patologia do acaso, diário, 44: Da imprescindível necessidade de tempo

DSC02442 - Cópia

2017, Julho, 13. Da imprescindível necessidade de tempo. É necessário muito tempo, muitas diversas formas e entendimentos do tempo: é uma frutuosa possibilidade da absoluta e absurda carência de sentido da vida. Encontramo-nos, existimos, agimos e acabamos aqui, não nos foi dada, pelas categorias cognoscitivas que possuímos para decifrar, compreender e construir a realidade, evidência alguma de outro qualquer lugar onde possamos re-existir para além da carne deste. É nosso, portanto, apenas aquilo que jamais poderemos domar, apropriar-nos ou modificar: o tempo. (É preciso muito tempo para ver uma árvore, decifrar o movimento do mar, lançar as mãos em concha à agua do rio apenas para a sentirmos na pele das mãos, do rosto, nas pálpebras, nos lábios.) Mas não pensamos nisso com suficiente frequência nem nos conferimos a dignidade de sobre o tempo em que nos consumamos construir justificações (Séneca), razões, sentidos úteis ou simplesmente prazerosos. A consciência da necessidade e usufruto deleitoso ou útil do tempo pode ser uma forma de resistência contra a dignidade que a actual civilização todos os dias nos suga, desvitalizando-nos, até que nos tornemos invisíveis e reduzidos a um número que consome e paga sem qualquer noção de sentido ou de necessidade. Esta é uma das razões pela qual a actual civilização está a tonar invisível, em termos sociais e pedagógicos, a saúde mental. Os objectivos alienatórios desta civilização da “informação” e do “entretenimento” a qualquer preço no sentido do consumo, material e imaterial, desregrados, estão nos antípodas da necessidade imprescindível de uma preocupação pública com a saúde mental. Afigura-se-me que o futuro imporá sobre a saúde mental o mesmo nível de densidade de preconceito e de exclusão que em tempos recentes trabalhou e construiu para outras categorias intelectuais, biológicas ou de género. Todos os dias esta morte do tempo descobre novos preconceitos, alguns dos quais consegue domar transformando-os em doença e por consequência medicando-os, ou em simples exclusão com graves consequências no percurso escolar e profissional de uma pessoa. Já não existe uma resposta estruturada de política de saúde pública para a saúde mental; as pessoas que sofrem de algum tipo de doença do foro da saúde mental, a mais comum das quais será a depressão – que se expande sob o silêncio vendado dos poderes públicos – e que não detêm os meios económicos para obter a intransponível qualidade de vida (e inclusão social) ficam entregues a si mesmas, ou mais verdadeiramente, entregues a um suplemento de drogas que as levante todas as manhãs da cama para um novo dia. Porque o tempo tornou-se um “luxo” arcaico e dispensável em face das metas, dos objectivos, dos índices de “sucesso” e de “realização”, do “lixo” tecnológico de uma espécie de supra-tempo que ninguém jamais alcançará mas quase todos afiançam conhecer e viver e dele retirar prazer. É um “lixo” comestível destinado a queimar tempo, desde livros insanos que prometem a juventude intacta dentro de uma carcaça humana, ou concluem que Deus não tendo tempo suficiente criou as mães, a objectos inteiramente dispensáveis a maior parte do tempo necessário para usufruir da profana respiração do mundo onde existimos uma só vez: a respiração das árvores, do mar, da luz do sol, da terra.

