patologia do acaso, diário, 72: O retorno da beleza das elegias

2018, Janeiro, 19. O retorno da beleza das elegias. O mundo começa agora a regressar, uma lentidão comovente traz consigo breves mas fulgurosos lampejos de esperança. Na translação terrestre, a luz solar que as paredes reflectem, muda-se em horizontes alcançáveis, a perspectiva dissolve o nevoeiro e aplaca o frio. É um início visível de consolo; as palavras, tão preciosas como um fio de azeite, guardaram-nos da esterilidade e da morte durante o Inverno. A beleza das elegias retorna. Agora, é apenas um pouco mais.

 

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Jorge Muchagato, 10 de Outubro de 2017
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patologia do acaso, diário, 71: Liberdade e gente à porta

2018, Janeiro, 17. Liberdade e gente à porta. A própria literatura e a sua história nos dizem que não é importante, nem significativo (para o que verdadeiramente interessa e vai ao encontro da motivação criadora de facto do escritor) ter muitos leitores. Com efeito, existe uma correlação íntima entre o universo de leitores e a liberdade do escritor: quanto menos leitores tiver maior será o seu desprendimento e a sua indiferença, condições essenciais à liberdade criadora. Ao escritor motiva a reciprocidade dos leitores que o encontram e depois o procuram. Encontra-se muita gente, neste mundo, e é ínfima a que procuramos. Ser-se bestseller significa apenas muita gente à porta.

 

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Jorge Muchagato, Veias, 13 de Janeiro de 2018

patologia do acaso, diário, 69

2018, Janeiro, 16. A primeira disciplina com que o nosso juízo se depara é viver. Conhecendo essa, saberemos conhecer e utilizar as demais, em nosso favor e em favor do bem comum, seja qual for a dimensão que este tenha. Por outro lado, confundimos o ser tarde com o início de outro tempo do ser. Podemos ser fielmente o mesmo, mas nunca somos exactamente o mesmo.

 

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Jorge Muchagato, Acaso involuntário, 15 de Janeiro de 2018

patologia do acaso, 64, diário: Consideração íntima

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Estoril, crepúsculo de 4 de Novembro de 2017

 

2018, Janeiro, 4. Consideração íntima. A memória e a posteridade não te pertencem sob qualquer forma de antecipação que proceda do teu inconfessável desejo ou da confirmação dos outros «e seus descendentes»*; sê apenas no tempo de seres enquanto fores existindo, inteiro e só; ama a tua solidão como um reduto protegido por um crivo rigoroso, ela é a tua terra mais fecunda, a tua construção mais segura. Considera, sem mágoa nem rancor, que possas não assistir aos frutos da tua longa sementeira – deve ser-te suficiente existir inteiro, rigoroso e livre sem a mácula do interesse material que nos pode fascinar sob tantas e tão diversas formas, algumas demasiado ocultas para que as consigas decifrar no correr do quotidiano. A história e a escrita são uma procura da invisibilidade na direcção inevitável da obscuridade; quando aí chegares, à obscuridade derradeira, no termo dos caminhos e dos atalhos, resta uma espera e uma esperança que já não te pertencem, onde já não existe a presença do teu ser; resta-se saber, nessa ponte do fim, que deixaste uma existência fora de ti e que não verás todo o esplendor da terra que cultivaste. Se essa for a tua herança, não te consideres na conta de infeliz.

 

* De um poema de Almada Negreiros [1893-1970], em «Poemas Invariantes», incluídos em Poemas, edição de Fernando Cabral Martins, Luís Manuel Gaspar e Mariana Pintos dos Santos, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, p. 221:

«[…]
E eu que amo a vida
mais do que o sonho,
e o sonho e a vida juntos
mais do que ambos separados,
e que não sei sonhar senão a vida
e quero viver o sonho
não hei-de morrer aqui
entre os outros
e seus descendentes.
[…]»

patologia do acaso, diário, 63: «a eternidade e um dia»

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Óbidos, 11 de Dezembro de 2017

 

2018, Janeiro, 1. O último dia do ano é benévolo, o céu está inteiro de azul, um mar superior, pelo meio da tarde as ruas começam a luzir de silêncio e de abandono, uma quietude desprovida de qualidades inunda e pacifica o ar, os ruídos urbanos recuam com lentidão. E agora, depois dos símbolos, o mundo recupera a sua essência. O silêncio regressa, da ponte da noite avista-se «a eternidade e um dia».

