Amália e Dylan Thomas numa noite de Abril

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Lisboa, Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, 20 de Abril de 1992. Fotografia: Jorge Muchagato

 

Escrever, alcançar a supressão absoluta do esquecimento. Era com ela também assim, esta ambição desmedida de guardar cada instante do continuum de imagens em movimento, inseparáveis; do grão e da modulação da voz; da incidência da luz de cena na face angulosa que marcava ainda mais uma trágica afirmação das órbitas oculares e das pálpebras pintadas com um largo traço negro; dos traços de voo da sua mão esquerda, do braço e do drapeado do vestido a assinalar os lugares mais dramáticos ou eufóricos das canções; do perfil nocturno do seu vestido de cantar; da criação única que era a sua arrepiante presença em palco. Sim, existia qualquer coisa; existia a respiração de um qualquer realidade diferente que descoincidia com a realidade propriamente dita. Essa existência começava cedo, com as Variações executadas pelo quarteto de guitarras. Os recitais de Amália Rodrigues eram um acto de criação irrepetível, portanto único. O ar vibrava de emoções, golpes diversos de uma espécie de estática eléctrica que retirava toda a explicação ao que acontecia, a cada um e a todos. O que sucedia era uma espécie de queda desejada, de queda amada, no precipício sem se saber quando. Algo semelhante à ideia inata de nos sabermos mortais, de sabermos que tudo acabará; algo semelhante ao cometimento de um fim sabendo-se que outra coisa não nos espera senão o fim; um involuntário chegar ao chão do fundo, de «sem ninguém para me entender» na «meia-noite a meio da vida». Acontecia uma vertigem emotiva que desafiava os limites da sensibilidade numa perturbação que não se conseguia (nem desejava) explicar. Uma genialidade vocal, musical, presencial insuperável. Mas não era possível essa supressão absoluta do esquecimento; na fronteira do paradoxo, era de facto difícil tudo fixar, tudo traduzir em memória: o arrebatamento motivado por essa qualquer coisa que existia nas apresentações ao vivo de Amália, era uma vivência radical que exacerbava os sentidos a uma elevação condenada logo pelo esquecimento, dado que a forma vulgar da memória não resistia a tal distensão. De alguma maneira, e deste modo isso vivi, os recitais de Amália transcendiam as qualidades da memória e por isso uma força quase irracional atravessava a intensidade dos aplausos. (Tudo existe, tudo passa, tudo acaba.) Essas memórias de Amália em cena são um chão profundo ao qual raramente se desce por completo; e assim a verdade, que é uma escada que se desce, ao invés do que vulgarmente se pensa. Os registos fonográficos permitem uma aproximação a um momento fragmentado de extremos – de uma volta da voz, de uma imagem que se conseguiu parar, de uma melancolia que feriu – impossíveis de traduzir e guardados como um tesouro secreto, íntimo.

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Dylan Thomas, A mão ao assinar este papel, edição bilingue, tradução e prefácio de Fernando Guimarães, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990

Aconteceu ter sido raro procurar; encontrei mais, e quando ousei ensaiar essa demanda condenada à intenção, creio terem sido poucas as vezes em que me achei bem sucedido. Se o risco conhecesse a intenção prévia existiríamos menos. A vida é a corrente e a rotação das marés. Amor, livros, música, arte, lugares, pessoas. Amargos tributos se pagam, as mais das vezes nem pelas qualidades da travessia mas pelo fraco engenho do entendimento que só o tempo apura. Mas regressamos ao sol ainda que a vereda se faça na direcção da obscuridade.

Amália ia cantar em Lisboa numa noite de Abril desse ano de 1992, na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, em recital repartido com um cantor, numa ocasião de solidariedade que agora não recordo. E eu regressava: naquela sala a ouvi pela primeira vez ao vivo, nove anos antes, na noite de 26 de Maio de 1983 (a célebre apresentação com António Variações na primeira parte) e depois em 20 de Dezembro de 1985 na Gala dos Finalistas de Direito (com Luís Góis, António Bernardino, fado de Coimbra, Rosa Lobato de Faria, declamação, e Herman José). Sozinho fui, como quase sempre, feita uma ou outra excepção, ia aos recitais de Amália. Encontrei Amália no umbral do meu entendimento, a minha idade nunca esteve em acordo com as circunstâncias, com o tempo; nem com a arte em que me encontrava. E, com Amália, essa realidade adquiriu muito cedo, ao juízo dos outros, uma triste feição exótica. Todavia, eu alcançava a tristeza da triste feição, mas não compreendia o sofrimento do exotismo. Era-me indiferente, uma vez que dobrava o cabo do exotismo na recompensa da beleza do sofrimento e da tristeza. É bela, a tristeza, mas é necessário que se saiba tal coisa.