É necessário muito tempo, até para algumas acções ou gestos vulgares que precisamente o tempo tornou vulgares e tão importantes; muito tempo para decisões que carecem da rapidez de uma resposta, porque, justamente, existe muito tempo antes e muito tempo por vir. A escolha de uma palavra carece do tempo para nos decidirmos por essa palavra e não por outra muito semelhante, mas que não é essa palavra, porque essa palavra pode ser o alicerce de um conceito, de um significado, de uma consequência interpretativa. Ensina-se hoje, creio, a arte de não ter nem sentir o tempo, a arte da voragem de acontecimentos (um sentimento é um acontecimento) que se devoram numa sucessão vertiginosa e quase vazia de entendimento, de significados e de consequências. Tudo acontece na fronteira do necessário imediato para não permanecer e assim se evitar a angústia da decisão, a angústia de se ter um natural motivo de conversa, a dor própria do tempo que se consuma, o sofrimento, em suma. Mas o sofrimento existe e ergue a força moral, é necessário à vida, e esse sofrimento do tempo não desaparece, apenas se aquieta ou sufoca, mas não se mata e espera-nos, é certo que nos espera, e em geral tarde demais. Esquecemos, todavia, (esquecemos tanta “coisa” que erradamente encerramos na conclusão do arcaísmo), que a «espera» ou «esfera» é a esperança do mundo. Receio que não seja hoje possível compreender a fecundidade dessa esperança do mundo fundamentada nos trabalhos do tempo. Não é possível «chegar novo a velho», como nos querem, sob o alpendre do dinheiro fácil, convencer; é apenas possível chegar a velho o melhor que nos seja possível em corpo e mente; porque não se chega a velho sem muito tempo e fazemo-nos novos contra o tempo.

DSC01614

*

Fotografias: o livro de Alexandre de Humboldt, Histoire de la Géographie du Nouveau Continent, tome quatrième, Paris, Librairie de Gide, 1837, 12 de Julho de 2017 e Parque, 17 de Fevereiro de 2017.

patologia do acaso, diário, 43: Fragilidade, Razão e silêncio

IMG_20170618_201929 - Cópia

2017, Junho, 19. Fragilidade, Razão e silêncio. A nossa passagem sobre a Terra é efémera, ténue, «frágil» [1] e dependente de arbitrariedades e de contingências que em muitas ocasiões transpõem sem piedade nem benevolência a mais firme das vontades, o mais poderoso dos desejos. Não sendo, com absoluta propriedade, o martirizado Job, também não somos, com a mesma absoluta propriedade, um qualquer deus, incontáveis deuses. Não creio, como escreveu Natália Correia, que seja «grosseiro viver sem deuses», embora lhe compreenda e de natural modo lhe inveje tal crença ou desespero – «I. Não jurarei que qualquer deus exista. Só sei que é grosseiro viver sem deuses. Porque mais importante que os deuses existirem é acreditarmos neles. E mesmo que, existindo, nos ignorem, não sejamos nós a ignorar a sua autoridade primitiva que, nutrindo de segredos divinos as florestas, os rios e os ventos, faz correr o sangue em nossas veias. Usando este saber, menos dano nos farão os saqueadores do verdor da natureza. Supersticiosos como todos os malfeitores, tolhimento lhes será o terror sagrado de depredarem flores, árvores e fontes em que os deuses são tão reais quanto elas são. Baste-vos esta ciência: onde vos retiver a beleza de um lugar, há um deus que vos indica o caminho do Espírito. II. Acreditemos por conseguinte nos deuses. Quer eles existam ou não. Porque da efémera vida o que colhemos é o exercício da beleza que nos alimenta de sensações divinas. Mas ponhamos todo o cuidado em não privilegiar esta ou aquela divindade por mais simpática que ela seja a um certo sentir da nossa incerta vida. Os deuses ou são todos ou nenhum» [2]. Bastará ferrarmos as unhas na pele para entendermos dela a fragilidade e nesse gesto a fragilidade da nossa existência. Mas a verdade é que não sendo nós Job nem Deus, a pele regenera-se, o corpo sem razão luta pela sua sobrevivência, o labirinto do ser reproduz-se a cada nova compreensão da obscuridade. (Não conquistamos a obscuridade, vamos obtendo dela, sob a condição do entendimento, da resignação ou sob outra qualquer e imaginativa condição, as tréguas sucessivas, necessárias para o pó da estrada amassado na língua.) Considerando, portanto, que a própria evolução da espécie humana demonstra a natural e lógica inexistência de deuses de qualquer natureza, situamo-nos à mercê de uma arbitrariedade primária e universal que em milhares de anos de ser temos vindo a descodificar numa luta sanguinolenta de libertação de sentidos e de intervenções divinas.