 

patologia do acaso, diário, 62: Vidro e luz

2017, Dezembro, 30. Vidro e luz. Vidro e luz na ombreira da noite, um acaso no absoluto silêncio do movimento sob a cegueira fria e imutável da perspectiva caótica do universo; por nós ou pelo calor dilacerante, por uma chuva pesada ou por uma desencontrada pedra de gelo cortante, o vidro será quebrado; se não hoje, amanhã; em qualquer facto, em qualquer circunstância, nenhum regresso é certo em cada rotação da Terra, nem o sono nem a luz; desejamos, nem pensamos e desejamos, damos como certo e justo esse regresso do limbo circular, mas não é certo nem a justiça é apanágio da Natureza; vivemos num assoreamento de riscos e fragilidades, coisa-vida que é mais uma razão para existirmos sem medo; e porque tudo é breve e nada é eterno e a morte é o motivo da vida na sucessão das pontes da noite.

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 30 de Dezembro de 2017

 

patologia do acaso, diário, 61: Escrever a história: «pour un jour de synthèse il faut des années d’analyse»

2017, Dezembro, 29. Escrever a história: «pour un jour de synthèse il faut des années d’analyse» O fascínio fundamental da história reside no desequilíbrio, na descoincidência permanente que existe entre a sua natureza e as expectativas que lhe são exteriores e de todo estranhas. A história nunca é, ao nosso juízo, suficientemente rápida nem necessariamente longa – é rápida quando não damos disso conta e muito longa quando não corresponde às nossas expectativas nem, pior do que isso, aos nossos desejos. A verdade é que estamos indefesos perante a história e é necessário que assim estejamos. De facto, como “descobriu” Paul Veyne há mais de quarenta anos [1], a história não mudou assim tanto desde Heródoto ou Tucídides, e é-nos difícil aceitar essa constatação quase “primária”. Mas nós, lentamente, mudámos, e muito. Resta saber, naturalmente, se mudámos o que se afigurava necessário e se não continuamos, talvez mais do que antes, talhados pela ideia de progresso e de superação constante, por oposição, por combate, por uma fictícia ordem natural das coisas demasiado rápida e “produtiva” para se alcançar, «honestamente, veridicamente», «quanto for possível», «os mecanismos ocultos das coisas» [2]. A descoincidência permanente em que se fundamenta o fascínio da história continua a fazer válidos os pressupostos de Heródoto e de Tucídides e o antigo célebre axioma de Foustel de Coulanges: «pour un jour de synthèse il faut des années d’analyse» [3]. A história nunca é, como uma espécie de ideia pura, o que esperamos ou desejamos; não estamos fora da história: é esse o seu imorredouro fascínio, a sua incontornável utilidade; a exigência está sempre do lado da história, do nosso lado está a postura filosófica de saber fazer perguntas e de não recear as respostas.

*

[1]. Paul VEYNE [n.1933], Como se escreve a História, tradução de António José da Silva Moreira, Lisboa, Edições 70, 1983. [Edição original: Comment on écrit l’histoire, Paris, Éditions du Seuil, 1971.]

[2]. Marc BLOCH [1886-1944], Introdução à História, 4.ª edição, tradução de Maria Manuel e Rui Grácio, mem Martins, Publicações Europa-América, s.d. [ca.1983], p. 15. [Edição original: «Apologie pour l’histoire ou métier d’historien», Cahiers des Annales, Paris, n.º 4, 1949.]

[3]. Numa Denis Fustel de COULANGES [1830-1889], Histoire des Institutions Politiques de l’ancienne France. Premiére Partie: l’Empire Romain, les Germains, la Royauté Mérovingienne, deuxième édition revue, corrigée et augmentée, Paris, Librairie Hachette, 1877, «Introduction», p. 4.

 

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, Óbidos, 13 de Dezembro de 2017