«a nossa dimensão não é a vida. nem é a morte»

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Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
E um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.

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Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.

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Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens do assombro

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.

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Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.

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Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.

 

Natália Correia [1923-1993], Dimensão encontrada, Lisboa, s.n., 1957. Natália Correia, O Sol nas noites e o luar nos dias, volume I, Lisboa, Projornal, 1993, pp. 167-168.

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« – Se não acreditas liga para o Rádio Clube Português. Está ocupado por “comandos”.
Abanada pelo rigor deste dado, ligo o transmissor e abro o volume de som. A voz do locutor soa numa campânula de mistério:

“Aqui Comando das Forças Armadas”. […]

São 5 horas da manhã. Sou uma coisa inválida de não saber se este dia rompe cheio de graça libertadora ou se o sacodem as tremuras da caquequecia ultradireitista. É difícil acreditar que ainda reste algum fôlego aos comparsas de uma putrefacção que se contém e se prolonga nas reverências reumáticas dos generais ao salazarismo mumificado num marcelismo que os portugueses deitam pelos olhos. Percebe-se que a cal que une os ossos mirrados da ditadura é a agonia. Nos últimos meses a queda oblíqua do regime  entrou aceleradamente na vertical.»

« – O que é a vida, Mãe?
– Tudo o que se vê com olhos radiosos. […]
Compreendo, Mãe. É preciso acreditar no impossível para haver presente. Eu vou ser livre na prática quotidiana de um sonho difícil.»

 

Natália Correia, Não percas a rosa. Diário e algo mais (25 de Abril de 1974 – 20 de Dezembro de 1975, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1978, pp. 11-12, 16 e 17.

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Fotografias [reenquadradas e editadas] de Natália Correia reproduzidas de Ângela Almeida, Retrato de Natália Correia, s.l., Círculo de Leitores, 1994.

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Abril

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nada muda escrever hoje a palavra Abril, a palavra Liberdade
e tingi-las, neste etéreo da inveja, com um cravo encarnado;
esse país tão-só é apenas uma intenção até à fronteira das unhas
que te obrigue a escrever na tua carne a palavra Dignidade;
encontrarás então a tua carne, o teu sangue, as tuas lágrimas e a tua revolta
iguais à carne, ao sangue, às lágrimas e à revolta do outro
que ainda não existe no teu silêncio
quando escreves hoje, sem medo nem angústia, a palavra Abril e a palavra Liberdade,
mas foges ao agravo de escrever a palavra Verdade

25 de Abril de 2017

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Imagem: Andreas Vesalius [1514-1564], De humani corporis fabrica, libri septem., Basileae, ex. Officina Ioannis Oporini, MDXLIII [1543], p. 178. Pode ser consultado na plataforma archive.org , de onde provém a imagem.