Eis uma parte da narração que faz João de Barros (ca.1496-1570), na «Primeira Década» da sua Ásia (1552) do que contenderam Diogo de Azambuja, capitão-mor da armada, com o «rey» local Caramansa para a construção do «castello que agóra chamamos de sam Jorge da Mina» e «do consentimento que deu [Caramansa] a se fazer a fortaleza, com a qual ficou o tracto do Commercio assentádo em páz te oje»: «[…] e que por estas cousas procederem de amor, el rey [D. João II] lhas queria pagar [a Caramansa] com amor que tinha mais vantaje que o seu, que éra amor da saluaçam de sua álma, cousa mais preciósa que os hómeẽs tinham, por ella ser a que lhe dáua vida jntendimento pera conhecer e entender todalas cousas, e per a qual o hómem era diferente dos brutos. E aquelle que a quisesse conhécer, ęra necessário tér primeiro conhecimento do senhor que a fizéra, o qual éra deos que fizéra o çéo, lũa, e tęrra, com todalas cousas que nella há: aquelle que fazia o dia, e noite, chuiuas, trouões, relampagos, e criáua todalas nouidádes de que se os hómeẽs mantinham. Ao qual deos, el rey de Portugal seu senhor e todos os outros príncipes da Christandade (que ęra hũa grande párte da terra do mundo) reconheciam por criador e senhor: e a elle adoráuam e nelle criam como aquelle de quem tinham recebido todalas cousas, e a quem a sua álma auia de jr dár conta depois da mórte do bem e mal que nesta vida fizéra» [3].

Penso (eu, que não sou filósofo, nem em tais alturas me arvoro, mas apenas escritor da história «porque a longa velhice dos tempos afasta da memória o proprio conhecimento das cousas passadas, as quaes, se as a escritura não representasse ante nossos olhos, cego seria a cerca disso de todo nosso saber [,] E pois por representação do presente aos que hão-de vir me assento a escrever […]» [4]), sem novidade alguma, que a nossa primeira consciência-evidência enquanto seres existentes é a realidade da morte e que tudo daí decorre, talvez absolutamente tudo do que somos, quando as “coisas” não são apenas o que são, mas sobretudo aquilo em que as mudamos, tornando-as no que somos, sendo que fazemos as “coisas” serem o que somos porque assim o queremos e não que as “coisas” sejam apenas o suficiente que nos dizem que são. Começamos por ser para a morte e precisamos de um sentido que nos minta, que nos iluda a esse respeito. O sermos para a morte disse-o Heidegger (1889-1976) – «L’homme, être des lointains, est un être pour la mort. Il est le seul animal qui sait qu’il va mourir» [5] – e antes dele, Voltaire (1694-1778), no quinto tomo do seu Dictionnaire Philosophique – «De la raison, des mains industrieuses, une tête capable de généraliser des idées, une langue assez souple pour les exprimer; ce sont là les grands bien-faits accordés par l’Étre suprême à l’homme, à l’exclusion des autres animaux. […] On doit remarquer que ce n’est pas le feu de l’imagination, mais la méditation persévérante, et la combinaison des idées, qui ont fait inventer les arts, comme les mécaniques, la poudre à canon, l’imprimerie, l’horlogerie, etc. L’espèce humaine est la seule qui sache qu’elle doit mourir, et elle ne le sait que par l’expérience. Un enfant élevé seul, et transporté dans une île déserte, ne s’en douterait pas plus qu’une plante et un chat. Un homme à singularités a imprimé que le corps humain est un fruit qui est vert jusqu’à la vieillesse, et que le moment de la mort est la maturité. Étrange maturité que la pourriture et la cendre? la tête de ce philosophe n’était pas mûre. Combien la rage de dire / des choses nouvelles a-t-elle fait dire de choses extravagantes!» [6] – mas creio que pensamos, hoje, muito pouco nisso, a não ser quando nos deparamos, para além dos fios e do éter (não existe outra globalização senão essa; nada é global), com os incomensuráveis da nossa expectante fragilidade e da impiedade das leis da Natureza. «Porquê?» é a única palavra da primeira página, hoje, de um jornal (Público). Dotados, como somos, de razão, a pergunta pareceu-me, de imediato, inútil – no dia 15 de Junho de 1752, uma experiência de Benjamin Franklin demonstra que o raio é uma enorme descarga eléctrica e o seu poder destrutivo pode ser parcialmente domado por aquilo que acabara de inventar, o pára-raios. É verdade que a palavra latina spiritus significa sopro, mas alguma “coisa” se pode fazer com esse sopro da vida enquanto o irreversível destino do ser humano não se consuma. «Porquê?» só será uma pergunta inútil se a resposta a ela continuar a ser a impotência dos explorados.

