patologia do acaso, diário, 89: Afinidades de espécime

31a
Jacques-Louis David [1748-1825], La Mort de Socrate, desenho sobre papel, 24,4 x 37,8 cm., ca. 1784. Nova Iorque, The Metropolitan Museum of Art. Fotografia: metmuseum.org

 

 

2018, Maio, 17. Afinidades de espécime. Quando as evidências há longo tempo interiorizadas conseguem o terrível prodígio de nos surpreender, é porque existe ainda um irracional laivo de esperança, profundo e insuspeito, à mercê de nova derrocada. E achamo-nos, assim, de impotência em impotência, desabrigados da terra de que somos naturais por via das malfeitorias desses desnaturados da honradez da terra.

Parece que houve por aí uns desacatos raivosos no melindroso reino da Bola, com extensões de preocupação na novelesca política, que manifesta pressuroso interesse em disciplinar a coisa. Reinações passageiras, em suma, da Bola e do Poder. O Povo, esse, adere ao foguetório, nunca conhecerá a Music fot the Royal Fireworks de Handel, votará, com gravidade diligente e conscienciosa nos mesmos do caleidoscópio, e segue carregando sobre si desacatos bancários justificados pela condescendência magnânima de um benevolente Poder que é pai, aceitando também, com o mesmo sentido sublimatório do fado, sob a bênção dos medianeiros do sagrado, os desacatos nepotistas da plutocracia vigente.

A melhor e mais proveitosa das ditaduras é aquela que consegue, não somente sobreviver, mas vigorar dentro de uma democracia sob a justificação do inalienável interesse de nunca a derrubar.

Anúncios

patologia do acaso, diário, 88: O tempo trespassado

All-focus
Jorge Muchagato, 10 de Maio de 2018

 

 

2018, Maio, madrugada de 10. O tempo trespassado. Da vulgaridade dos dias sói a cada um decidir, ainda que em muito das suas qualidades pareçam semelhantes ou iguais, dado que o tempo é trespassado por um enorme cansaço que ao termo do Sol se nos depara, desprovido de toda a misericórdia, vazio de toda a contemporização. É o silêncio da noite, a obscuridade das parcelas da pequena conta diária; o silêncio que escolho e o silêncio de mim. A sombra que me abraça na ampla sala onde escrevo e quase sinto tocar-me os ombros, a luz do candeeiro baixo que ilumina até ao excesso a caneca branca do café, o maço dos cigarros, o isqueiro e a taça que serve de cinzeiro, projecta uma sombra densa e imóvel entre as pequenas pilhas de livros sobre a mesa, e essa quietude tão próxima da conquista desta escrita afigura-se-me estranha e bela por ser o tempo de um reduto precioso e um problema de realidade. Esta constatação angustia-me e fere-me as cordas vocais, mas já tomei o tranquilizante da noite e não devo recorrer a uma taça de vinho que pudesse suavizar um pouco as forças psíquicas que se confrontam no interior desta paz nocturna: a conhecida queda depressiva e a ausência de medo. Não sinto medo, mas não estou certo disso, pois receio estar a confundir o descampado do medo com a mais pesada forma de desespero, a omnisciente. Não ter medo não me liberta do desespero, como um homem bem ataviado a caminho da guilhotina. O trabalho exige-me que durma, todavia, estas veredas não acendem senão à noite, e a noite é implacável com a vulgaridade. Vou à cozinha buscar mais café bem quente mas amargo porque me tenho esquecido de comprar açúcar. Melhor assim, aprecio o café forte. A contingência em parte indomável das circunstâncias parece desalojar quase tudo do lugar onde deveria estar, cerceando uma liberdade na sua vivência radical. Acendo um último cigarro antes de me decidir ao sono e observo o movimento harmonioso das volutas brancas de fumo reveladas pela luz branca do candeeiro e o fumo informe que liberto pelas narinas e pela boca e se lhe junta. A tensão nas cordas vocais expande-se até à fronteira da respiração. Os pesadelos diários durante o sono cessaram ou não me recordo deles pela manhã. Saí ao final da tarde para caminhar e comprar cigarros, mas demorei-me pouco tempo na livraria.

patologia do acaso, diário, 87: Da “Globalização”

04a - Cópia
Imagem de rosto de Relacion Historica del Viage a la America Meridional hecho de Orden de S[u] Mag[estad] Para Medir Algunos Grados de Meridiano Terrestre, y venir por ellos en conocimiento de la verdadera Figura, y Magnitud de la Tierra, com otras varias Observaciones Astronomicas, y Phisicas, Primera Parte, Tomo Primero, En Madrid, Por Antonio Marin, M.DCC.XLVIII. [1748].

