eroticon XV: purgatório

01

a noite e o seu silêncio transfiguraram-se na antemanhã
(abraço-te)
a distância descoincide, a expectativa ignora a condição do destino, o tempo é uma total antecipação linear que à entrada da noite, no calor incompleto
da cama dá rumo inútil ao punhal do desejo quando

(as tuas mãos)

o suor nos lavará enfim numa pele só e nos resgatará
deste purgatório sem nome onde nos achamos condenados sem gozo, sem proveito, sem culpa

abraço-te            na antecipação da verdade da carne abraço-te

madrugada de 5 de Maio de 2016

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Fotografia: Vitorino Coragem

eroticon XIV: calor

na languidez quente da tarde               penso-te               e ao sentir o odor íntimo de mim,
esse cheiro próprio mais profundo, o odor vivo do sexo é-me incompleto,
mais profundamente te imagino             o cheiro da tua pele, do teu suor, dos teus cabelos, o meu rosto, a respiração seguindo-te o pescoço, a nuca          na sede tépida da minha boca, na esponja da minha língua, na sofreguidão do olfacto
pelos recantos mais crus e violentos do teu corpo
cresço numa rigidez que vem de dentro, situada algures no interior do quadril, no percurso do sémen contraindo a matéria central dos músculos,
quero tomar-te em todas as formas em que os nossos corpos se encaixem e se contrariem, se aceitem e se debatam
e quero que gemas indefesa submissa e revoltada
numa raiva violenta e extática de prazer e de dor, de mais e mais dor a rebentar de aceitação e de recusa

 

o limite da pele e não da dor,
inundado de sangue, suspendo-me, as contracções dominam-me            a tua imagem de um avassalador poder carnal eclode na minha cabeça e jorra triunfante sobre a loucura do desejo de ti em carne

no calor de uma tarde de Junho de 2016

eroticon XIII: na fogueira

Venus_1979

 

o sexo endurece na manhã enquanto o corpo me estremece pela cabeça na fome
de me queimar em ti de lançar fogo à boca quando beijar a tua boca quando te morder os ombros quando te lamber as axilas e os braços quando te respirar o pescoço
quando te aprisionar pelo torso com as mãos e os teus seios altivos ondularem no momento em que abandones a cabeça e os teus lábios de carne ardente se abram mais para respirares até ao centro molhado da tua essência onde
abrirei a boca e a língua revestindo lábios e língua do teu visco translúcido e violento bebendo-te o gosto até à raiz da língua
para te comer na boca ao mesmo tempo que te como na estocada dura de um animalesco abandono até à base do sexo até ao fim
definido pela força possuidora das minhas mãos nos teus ombros
sequioso por mais e mais dor no movimento indomado húmido e ardente de carne e músculos contraídos em que nos comemos até ao abraço que sobe da extinção das forças

queimámo-nos nus debaixo da pele
ardemos nus à superfície da pele

estamos na fogueira

manhã de 27 de Maio de 2016

 

*

Fotografia: Manuel Álvarez Bravo (1902-2002), Venus, 1979, reproduzida de http://www.manuelalvarezbravo.org

eroticon XII: o êxtase fechado, o pão possível

Colchón_1927

 

abro a manhã            nu, de joelhos no chão            a pele
inflama-se num ardor de conhecimento ao contacto com o ar            nas suas substâncias puras existes enquanto
a dor centrípeta, saturada, contracta da carne do tronco descoberto            a nudez cansada da tua falta carnal            do gosto cognoscente de ti pela pele,
na impossibilidade do fogo,
vence na tensão do freio com que firo a manhã            derramar-me
é o mais perto de ti que a realidade onírica me consente
depois de exaurido o sangue

 

o imaginário de ti queima-me e reclama o precipício do corpo incandescente;
venho-me salvando neste êxtase fechado                   é o pão possível e como-o
quero viver até ao primeiro gesto desse corpo uno;
come-o também para vivermos

 