«Limites do espírito humano. Estão por toda a parte, meu pobre doutor. Queres tu saber como o teu braço e o teu pé obedecem á tua vontade e como o teu fígado não obedece? Procuras tu saber como o pensamento se forma no teu débil entendimento e esta criança no útero desta mulher? Dou-te tempo para responderes. O que é a matéria? Os teus semelhantes escreveram dez mil volumes sobre este artigo e encontraram algumas das qualidades desta substância, aquelas mesmas que as crianças conhecem tão bem como tu. Mas esta substância, no fundo o que é? E que é aquilo a que deste o nome de espírito, da palavra latina que significa sopro, sem nada poder fazer de melhor do que dar-lhe o nome, apenas porque não tinhas qualquer ideia? Olha este grão de trigo que lanço à terra e diz-me como ele se reanima para produzir um tubo com uma espiga no topo. Ensina-me como a mesma terra produz uma maçã no alto desta árvore e uma castanha na árvore do vizinho. Eu podia redigir-te um in-folio de perguntas a que não saberias responder por mais do que três palavras: Eu não sei. E todavia foste distinguido com as tuas graduações, e puseram-te uma toga e uma beca, e chamam-te mestre. E esse outro impertinente, que adquiriu um cargo público, convenceu-se também de que tinha adquirido o direito de julgar e condenar aquilo que não compreendia! A divisa de Montaigne era: Eu, o que sei? E a tua é: O que é que eu não sei?» [7]. E de facto: «Aqueles que dizem existirem verdades que devem ser escondidas do povo, não têm motivo para se alarmarem. O povo nada lê, trabalha seis dias por semana, no sétimo vai para a taberna. Numa palavra, as obras do filósofo não são feitas senão para filósofos, e todo o homem honesto deve procurar ser filósofo, sem se envaidecer de o ser» [8]. As tabernas tornaram-se, em Portugal pelo menos, lugares do mais chic que pode haver, com chef e tudo o mais a que o uniforme obriga, algumas, como no interior dos desenhos de uma história de Astérix, trocando o b pelo v. Talvez seja verdade ser «prudente o silêncio de quem só sabe sonhar» [9], mas não estou certo disso; em todo o caso, parece-me, não é prudente, nem respeitoso, o silêncio de quem deseja saber perguntando com a devida razão, não apenas «porquê?», mas ainda «como?», porque não existe apenas o lugar centrípeto do problema mas toda uma série de questões que enxameiam as paredes do vórtice.

IMG_20170618_202053 - Cópia

***

[1]. «É tão frágil o que nos sustém», frase citada no blogue Antologia do Esquecimento, de Henrique Fialho, publicação de 18 de Junho de 2017, originária do blogue Jardim de Luz, publicação do mesmo dia, por Maria.

[2]. Natália Correia (1923-1993), «O Armistício», 1985, in Idem, O Sol nas Noites e o Luar nos Dias, volume II, s.l., Círculo de Leitores, 1993, p. 221.