 

 

2018, Maio, 7.  Da “Globalização”. Nada é global, nem jamais o foi; sequer o universalismo das religiões e dos impérios. O conceito a que chamamos globalização não existe – é uma farsa vendida como simulacro e comprada enquanto índice de valor da antiga ideia de progresso. As mudanças mais lentas ocorrem nas mentalidades e a história não se detém para depois recomeçar; o seu movimento é, aliás, diverso, incluindo em si momentos paralelos, momentos de encontro e de desencontro. Se o conceito de globalização que aceitamos existisse para além dos fios, isto é, para além da comunicação mais elementar, recusaríamos comprar por mais ou menos bom preço, num lado do Mundo, o resultado do trabalho escravo infantil e adulto que ocorre, por um preço demasiado elevado e cujas consequências não suportamos ver, no outro lado do Mundo. E tanto mais.

patologia do acaso, diário, 86

All-focus
Fotografia: Jorge Muchagato, 19 de Abril de 2018

 

 

2018, Abril, 25. Acordei demasiado cedo, um longo pesadelo de que recordo fragmentos reduzidos num meio sufocante de gritos inaudíveis. Retomei o sono e o pesadelo regressou, mas não consigo saber, agora, se foi a continuidade do primeiro ou outro. A luz tarda, os dias não abrem o bastante para o consolo do calor e o céu permanece fechado à violenta vida do sol. Como um Sísifo, mas sem condenação que entenda, recomeço a escalada da rocha do silêncio, da ravina de um estar envenenado de desespero e de sofrimento, de lonjura. A realidade o que é, e o tempo próprio, o que é. Para conservar a lucidez num tempo que combate todo o pensamento complexo e a sua natural e lenta sedimentação, é necessário recusar a realidade instituída desta Era da Invisibilidade. (Serei eu o erro, não me tenho em conta suficiente para o considerar de outra forma; mas não sendo esse erro não seria eu e eu sofro, mas não me odeio.) Depois da passagem da fanfarra comemorativa do dia e do abundante chilrear de alguns pássaros, vaga um silêncio imóvel sob o céu cinzento, mas a luz parece ligeiramente mais intensa, talvez o dia abra. Começo a levantar-me, é a renovação matinal dos antidepressivos, sinto o peito menos oprimido, a poeira do sufoco dos pesadelos nocturnos dissolve-se, desejo respirar, é tempo de deitar as mãos ao meu ofício de historiador. (E ontem reparei que umas ervas vulgares despontaram do chão, sob a travessa inferior do mármore onde encaixa a porta da cozinha que abre para a varanda.)

patologia do acaso, diário, 85

All-focus
Fotografia: Jorge Muchagato, 25 de Abril de 2018

 

 

2018, Abril, 24. Quando chego aqui, neste canto da sala afogada em penumbra, cuido-me a própria matéria do silêncio e a razão inteira do motivo esfacela-se no precipício, na obscuridade de todas as impressões até este momento se terem desfeito numa imobilidade intraduzível. Os fragmentos e as ruínas de frases perdidas onde não era possível parar, algumas imagens, afiguram-se frágeis ao meu juízo. É inútil prospectar as razões deste desamparo, pois esse exercício culminaria num cansaço ainda maior do que fazer valer o dia para além do trabalho a que me propus. O céu plúmbeo do fim do dia angustiou-me e respirei com mais determinação enquanto caminhava pelas ruas habituais do regresso a casa. A luz do tempo parece sufocada por um véu artificial. O meu pensamento e os meus gestos parecem, em momentos de acentuada acuidade, separados de mim pela dúvida de os meus braços serem os meus braços e de o que penso ser pensado por mim. Já tomei o tranquilizante que me ajuda a dormir, não é possível descer mais e contento-me com o intraduzível que me estanca.

patologia do acaso, diário, 84: «Entre o passado e o futuro»

All-focus
Fotografia: Jorge Muchagato, 20 de Abril de 2018

 

 

2018, Abril, 20. «Entre o passado e o futuro». O A. seguiu para a escola pelo pedaço restante do carreiro arenoso, e eu alcancei o alcatrão em direcção ao café. É cada vez maior a distância que percorre sozinho até à entrada da escola e isso é bom, a sua cabeça adensa-se e sugere-me a distância devida a essa solidão, sabe que nunca estará sozinho, eu sei que ele sabe, mas está a sedimentar-se mais e a ser construída a estrada que aguarda a decisão dos seus passos.

