Amália, “povo que lavas no rio”

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[enquanto ouço Povo que lavas no rio (Pedro Homem de Mello / Joaquim Campos) numa gravação ao vivo em Lisboa, em 1973]

 

havia uma tristeza de ocaso nas árvores onde parecia

arder quase tudo, o pó da terra morrendo no ar, algum céu de Outono;

a noite; a própria noite nos gumes do sol e da lua na tua voz ardia

e o mundo, num esgar de entrudo, onde ardia quase tudo,

das meias-verdades à cal das casas e às cortinas de veludo,

era novo nessa voz a cada rotação do tempo nono.

madrugada de 5 de Junho de 2017

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Fotografia [pormenor]: Augusto Cabrita, 1972/1973.

 

Amália

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és a primeira terra do fim, encontrei-me por te encontrar, morte indescoberta, voz de braços,

só de ossos, carne e veias, artérias e pulsão, sangue desprovido de céu, de redenção, tudo ramos

mudados em veias, ramos férteis e ramos quebrados, nocturnos e solares, verdes e baços,

pinheiros e mar no reverso do silêncio, o verdadeiro, o que está fora da razão, o doce cansaço

exangue de ausência ou de excesso, o saber só do não-saber em que nos mudamos

 

 

és o vinho cíclico da noite, a dor imóvel, o que vence de tudo o que morre, a repetida solidão,

a ternura sangrante, a respiração desta terra fronteira, reino intemporal de certa antiga melancolia…

não sei onde estás quando te ouço, nem o que agora és (no espinho de uma rosa vermelha, dar-te a mão)

mas na tua voz encontrei-me a falta que me habita e realizei na imanência de tal maldição,

as veias de heras, o devido abismo, a arguição de encontrar-me, a razão do que me ardia

 

 

é pois certo não saber porque te encontrei, ou me encontraste sem saber de mim, nem certo saber porque te procuro;

mas encontrei-te na ferida de me encontrar, no críptico espelho do lago da tua voz, doce e triste…

e assim decorre o golpe da faca e o seu próprio desejo no pulsar dos extremos do teu coração rubro…

e na rotação da Terra pelos dias e pelas noites vives quando cantas e eu de novo descubro

nos teus olhos de mar e de praia, de flores e de pinhais, de cruzeiros e de fontes, que nem chegaste a partir

 

 

que tudo em meu redor me diz que estás sempre comigo; mas eu gostava de ir buscar-te

como na ordem das estações do mundo o Sol traz os calor, a chuva a vida ou a terra traz as flores

e para tanto passarei do tempo volúvel a prova do fogo que tem a voz viva de toda a arte,

o rio do tempo cuja eternidade é cantar-te,

e deporei no teu regaço negro, entre as tuas mãos abertas, as mãos que trazes, a prece florida das tuas dores

 

(Em itálico, versos do fado Barco Negro, de David Mourão-Ferreira.)

28 de Maio de 2017

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Ilustração: Amália, Jorge Muchagato, tinta-da-china e vieux-chêne, papel, 2000.

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Pode ser lido, também, no meu blogue Amália Rodrigues: a vida é um longo adeus.

 

Amália

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vem comigo, depois das rosas encarnadas,

quando o sol, na salvação do horizonte, estiver a morrer

e a noite, devagar, crescer desabando sobre o mundo,

abandonar os passos na areia, à beira do mar,

à beira do mar que canta como tu cantas a ferida do arbítrio

da triste beleza da terra no eterno retorno das marés

do mundo sob a lua da demora

 

vem comigo, depois das rosas encarnadas,

no tempo em que tinhas a idade que eu tenho agora,

quando a vida é a morte mudada em pequenos nadas

que o som e a força do mar redimem na guerra dos minerais,

vem comigo, depois das rosas encarnadas,

abraçar a mentira da fortuna de nos termos desencontrado

 

dá-me a mão, vem, vamos molhar os pés no mar,

gostar o sal no vento, ferir as mãos bem fechadas

nos espinhos das rosas vermelhas encarnadas

 

 

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Fotografia: Estoril, Fevereiro de 2010.

«trago uma rosa vermelha»

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és a taça vim bebê-la

porque é noite e eu te procuro

nas rosas vermelhas

onde rasgo as mãos e descubro

que ter a tua voz é perdê-la

 

és a noite vim bebê-la

porque a tua solidão é a minha fronteira

nas rosas vermelhas

em que firo o pescoço e como a poeira

onde ter a tua voz é perdê-la

 

és a ferida vim lambê-la

mas deitei na língua pedras de sal

e os espinhos das rosas vermelhas

não ferem mais

o caule vivo do roseiral

 

és a noite vim bebê-la

 

20 de Março de 2016

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«Trago uma rosa vermelha», primeiro verso do poema do fado Rosa Vermelha, de José Carlos Ary dos Santos, musicado por Alain Oulman, no disco Cantigas Numa Língua Antiga, editado em Abril de 1977. Uma primeira versão deste fado foi gravada em 1970 e publicada na reedição em compact-disc do disco Com Que Voz, em 2010.

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Rosa Vermelha, versão de 1977, com Fontes Rocha (guitarra) e Martinho d’Assunção (viola).

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Rosa Vermelha, versão de 1970, com Fontes Rocha (guitarra) e Pedro Leal (viola).

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Ilustração: dos diários gráficos, stencil, 1998.

 

Amália

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a noite viva, o dia apenas, as estrelas e o poço,

a solidão do fumo do cigarro que se evola

a sede do deserto puro do pescoço

que nenhum beijo profana ou arrola

 

a voz do som do mar, da luz do silêncio,

dos murmúrios e adivinhas, das casas brancas,

(esses olhos onde sofre a beleza do incenso

e se consome o natural fogo que não estancas)

 

esse indizível que fulge palavras no desgosto,

redime a melancolia dos mapas ocultos,

o impossível mudado em fogo posto

de contentamentos novos e resolutos

 

a ravina sobre a praia que a respiração enlaça

aves, braços de árvores e a corola da flor,

um único longo adeus e as mãos da linhaça

essa voz feita da amorosa definição da dor

 

 

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Desenho: vieux-chêne, papel, 2000, pormenor.

Vídeo: Malaventurado (Bernardim Ribeiro [1482-1552] / Alain Oulman [1928-1990]). Guitarra: José Fontes Rocha (1926-2011), viola: Martinho d’Assunção (1914-1992). Do disco Cantigas Numa Língua Antiga, EMI-Valentim de Carvalho, 8E 072-40447, editado em Abril de 1977.