[3]. João de Barros, Ásia. Dos feitos que os Portugueses fizeram no descobrimento e conquista dos mares e terras do Oriente, Primeira Década, Livro Terceiro, capítulo primeiro: «Como el rey dom Joam socedendo no reyno per falecimento del rey dom Afonso seu pay: mandou lógo hũa grande armada ás pártes de Guiné a fazer o castello que agóra chamamos de sam Jorge da Mina, da qual armáda foy capitã mór Diogo Dazambuja: e como se vio com Carámansa senhor daquelle lugar», fac-símile da quarta edição revista e prefaciada por António Baião conforme a edição princeps (Coimbra, Imprensa da Universidade, 1932), Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1988, pp. 71-75.

«[…] e que por estas coisas procederem de amor, el-rei [D. João II] lhas queria pagar [a Caramansa] com amor que tinha mais vantagem que o seu, que era amor da salvação de sua alma, coisa mais preciosa que os homens tinham, por ela ser a que lhe dava vida entendimento para conhecer e entender todas as coisas, e pela qual o homem era diferente dos brutos. E aquele que a quisesse conhecer, era necessário ter primeiro conhecimento do senhor que a fizera, o qual era Deus que fizera o céu, lua, e terra, com todas as coisas que nela há: aquele que fazia o dia, e noite, chuvas, trovões, relâmpagos, e criava todas as novidades de que os homens se mantinham. Ao qual Deus, el-rei de Portugal seu senhor e todos os outros príncipes da Cristandade (que era uma grande parte da terra do mundo) reconheciam por criador e senhor: e a Ele adoravam e n’Ele criam como aquele de quem tinham recebido todas as coisas, e a quem a sua alma havia de ir dar conta depois da morte do bem e mal que nesta vida fizera»

[4]. Gomes Eanes da Zurara (1410/1420-1474), Crónica de Guiné, segundo o ms. de Paris, modernizada, Introdução, notas, novas considerações e glossário de José de Bragança, s.l. [Porto], Livraria Civilização Editora, 1973, capítulo III: «Em que conta a geração de que descende o infante D. Henrique», p. 19.

[5]. Martin Heidegger, Qu’est-ce que la métaphysique?, conférence de 1929, Cahier de l’Herne, consacré à Heidegger, traduction de Roger Munier, pp. 47-58, online.

[6]. Voltaire, Dictionnaire Philosophique, avec des notes par M. Beuchot, tome V, Paris, Lequien Fils Librairie, MDCCCXXIX [1829], «Homme», pp. 237-238.

[7]. Voltaire, Dicionário Filosófico, [1764], tradução e posfácio de José Domingos Morais, Lisboa, Sistema Solar, 2014, pp. 289-290.

[8]. Ibidem, «Prefácio», p. 6.

[9]. Fado «Asas Fechadas» (Luís de Macedo / Alain Oulman), por Amália Rodrigues, do disco Amália Rodrigues, 1962.

 

IMG_20170618_202034 - Cópia

Fotografias: 18 de Junho de 2017

patologia do acaso, diário, 42

2017, Junho, 14. Quase tudo é mentira, ou pela metade – a hipocrisia, o medo, as convenções, refreiam de ambas a verdade e mudam-lhes os nomes para que sejam toleráveis e o simulacro prossiga a ordem do mundo no horror de se acordar para mais um dia, no cansaço de outra manhã desfigurada pelo silêncio e pela omissão; é tudo mentira, é tudo um simulacro; tudo está contaminado pela falta de coragem de resolver o arbítrio de um acaso.

