eroticon: XXXII: veias

o que nos liga e incita na recomposição do tempo é perene apesar da física: veias
onde correm as nossas vozes sanguíneas expectantes da perfeição curva dos braços, do silêncio da pele, do sal do suor, do cheiro dos sexos, do gosto das matérias do desejo;
veias
uma realidade existencial feita de veias, frágeis e à medida do corpo, indestrutíveis na categórica potência sexual e cognoscente – somos o mundo, este mundo onde a génese e o absoluto e por fim o nada acabará em nós
um encarnado conceito de sempre
(esqueçamos a eternidade, essa fantasia que justifica as uvas que não sendo nossas são verdes, essa fantasia que sublima a castração dos orgasmos)
sedento e faminto, denso e insano: abraço-te terrivelmente, disseste
: é a verdade, abraçamo-nos terrivelmente enquanto
nos extremos do destino único das veias a pele grita, a respiração adensa-se e cerra o diafragma saturado de ausência, o sexo humedece ou ejacula, a voz guia a cegueira do corpo que os lábios e as mãos hão-de redimir

por esta razão movente de futuro, por este estado íntimo do devir que dispersa a lógica,
eu não repito os livros no sentido
de o tempo decifrar a posse que já o ousa nas veias comuns

 

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Jorge Muchagato, dos diários gráficos, acrilico, tinta-da-china, papel, caderno de Fevereiro a Abril de 2000
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eroticon XXXI: penso-te no contorno da dor indómita

penso-te no contorno da dor indómita que fixa o cabo do desfiladeiro da matéria, o próprio corpo em indisciplinada sedição te pensa, uma constante
procura, uma contígua sede íntima – desfigurássemos o tempo, afrontássemos a imposição da geografia – mas
não vencemos a carência não apunhalámos a distância

sinto-te, nas modulações tonais da tua voz sinto-te,
não desdenho a vulgaridade deste inexplicável senciente: não sei vida sem ti;
sufoca-me a morte de poder vir a saber uma vida onde não sejamos corpo

respiro a tua existência em todas as demarcações da minha duração

é definitiva esta evidência no entendimento, no corpo, no tempo e no espaço transidos de ti,
nas diversas suavidades e violências da fonte solar, luz e calor; na densidade omnia da noite, cama e travessia do inconsciente

as minhas mãos no sangue fálico são apenas a circunstância carnal devoradora da espera;
desespero comum ensopado na pele e no sexo que sorve nas recíprocas vozes o devir
corpóreo do desejo na mais ínfima divagação

 

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Fotografia: Paulo Baptista, Lisboa, 2017

eroticon XXX: a tarde resplandece no porvir do meu corpo

a tarde resplandece no porvir do meu corpo, o dia inteiro
as gradações da luz são os diversos tempos do sexo
o ar sufoca de privação e emana o desejo e a posse selvagens
dos desconhecidos cheiros da intimidade comum,
um desejo na essência dos tecidos da carne, anterior

o dia circunda a noite circunda o dia
insectos vagueiam, sobre o feno, nas ondas do calor

somos a carne centrípeta de uma realidade sem remanescências
devimos nos eflúvios do uno

 

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Salvador Dali [1904-1989], Visage du Grand Masturbateur, óleo sobre tela, 110 x 150 cm, 1929. Madrid, Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofia

eroticon XXIX: em cada manhã vítrea que passa no cânone do mundo

nas singulares albas que a terra consuma no cânone do mundo, em cada noite
que a distância aflige a mútua pele reclamada, a expectante manhã revenida fica
neste viver a par que dobra o tempo – sobrepõem-se as horas
de acordar e de dormir, o chá, as imagens, as espadas de São Jorge, a sua projecção
solar sobre as páginas do caderno-devir, penso
: é bom ter sobrevivido

pormenores possíveis de buril no ácido da longitude,
a utopia de uma conjura do universo cresce
dos fluídos da voz

em cada manhã vítrea que passa no cânone do mundo
o reflexo

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 2017

 

eroticon XXVIII: para o lado da terra e do ponto de fuga

quando a realidade se encastoar na coincidência última dos nossos corpos
e transpusermos, para o lado da terra e do ponto de fuga, o contorno do precipício,
chegaremos ao ser, ao magma do silêncio, aos ossos das palavras
encarnados

 

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Ernst Ludwig Kirchner [1880-1938], Liebespaar VI [Os Amantes VI], 1911, litografia, 16,8 x 21,9 cm, Hamburgo, Hauswedell & Nolte

eroticon XXVII: estrada, dádiva e morte

toma-me inteiro
: veias e artérias sinuosas assaltadas de sangue; pele, sexo e mãos transidos; pés, músculos e olhos sobrevindos de uma palavra; boca, voz e silêncio sequiosos dos poros do lume; instinto e pensamento;
intuição, obscuridade e sonhos desavindos de utopias; luz, impaciência e melancolia trespassados de labirinto; visível e invisível
toma-me inteiro
: carne e tecidos do teu destino; mas toma-me na desordenança do risco do precipício onde
a estrada, a dádiva e a morte são o princípio e o fim – se eu naufragar no vazio mudo de eco, do meu corpo crescerão raízes febris de vertigem, mas do teu corpo a ave
toma-me inteiro eu-teu, esse teu voo nu e livre de desespero, de confusão e de frio

habitas-me, sem eterno nem retorno; és-me a pele, a carne contracta do prazer e da dor, da expectativa e do sofrimento; o movimento e a perspectiva; língua, crua devassidão, palavras e anima densidade; temeridade e razão;
certeza veníflua e desejo, fogo e escuridão; o que sei e o que não sei

toma-me inteiro
: a voz denuncia-me, veredicto interior e consanguíneo, carnário, sedento, na manhã e no umbral da noite

caminhamos para o precipício, dizes-me – é a verdade:
subir a pedra, vencer-lhe o perfil que nos sonega o ar, alcançar a terra