Cheguei cedo a Lisboa e entrei numa das livrarias que ao tempo mais frequentava e hoje já não existe, a Livraria Arco-Íris, no centro comercial do mesmo nome á avenida Júlio Dinis, frente ao Campo Pequeno. Apesar de ter sido fechada ao trânsito e sobejasse de duas ou três esplanadas e de meia dúzia de árvores domesticadas, sempre achei aquela rua triste e não encontro porquê. Talvez pelas ruínas de um prédio de pobre art nouveau portuguesa que lá resistiu. Recordo muito bem essa noite urbana pois nada havia nela de excepcional e a memória estava desprevenida de toda a fixação. A minha solidão aceitava no seu denso vazio a solidão nocturna; e ao mesmo tempo, em qualquer revolta profunda e impronunciável, rejeitava-a na frieza metálica e seca, estéril, do ruído do trânsito, do traço das luzes dos faróis dos automóveis e dos autocarros que se desfaziam de imediato na ilusão ocular, dos passeios percorridos por quase espectros apressados, sombras, precipícios alheios. Devo ter jantado em Lisboa nessa noite, creio que sim, para me achar ali. Havia um restaurante manchado de decadência precoce no piso abaixo do nível da rua, uma coisa angustiada e escura com laivos de glória perdida. Decidi fazer tempo na livraria até à hora do recital. Aprecio livrarias onde paire um silêncio suficiente, são lugares onde gosto de pensar e de encontrar, palavras em mim ou livros nas estantes.

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E encontrei este livro de lombada tão breve: A mão ao assinar este papel, de Dylan Thomas (1914-1953), poeta de vida trágica que eu então não conhecia. O pequeno livro, com cinquenta páginas onde vivem doze poemas na sua linguagem original e na sua tradução portuguesa, exerceu sobre a minha sensibilidade um fascínio imediato.

«Vem uma mudança no tempo do coração
secar a sua seiva, e um brilho que nos fere
vibra no interior glacial do túmulo»

ou

«A força que impele através do verde rastilho a flor
impele os meus verdes anos; a que aniquila as raízes das árvores
é o que me destrói.
E não tenho voz para dizer à rosa que se inclina
como a minha juventude se curva sob a febre do mesmo inverno.»

ou, ainda,

«O sangue esgota-se, estremecendo com a fuga
do sangue químico, consciente de como a agitação chega.
Junto à orla do mar, escuta as negras vogais dos pássaros.»

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Este livro salvou a minha solidão dessa noite, a mim, que nessa altura padecia da ilusão de ser salvo, até ao início do recital de Amália.

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Lisboa, Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, 20 de Abril de 1992. Fotografia: Jorge Muchagato

Publicado também no blogue Amália Rodrigues: a vida é um longo adeus

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Amália, “povo que lavas no rio”

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[enquanto ouço Povo que lavas no rio (Pedro Homem de Mello / Joaquim Campos) numa gravação ao vivo em Lisboa, em 1973]

 

havia uma tristeza de ocaso nas árvores onde parecia
arder quase tudo, o pó da terra morrendo no ar, algum céu de Outono;
a noite; a própria noite nos gumes do sol e da lua na tua voz ardia
e o mundo, num esgar de entrudo, onde ardia quase tudo,
das meias-verdades à cal das casas e às cortinas de veludo,
era novo nessa voz a cada rotação do tempo nono.

madrugada de 5 de Junho de 2017

*

Fotografia [pormenor]: Augusto Cabrita, 1972/1973.

Amália

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és a primeira terra do fim, encontrei-me por te encontrar, morte indescoberta, voz de braços,

só de ossos, carne e veias, artérias e pulsão, sangue desprovido de céu, de redenção, tudo ramos

mudados em veias, ramos férteis e ramos quebrados, nocturnos e solares, verdes e baços,

pinheiros e mar no reverso do silêncio, o verdadeiro, o que está fora da razão, o doce cansaço

exangue de ausência ou de excesso, o saber só do não-saber em que nos mudamos

 

 

és o vinho cíclico da noite, a dor imóvel, o que vence de tudo o que morre, a repetida solidão,

a ternura sangrante, a respiração desta terra fronteira, reino intemporal de certa antiga melancolia…

não sei onde estás quando te ouço, nem o que agora és (no espinho de uma rosa vermelha, dar-te a mão)

mas na tua voz encontrei-me a falta que me habita e realizei na imanência de tal maldição,

as veias de heras, o devido abismo, a arguição de encontrar-me, a razão do que me ardia

 

 