patologia do acaso, diário, 40

DSC02236 - Cópia

2000, Janeiro, 1. A mesa foi ordenada longa, no lado maior da sala revestida a meios-toros de madeira negra até meia-altura. Deserta, a mesa aguarda pouco mais do que a circunstância, o único reverso da solidão. Sentamo-nos, não me lembro de quantos éramos, agora. Sobre a noite dos tristes sem lugar, o silêncio e a distância abatem como um véu amortalhado sobre as expressões, os gestos, os primeiros ruídos dos talheres, os primeiros monossílabos, os primeiros risos que não carecem do vinho. Quase tudo me parece falso; o excesso dos cumprimentos e das conversas, a alegria adequada que se combinou e o vinho tornará tão falsa que parecerá verdadeira; uma falsidade visível até ao ridículo. Sacos repletos de garrafas de champanhe, papelinhos coloridos ainda embalados, esperam como despojos do que não existe, e talvez nem se espere que exista, apenas a certeza feérica de bailarem pela sala. Fotografias. Esta não é uma vulgaridade pura; parecemos tão pobres: um lugar por falta de outro, gente por não haver outra. Não eu, quanto a isto. À minha frente, alguém agarra a comida com as mãos, o azeite e o vinagre escorrem-lhe pelas beiças. Uma ansiedade selvagem que é o verso, esvazia as travessas ordinárias de comida. Ninguém transparece a vontade sincera de estar sentado naquela mesa longa, um intervalo verídico de náufragos antes da falsidade por omissão. É um ritual; cumpri-lo é uma clareira, o pacto aceite. A noite dissolverá tudo, cada pormenor de tudo, e reporá o deserto. Nada mais nos resta. [Guardo algures as fotografias; no acaso inexplicável de papéis velhos encontro-as, às vezes, no barracão da casa que ficou. Um resto, da próxima vez que as encontrar, rasgo-as.]

*

Ilustração: [sem título, que nunca teve, nem qualquer que agora lhe encontre], tinta-da-china, papel, plástico, ca. 2001.

patologia do acaso, diário, 39: O mesmo “disco”, a mesma “música”

 

001k
Pio XII sulla sedia gestatoria, nel decennale dell’incoronazione, 12 de Março de 1949, fotografia sem indicação de autoria, Wernen Bergengruen – Romisches Erinnerungsbruch / Roma Sparita, Foto Storiche

2017, Maio, 14. O mesmo disco, a mesma música. As pessoas atribuem hoje aos Papas, consciente ou inconscientemente, o mesmo poder taumaturgo que durante séculos se atribuiu aos reis pela razão principal de serem os representantes directos e inquestionáveis do deus judaico-cristão que criara o Universo e lhe impusera uma ordenação perfeita que transcendia o entendimento humano.

O poder dos reis podia conferir a cura ou a vida – no capítulo XCVIII da Crónica de Dom João II, por Garcia de Resende, intitulado «De hum homem a que el Rey deu a vida sendo julgado á morte», «antes das Festas do sacamento do Principe dom Affonso em Euora foy el Rey a Relação hũa sesta feyra, como sempre fazia, e na mesa grande era julgado hum homem á morte por matar outro, e foy trazido diante del Rey, e por saber que era dado sentença que padecesse, disse: Senhor, quatorze annos há que sam preso, e em quanto tiue fazenda pera peitar sempre me alongarão meu feyto, e agora que já não tenho cousa algũa me julgaram á morte, e se então me matarão eu soo padecera, e á minha molher e filhos ficaralhe fazenda pera se manterem, e agora, senhor, matam todos, pois tudo gastei por alongar a vida, olhe vossa alteza isto com olhos de piedade, e de tam virtuoso Rey como he.» O rei, D. João II, leus os termos do feito, considerou que o homem «dezia verdade» e disse aos desembargadores: «Melhor merecíeis vos outros todos a morte, que este pobre homem, mas quem hade matar tantos: e chamou então o homem, e disse que lhe perdoaua livremente, e que elle mandaria á sua custa por perdam das partes, e assi o fez, e o mandou logo soltar, e disselhe que enquanto não viesse o perdão, que se fosse as obras dos paços, que ahy lhe dariam cada dia dous vinteins, e o homem lhe beijou a mam, e o fez assim.» Dali por três dias, os rei visitou as ditas obras dos paços e «vio la o homem com huma muyto grande barba, que auia quatorze annos que não fizera, e disselhe: Nãos sois vos o a que eu dey a vida [?] Respondeo: Senhor si. Disse el Rey; Pois porque não fazei essa barba. E o homem disse: por não ter dinheyro que dar a quem ma faça. El Rey lhe mandou dar ahy logo dous mil reis, e disselhe: Ora hide logo fazer a barba, e não vos veja eu mais com ella: e o homem se lançou a seus pes pera lhos beijar, chorando com prazer, e rogando a Deus por sua vida, e seu estado. O capítulo seguinte é também sobre o mesmo tema: «De hum moço a que el Rey deu a vida, sendo tambem julgado á morte». «El Rey mouido de piedade, e contente das palavras do moço, disselhe: Pois o tambem fizeste, e assi o sabes dizer, bom homem deles de ser, e eu te perdouou livremente, e o mandou logo perante si soltar, e lhe ouue ainda por dinheyro perdão das partes, e o moço com prazer se lançou aos seus pes, e lhos beijou, e todos folgaram de el Rey lhe dar assi ávida, e lho louuaram muyto» (1). É esta força do herói supra-humano protegido pelos deuses, investido da força purificadora, redentora e, por fim, taumatúrgica, a que encontramos no Bonaparte idealizado que toca os pestíferos de Jafa (1799) (2); idealizado primeiro, algo messiânico mais tarde, em 2 de Dezembro de 1804, quando, na cerimónia da coroação que resultou do plebiscito, avilta o Papa Pio VII retirando-lhe das mãos o símbolo imperial para se sagrar a si próprio.imperador (3). O célebre quadro de Gros fora exposto no Salon de Paris dois meses anos, a 19 de Setembro.

