mais amplos ambicionavam participar desse precioso bem.»**

 

* Eric Hobsbawm, «Barbárie: Guia de Instruções» [1994], in Escritos Sobre a História, tradução de Miguel Serras Pereira, Lisboa, Relógio d’Água, 2010, pp. 232 e 235.

** Stefan Zweig [1881-1942], O Mundo de Ontem. Recordações de um Europeu, tradução de Gabriela Fragoso, 2.ª edição, Lisboa, Assírio & Alvim, 2014, pp. 18-19.