é pois certo não saber porque te encontrei, ou me encontraste sem saber de mim, nem certo saber porque te procuro;

mas encontrei-te na ferida de me encontrar, no críptico espelho do lago da tua voz, doce e triste…

e assim decorre o golpe da faca e o seu próprio desejo no pulsar dos extremos do teu coração rubro…

e na rotação da Terra pelos dias e pelas noites vives quando cantas e eu de novo descubro

nos teus olhos de mar e de praia, de flores e de pinhais, de cruzeiros e de fontes, que nem chegaste a partir

 

 

que tudo em meu redor me diz que estás sempre comigo; mas eu gostava de ir buscar-te

como na ordem das estações do mundo o Sol traz os calor, a chuva a vida ou a terra traz as flores

e para tanto passarei do tempo volúvel a prova do fogo que tem a voz viva de toda a arte,

o rio do tempo cuja eternidade é cantar-te,

e deporei no teu regaço negro, entre as tuas mãos abertas, as mãos que trazes, a prece florida das tuas dores

 

(Em itálico, versos do fado Barco Negro, de David Mourão-Ferreira.)

28 de Maio de 2017

*

Ilustração: Amália, Jorge Muchagato, tinta-da-china e vieux-chêne, papel, 2000.

*

Pode ser lido, também, no meu blogue Amália Rodrigues: a vida é um longo adeus.

 

Amália

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vem comigo, depois das rosas encarnadas,

quando o sol, na salvação do horizonte, estiver a morrer

e a noite, devagar, crescer desabando sobre o mundo,

abandonar os passos na areia, à beira do mar,

à beira do mar que canta como tu cantas a ferida do arbítrio

da triste beleza da terra no eterno retorno das marés

do mundo sob a lua da demora

 

vem comigo, depois das rosas encarnadas,

no tempo em que tinhas a idade que eu tenho agora,

quando a vida é a morte mudada em pequenos nadas

que o som e a força do mar redimem na guerra dos minerais,

vem comigo, depois das rosas encarnadas,

abraçar a mentira da fortuna de nos termos desencontrado

 

dá-me a mão, vem, vamos molhar os pés no mar,

gostar o sal no vento, ferir as mãos bem fechadas

nos espinhos das rosas vermelhas encarnadas

 

 

*

Fotografia: Estoril, Fevereiro de 2010.

«trago uma rosa vermelha»

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és a taça vim bebê-la

porque é noite e eu te procuro

nas rosas vermelhas

onde rasgo as mãos e descubro

que ter a tua voz é perdê-la

 

és a noite vim bebê-la

porque a tua solidão é a minha fronteira

nas rosas vermelhas

em que firo o pescoço e como a poeira

onde ter a tua voz é perdê-la

 

és a ferida vim lambê-la

mas deitei na língua pedras de sal

e os espinhos das rosas vermelhas

não ferem mais

o caule vivo do roseiral

 

és a noite vim bebê-la

 

20 de Março de 2016

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«Trago uma rosa vermelha», primeiro verso do poema do fado Rosa Vermelha, de José Carlos Ary dos Santos, musicado por Alain Oulman, no disco Cantigas Numa Língua Antiga, editado em Abril de 1977. Uma primeira versão deste fado foi gravada em 1970 e publicada na reedição em compact-disc do disco Com Que Voz, em 2010.

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Rosa Vermelha, versão de 1977, com Fontes Rocha (guitarra) e Martinho d’Assunção (viola).

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Rosa Vermelha, versão de 1970, com Fontes Rocha (guitarra) e Pedro Leal (viola).

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Ilustração: dos diários gráficos, stencil, 1998.

 

Amália

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a noite viva, o dia apenas, as estrelas e o poço,

a solidão do fumo do cigarro que se evola

a sede do deserto puro do pescoço

que nenhum beijo profana ou arrola

 

a voz do som do mar, da luz do silêncio,

dos murmúrios e adivinhas, das casas brancas,

(esses olhos onde sofre a beleza do incenso

e se consome o natural fogo que não estancas)

 

esse indizível que fulge palavras no desgosto,

redime a melancolia dos mapas ocultos,

o impossível mudado em fogo posto

de contentamentos novos e resolutos

 

a ravina sobre a praia que a respiração enlaça

aves, braços de árvores e a corola da flor,

um único longo adeus e as mãos da linhaça

essa voz feita da amorosa definição da dor

 

 

*

Desenho: vieux-chêne, papel, 2000, pormenor.

Vídeo: Malaventurado (Bernardim Ribeiro [1482-1552] / Alain Oulman [1928-1990]). Guitarra: José Fontes Rocha (1926-2011), viola: Martinho d’Assunção (1914-1992). Do disco Cantigas Numa Língua Antiga, EMI-Valentim de Carvalho, 8E 072-40447, editado em Abril de 1977.