Tomo o café e enquanto fumo o cigarro sinto a luz e o calor do sol na pele do rosto e das mãos. À medida que descemos em direcção ao leito do mar, a água exerce maior pressão, arrefece e predomina a escuridão; se nos elevarmos, o oxigénio rareia até deixar de existir, o ar arrefece e achamo-nos na escuridão; mas é generosa a Terra e a existência o Bem. Retiro o livro e faço no texto os sublinhados necessários com este lápis que a M.T. me trouxe da Casa-Museu Amália Rodrigues.

Tudo isto adquiriu no meu pensar uma representação bela e boa, fixei a imagem e escrevo, «entre o passado e o futuro»*.

 

*. Entre o Passado e o Futuro, título do livro de Hannah Arendt a que pertence a página fotografada.

patologia do acaso, diário, 83

All-focus
Fotografia: Jorge Muchagato, 7 de Abril de 2018

 

 

2018, Abril, 7. … mas a realidade, o que é: um erro desoriginado; e a vida, um imenso esforço, um temeroso precipício no gume luminoso do vão a um passo descarnado, sob o simulacro da verdade inútil de uma tomada de perspectiva; um cansaço sem génese nem fim que nos salva da loucura completa. Concedo-me uma falsa suspensão do movimento antes de descer o que falta das escadas e quando alcanço a rua já não encontro a chuva nem a abóbada plúmbea que existiam à chegada. Caminho devagar sobre o passeio calcetado, com algum esforço, o pensar está longo e denso para se acordar com qualquer movimento e o diafragma pesa-me de surda ansiedade, de histeria venosa, de angústia a latejar um sentido de depressão geográfica; precipício sob uma revolta embrutecida a toda a justificação. A sonolência procede de ter levado a cabeça até uma dada fronteira e de me ter profetizado a enlouquecer aí. A explicação desta sonolência que me enevoa o cérebro e confere força de gravidade ao pensamento, que me implode a percepção enquanto caminho pelas ruas da cidade, posso atribuí-la também à metade do tranquilizante que todos os dias tomo de manhã, mas não é a verdade. A indiferença sonolenta que atribui peso às pálpebras, à cabeça enfim, é uma depressão da linguagem, uma descoincidência com a realidade que a um tempo me guarda do mundo e impele a continuar fingindo uma ausência de destino. Passeio pelo parque, fixo a sombra esguia e bela das árvores sobre o relvado e a fragilidade da Primavera que se eleva da terra. Também esses indefesos pontos brancos fixo. Por nenhuma razão que me dê à energia de indagar, o desenho das sombras e os malmequeres pequeninos ainda rasando a terra, são belos. Também a copa das árvores começa a rebentar, mas logo o olhar embate no céu claro. Estou na minha linguagem, longe e sem remédio por novo desespero, porque não é mais possível ver e falar como antes, pois algumas veias foram cauterizadas, algumas feridas que já não amo como antes, e assim o pensar é uma outra coisa, uma realidade descoincidente que decifra de modo implacável, é a única maneira possível, uma tomada de perspectiva mais decidida porque fora de todas as feridas com a excepção da primeira – o vazio, o nada e a destruição, os números crípticos, indecifráveis, do acaso de um espasmo e, depois, da prosseguição no calor amniótico dentro de uma fronteira frágil e dolorosa. Não consigo pensar enquanto olho as lombadas e as capas dos livros, nem creio que descubra alguma frase, alguma palavra, é quase tudo absurdamente vulgar e expectável e, nos raros casos em que não é assim, para quê. Para uma história basta entrar na rede ou sair à rua. É preciso muito mais do que contar, o entretenimento é excedentário e vai cumprindo à medida que a selva se expande. Aqui é imperativo encontrar as devidas aspas para a existência e, por conseguinte – mas a realidade, o que é.

 

 

All-focus
Fotografia: Jorge Muchagato, 7 de Abril de 2018

patologia do acaso, diário, 82: O inúmero

All-focus
Fotografia: Jorge Muchagato, 6 de Abril de 2018

 

 

2018, Abril, 6. O inúmero. No seguro desespero da respiração, não sei explicar-me a chuva nem a cinza que se interpõe entre a a clareira da minha sede de horizontes oscilantes, a espaços vã ou fora de toda a esperança, e a película azul da atmosfera que antecede o frio e a escuridão. O tempo é o vazio, o nada e a destruição, no mesmo inúmero instante existe e não se encontra nem sente ou desfaz-se dentro, em miríades de pontos luminosos num quê perfeito por excesso depois de um fim. Um Bem eterno onde toda a harmonia cabe dentro do mais puro conceito de silêncio, dentro da palavra silêncio. E a Criação regressa depois, na face ao espelho.