001ha
Antoine-Jean Gros, Bonaparte visitant les pestiférés de Jaffa 11 Mars 1799, 1804, Paris, Musée du Louvre.
001jb
Jacques Louis David, Le Sacre de Napoléon, 1805-1807, Paris, Musée du Louvre

001ha - CópiaA taumaturgia latente dos Papas – a do actual espalhada por revistas que lhe dissecam o quotidiano e os seus objectos, dos sapatos à história da vida; existe até uma revista intitulada O Meu Papa, «cujo objectivo editorial», diz a directora, «é tornar mais fácil aos portugueses o acesso directo às mensagens e aos gestos do Papa», com um padre consultor editorial exultante por existir em Portugal «a primeira revista semanal do mundo dedicada a um Papa», mas «autorizada pelo Vaticano», nem outra coisa se esperava, com os conteúdos recolhidos «nas fontes oficiais da Santa Sé» (do maior interesse, calcula-se) – oculta e faz esquecer a sua terrena realidade muito pouco sacra.

001lÉ absolutamente irrelevante gostar mais ou menos deste Papa ou considerá-lo em acordo com os sinais do tempo. A Igreja católica apostólica romana esteve sempre contra os sinais dos tempos, a começar pela liberdade de consciência e pela independência da Ciência. A suposta simpatia e popularidade deste Papa é absolutamente irrelevante; deste ou de qualquer outro dos Papas anteriores eleitos no período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, particularmente depois de Pio XII, que morreu em 1958 – o Vaticano, minúsculo Estado soberano e resquício dos Estados Pontifícios que dividiam a Península Itálico, e que apenas em 1929, com o Tratado de Latrão, assinado por Mussolini e Pio IX, reconheceram o Reino de Itália – continua sendo um Estado teocrático, monárquico e electivo, governado por gerontes detentores de um poder absoluto, que não prestam contas senão à divindade em que acreditam e são os representantes terrenos; o seu modus operandi, ainda que respeitando a soberania e o poder temporal dos Estados laicos por não ter outra alternativa em termos oficiais, é transversal e a sua rede de lealdades funciona exclusivamente em relação à capital deste império religioso e financeiro, Roma, ao seu bispo, o Papa. Esta organização supra-estadual movimenta quantidades inimagináveis de dinheiro e o seu poder de influência, quando não devidamente respeitado e reverenciado, pode ter consequências fatais. Um papa mais simpático significa apenas uma esperança morta, uma expectativa vã de que o regresso da agulha ao sulco inicial do mesmo disco proporcione uma peça musical diferente.

*

(1). Garcia de Resende, Crónica de Dom João II e miscelânea, nova edição conforme a de 1758, introdução de Veríssimo Serrão, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1973, pp. 137-138.