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 2017

eroticon XXVI: da vida tangível

traves de cinza sustêm o halo da terra, vaga névoa, é a morte que sobe e volteia
nos trilhos invisíveis  e contraditórios, que ascendem das folhas das árvores, das ervas,
a morte e o frio
condenam o pó quente da estrada à humidade onde o sol fenece; a morte exumada da areia,
a luz desfeita do horizonte

teço nos dedos, hoje, os ínfimos detalhes da melancolia da tua falta que nunca chegou
ao ser da falta; hoje, manhã – criámos uma mitologia da manhã, uma mitologia da noite
ao mesmo tempo que nos matávamos negando o retorno
da carne viva e recíproca

(o teu olhar exala a verdade que as palavras ocultam ou adiam)

cultuamos a manhã, mas nunca existiu qualquer manhã,
persistimos na fábula, numa história bela e elevada, prometida e repleta de omissões, e morta

iludo o tempo e a geografia numa guerra infrutuosa, destruo-me enviando-te a intimidade da minha face,
na cama, turgida da travessia do sono, e de entre os despojos,
quando a luz, descendo,
começar a tactear a noite e a reflectir-se nas lombadas dos livros, a tua falta trespassa o ocaso
nas espadas de São Jorge que estão sobre a mesa de madeira negra onde escrevo o meu desejo de ti

eu sei a realidade que bebo a cada íntima fracção das horas encobertas, a devastação que ergo,
a tua existência descarnada – e não
não me basta a poesia do sangue nem da respiração impregnada de ti até ao chão do difragma

a manhã é a repetição estéril de uma palavra

o que somos é difuso e repleto de aspas – tudo
mito e medo, sagacidade; todavia a lâmina
da distância cessou

espero-te numa espécie de só
minha condição humana; de outro modo tivessem que me drenar o sangue como se dragam os rios e as lagoas

tenho dias em que a tua falta me oprime o peito, um bloco de mármore tosco, arrancado à súmula da terra;
uma pedra imune ao porvir, veios cinzentos e violáceos, perfeita
imóvel e desprovida de sofrimento

da realidade não temi a taça efabulada e bebi,
tomei a faca para a incisão no pulso e a catarse do sangue, o trágico prazer do sangue próprio
e sei que nem a taça nem o pulso auguram uma forma plausível de regresso

as palavras do meu combate ao tempo, à geografia e às circunstâncias impassíveis aguardam
a derrota,
estão húmidas de semente derramada, inútil

a sombra da matéria dos mitos orienta-se para a destruição inelutável – a condição
da vida tangível

 

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Fotografia: Espadas de São Jorge (Sansevieria trifasciata), Jorge Muchagato, 2017

 

eroticon XXV: ser, primeiro gesto, primeiro frio

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Balthasar Klossowski de Rola, dito Balthus [1908-2001], Les Beaux Jours, 1944-1946, óleo sobre tela, 140 x 199 cm, Washington, Hirshhorn Museum and Sculpture Garden, Smithonian Institution, The Joseph H. Hirshhorn Foundation

 

vem
: esperaram tanto os meus braços para esse primeiro gesto
de perfeita coincidência dos nossos corpos – o abraço onde a manhã
começará, a primeira
intimidade dos nossos sentidos, a primeira linguagem real
na confirmação do olhar, no sorriso da boca, no consolo da pele, na mudez viva das mãos,
um silêncio puro, completo, absolutamente expectante
vem
eu darei ao teu caos inexplicável, ao teu frio sem razão, o meu calor inteiro
: talvez possamos salvar-nos juntos, beijar feridas fora da ambição da cura
– somente cuidá-las no conhecimento da pele, pode suceder
que as esqueçamos ou que elas se exilem
dos nossos dias e noites, da luz do ocaso que inunda esta casa;
acenderemos a lareira quando chegar o primeiro frio, dormiremos abraçados nus à beira do fogo
vem
para que possamos ser corpo

eroticon XXIV: transfiguração

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Fotografia: Man Ray [1890-1976], 1930

 

no cabo de você ter chegado – todo o tempo transfigurado em manhã;
quero o seu abraço, a força do seu corpo e dos seus braços enlaçando-me
para que a matéria da sua presença sob a minha pele
passe a carne, as veias, as artérias, e se una ao meu sangue,
alcance a língua – quero o gosto de si e da sua pele

você está no movimento sobrevivente do meu peito, na fonte
da respiração que o dilata e o torna a afogar e eu não sei explicar,
nem traduzir esta realidade sob-pele;
não alcanço mais do que escrever-lhe que você está
além da poesia, esta minha vingança sobre a sua falta

você dói-me quando chegam as horas do uno,
a noite antes da travessia, a luz da manhã, o tumulto do desejo e a sua confirmação
– o calor, o cheiro do meu próprio sexo, o suor

a intimidade da água do banho me lavava o corpo;
agora me descobre a nudez, a desperta, a abençoa de profanidade
até que por fim você

 

8 de Abril de 2016

 

 

eroticon XXIII: “mane”

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Fotografia: Emilio Jiménez (n.1989), série I’m going to miss you when you go, 2014

 

 

a si, que em mim fixou sem termo a definição viva da manhã,
não é bastante, sendo você a manhã, a palavra dela, tépida da minha respiração,
da minha boca, da minha língua, do calor da minha cama, do odor do meu corpo nu

a manhã bastante ao meu desejo de si é mane,
o não-lugar, o meu corpo inteiro de onde vem a origem da manhã.
mane,
a palavra latina que deseja a súmula de significar espera e

fica

 

6 de Abril de 2016