 

All-focus
Fotografia: Jorge Muchagato, 6 de Abril de 2018

patologia do acaso, diário, 81: As qualidades do silêncio e o desejo de viver

165a
Jorge Muchagato, Diário gráfico, escrita com aparo, «vieux-chêne», colagem, 2010.

 

 

2018, Abril, 3. As qualidades do silêncio e o desejo de viver. A nossa primeira realidade é o silêncio e a escuridão; o mundo o oceano materno, o cosmos a placenta. Aporta a respiração da pele, chegam os primeiros sons difusos, a primeira lógica sonora, as palavras. Depois estamos, principiamos a existir nos Elementos, a desbravar a consciência. À realidade do silêncio no novo cosmos acresce a película do silêncio enquanto circunstância. Essa película transforma-se lentamente em terra, num tempo por sedimentação, noutro tempo por assoreamento, algumas vezes por ambos os processos. Essa terra é de uma fertilidade infindável: barro, semeadura, pousio, recomeço. O silêncio é então matéria e a linguagem indestrutível, pois ambos se conquistam num processo de acasos, de caos e de ordem que é o tempo doado. Então o silêncio da Natureza coincide com o nosso e somos obrigados ao acaso injustificado que nos exige o sentido individual. Essa coincidência entre o silêncio sanguíneo e o silêncio natural é o desejo de viver.

patologia do acaso, diário, 80: Um último reduto: o trabalho sobre a palavra

All-focus
Fotografia: Jorge Muchagato, 25 de Março de 2018

 

2018, Março, madrugada de 29. Um último reduto: o trabalho sobre a palavra. [ Tenho uma precisão sanguínea de silêncio; uma existência venosa de silêncio. O silêncio é o que existe antes e depois das palavras. A linguagem emerge do silêncio e procura, respira, umas vezes como raízes, outras vezes como ramos. Procuro o silêncio que é uma forma de solidão certa e que na música me pacifica enquanto escrevo, da obscuridade ou da escuridão. As palavras transpõem o silêncio; o silêncio deveras humano e nada mais; as palavras, absoluto plausível à humanidade, e assim a música. Tenho a palavra próxima da música. Escrever é o silêncio; escrever pode ser um silêncio acúleo. ] O capitalismo neoliberal, que todos os dias nos assegura do usufruto do mundo inteiro, da liberdade e da felicidade, do funcionamento eterno do sistema que a todos educa e por todos zela, instaura, com paciência, um novo «pensamento selvagem», uma nova espécie de pensamento mágico, e a ambos apresenta, sob os diversos nomes que a conveniência requeira, como o caminho único para o futuro e a forma mais actualizada, feliz e fácil, da antiga ideia de progresso. Um dos dramas do tempo que transcorre é o de ninguém saber o que é e o que significa o progresso – ninguém também sabe em que conceptualização da história assentámos. Esse definido caminho único é profundamente sedutor porque abole o trabalho sobre a palavra e, por consequência, sobre os conceitos. Quase ninguém sabe do que fala quando fala; a palavra perdeu o mistério e a sedução que nos puxava à conquista delas, quer dizer, à decifração dos seus significados. Estamos, enfim, prontos para o conforto da escravidão. Apesar de tudo o que construímos e por que passámos. A educação escolar é um entrave ao triunfo absoluto do capitalismo neoliberal e é portanto necessário domesticá-la, isto é, transformá-la num simulacro, numa coisa que parece mas não é. Ora, transformar a educação escolar num simulacro, é transformar também nisso as pessoas inteiras, cercear-lhes no espírito a liberdade. Somos, cada um daqueles que não verga a este simulacro mundializado e defende a clareira de liberdade conquistada com a morte e o sangue, um último reduto do trabalho sobre a palavra; um último reduto da construção livre da humanidade que enfim se equaciona na herança intelectual individual. Porque a democracia não é uma questão para o capitalismo: «O capitalismo não é nem não é democrático, não é nem não é civilizado, tudo depende dos seus interesses locais e das estratégias políticas convenientes a esses interesses. É o mesmo capitalismo que é democrático aqui e antidemocrático algures, civilizado onde pode e energúmeno onde necessário.»* [ Felizmente envelheço e procuro o silêncio do último reduto: o trabalho sobre as palavras. ]

 

* Sousa DIAS, Pré-Apocalypse Now: diálogo com Maria João Cantinho sobre política, estética e filosofia, Lisboa, Sistema Solar (Documenta), 2016, p. 29.