(2). Antoine-Jean Gros [1771-1835], Bonaparte visitant les pestiférés de Jaffa 11 Mars 1799, 1804, óleo sobre tela, 5,23 m. x 7,15 m., Paris, Musée du Louvre.

(3). Jacques Louis David [1748-1825], Le Sacre de Napoléon, 1805-1807, óleo sobre tela, 6,67 m. x 9,90 m., Paris, Musée du Louvre.

patologia do acaso, diário, 38: Realidade, intervalo e regresso

001c

001d

2017, Maio, 14. Realidade, intervalo e regresso. Os intervalos da realidade servem apenas para tornar mais doloroso o inevitável regresso à realidade, e a felicidade concedida nesse interregno corresponde a uma piedosa esmola: a natureza da felicidade significa a mudança da realidade. Sucede que a felicidade não é concedida, conquista-se e não é um símbolo – respira-se, chora-se, come-se, canta-se, ri-se e pressupõe reciprocidade. Aceita a felicidade concedida, como se fosse uma carta de alforria, quem entende que a morte está à sua frente quando na realidade está ao seu lado. Estes três júbilos ditos colectivos não movem a realidade da vida comum portuguesa um décimo de milímetro; de facto, tornam-na ainda mais inamovível. O chamado Velho do Restelo, que é apenas um «velho de aspecto venerando, Que ficava nas praias, entre a gente […] Com um saber só de experiências feito», não está n’Os Lusíadas para ser menosprezado nem ridicularizado, nem simbolicamente morto, como sempre foi e ainda hoje é. É necessário saber, mas nisso ninguém pensa, porque não sabe ou porque não quer, que Os Lusíadas foram publicados em 1572 e que a primeira armada capitaneada por Vasco da Gama saiu de Lisboa para a Índia em 1497. Entre o acontecimento histórico e a publicação do poema estão de permeio setenta e cinco anos e mais de um século e meio desde o começo da expansão marítima e dos seus descobrimentos e conquistas. De 1415, o ano da conquista de Ceuta, até 1572, a realidade política e ideológica, cultural, social, religiosa e militar portuguesa alterou-se; não se mudou em termos irreconhecíveis, mas alterou-se; a realidade portuguesa e a realidade europeia. Muito «saber só de experiências feito» tinha já decorrido em 1572. Os Portugueses não gostam de Velhos do Restelo, mas não sabem que não é de Velhos do Restelo que eles não gostam: é da filosofia e da história; dos gritos dentro das suas consciências. Porque, de facto, os ditos Velhos do Restelo não impedem ninguém, não são uma «força de bloqueio» como dizia o outro cuja moral precisava dos mal dos outros, esperam até a naturalidade de se estar contra eles – mas esperam também a qualidade da fundamentação desse estar contra eles, porque os tempos consumam-se e com eles a razão humana, a crítica, o pensamento e a ciência. Os Velhos do Restelo existem para que pensemos, sem a experiência devida, antes de tomarmos decisões que carecem dessa experiência; mas enche muito mais o peito e o ego o idealismo adolescente que ultrapassou a idade plausível. Porque a verdade, de novo a escrevo, é esta: o povo aprecia e glorifica aqueles que o distraem e menospreza e insulta aqueles que o educam ou esclarecem; é muito mais fácil chegar a amigo do carcereiro do que merecer a amizade do libertador. Portanto, o resultado do orgulho nacional com os feitos da Bola, do Festival e da Religião, não vai ser outro senão este: o salário mínimo, a exploração de trabalhadores desprotegidos, os preços exorbitantes dos serviços essenciais, os contorcionismos interpretativos a que se obriga a Lei, os malabarismos pseudo-ideológicos que instrumentalizam a Educação e os seus profissionais, a legislação laboral, a saúde mental no sistema público, étecétera, não se moverão um décimo de milímetro.

001e

001f

*

Imagens: Luís de Camões [1524-1580], Os Lusíadas, Lisboa, em casa de Antonio Gõçalues, 1572, pp. 77 v.º – 79. Biblioteca Nacional de Portugal, Biblioteca Nacional Digital, Lisboa, de onde foram reproduzidas.