Dia Mundial da Poesia ou De como por si se levantam «homens tombados»

O primeiro verso do livro de Henrique Manuel Bento Fialho, A Grua, apresentado no dia 18 de Março na sala-estúdio do Teatro da Rainha, em Caldas da Rainha, é «daqui de onde me encontro», e o último, no termo dos vinte poemas sequenciais que fazem o livro, «no planalto dos sonhos». E está bem assim, para assinalar este Dia Mundial da Poesia: «daqui de onde me encontro, no planalto dos sonhos». É da escalada deste rochedo de silêncio que todos os dias se levantam, por si mesmos, os «homens tombados» da véspera.

DSC01710 - Cópia

A Grua foi apresentado por Maria João Lopes Fernandes e o texto, de onde retirei os dois excertos seguintes, pode ser lido em umacasanotempo.blospot.pt

«No passado os cânones tradicionais da métrica e da rima eram também ferramentas que auxiliavam a memorização dos poemas. Esse desvio da linguagem do seu uso vulgar pode também ser feito através da metáfora e da metonímia, ou com processos de alteração da sintaxe, podendo mesmo essas alterações terem um significado visual concreto, no caso do verso linear ser substituído pela ideografia. Ora, neste livro do Henrique estamos perante um cuidadoso uso do verso livre, digo cuidadoso porque não recusa o potencial fonético das palavras no seu significado, num poema-sequência que tem uma forte carga imagética, que marca o carácter dramático ao longo do seu desenvolvimento.

Nos diálogos interiores, ele projecta-se nesta paisagem quotidiana que observa da janela do seu quarto, espaço privado onde adormece, sonha, acorda e pensa. Surgem assim reflexões sobre as relações entre o sonho, a imaginação, a realidade, a loucura, as intempéries naturais, o estado do mundo, e também sobre a sua própria existência individual.»

DSC01711 - Cópia - Cópia

2.

ontem apareceu um homem enforcado na gru

 várias pessoas juntaram-se

ao redor da ocorrência

olhavam para o homem como quem olha

para um pássaro no céu

 

algumas tiravam fotografias

que depois partilhavam com os amigos por sms

houve até quem tivesse escolhido a imagem

para foto de perfil nas redes sociais

 

as pessoas gostam de se ajuntar

comentam em surdina infortúnios e desgraças

imaginam motivos e inventam razões

são de uma agilidade insuspeita

quando se lhes pedem cenários

para tragédias alheias

mas detestam ser ameaçadas

pela exibição constante da morte

 

preferem suspender por breves instantes

o decurso monótono da vida

recusando força de lei aos acasos e aos acidentes

enquanto partilham com contida excitação

e até certo entusiasmo

a mórbida subsistência

 

do que outrora serviu para erguer edifícios

e pode entretanto ser útil a homens tombados

 

Henrique Manuel Bento Fialho, A Grua, s.l., volta d’ mar, 2017, pp. 5-6.

 

 

Anúncios