21 de Abril de 2016

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Fotografia: Manuel Álvarez Bravo (1902-2002), Colchón, 1929, reproduzida de http://www.manuelalvarezbravo.org

eroticon XI: in corporis et anima creditur

 

do veio do cansaço onde as raízes com a última violência se fincam
e onde o fogo do pavio ensopado de azeite nunca se apaga, creio
– não com a vulgar força, pois transpus o que seja a sua definição e a sua realidade;
mas com a potência de anima et corporis
nessa manhã envolta no odor cru e veemente
dos nossos sexos adorados e comidos sem depois do amor
creio ainda mais violentamente, até ao orgasmo, nesse arbítrio sublime de crer
sem outro destino que vingue em nós senão o da manhã
quebrarei os augúrios, os vaticínios, a medida do mapa, para uma só matéria
de carne e fluídos, de boca e peito, de braços e torsos, de pernas e quadris, de pele e movimento, calor, suor e visco
quebrarei os augúrios, os vaticínios, o mapa
com a mesma vontade com que imponho à pele do sexo a tensão
da tua falta

creio
quero que oiças ferina a minha voz na tua boca
a gravar na tua língua a potência da minha crença

 

madrugada de 27 de Abril de 2016

eroticon IX: a primeira manhã

seremos nus deitados na cama os nossos braços tomarão a posse um do outro
no abraço
a pele arderá enfim ao alvor da manhã ensopada em humores e suor nos lençóis
beberemos a respiração ávida e tépida na dádiva das bocas
os teus seios e o meu peito se queimarão na junção dos ombros
as mãos nas costas selarão do pescoço ao primeiro declive das nádegas
o demorado movimento do torso até ao limite interior
da cavidade e da extensão dos sexos unidos na oposição de forças carnais contractas e na segregação das matérias
as pernas entrelaçadas da íntima linha das coxas aos pés
fecharão a posse um do outro
seremos nus deitados na cama a primeira manhã da travessia

 

madrugada de 16 de Maio de 2016, 2h40

eroticon VIII: não-sublime

o que sei eu do misterioso coração do mundo, da natural metamorfose das estações, do tempo e da sua pretérita morte,
da filosofia das nuvens, da seiva das árvores, da terra ensopada da chuva e do seu milenar e vagaroso vapor bolorento,
das vulgares metáforas do mar,
do enigma do pó das galáxias e das novas; o que sei eu se me transfiguraste o sangue
e desocultaste, perante a impiedade da luz, o esplendor inútil das ruínas
onde eu vivia convexo entre belas colunas de capitéis refulgentes sob o sol do deserto
e comia a areia do vento sulcando o esmalte dos dentes
o que sei eu, agora, (ainda agora), que respiro a tua falta e desconheço a noite
eu vou da escarpa do sofrimento do olhar dos cães
ao galope desenfreado dos cavalos a verterem sémen dos sexos dilatados

em tanto que morra, vem
depor sobre as minhas pálpebras as duas moedas para o barqueiro,
e de guisa que não viverei depois de ti, (não tão cedo, eu sei), espero-te
na contingência, pelas palavras uno-me a ti,
de boca, sexo, intervalo das pernas, braços, peito, espasmos do quadril;
uno-me a ti na fronteira onírica da pele,
uno-me a ti neste absoluto e universal indizível (separado, ainda)
seremos nus, (escrevo de lâmina arando a carne), e na manhã enfim nos despiremos deste desesperado sublime,
consumiremos o fogo, consumaremos as palavras, subiremos ao telhado
espero-te

 

26 de Junho de 2016

eroticon VII: fogo nu

Ventana a los magueyes__1976

 

escrevo-te nu, em lençóis lavados, o teu corpo imaginado fere-me na pele expectante em fogo,
aviva todos os recantos da minha pele e do mais breve, lascivo e devasso movimento,
à sublimação repetida da insistência do tronco sobre o desejo de quanto adivinho, sob esta sede
de ti, debaixo e por cima de mim, de ambos os lados,
em acordo e desacordo, em guerra e em gozo, em harmonias e contrários, numa convulsão
de todos os sentidos da existência em rebentação,
na tensão insaciável dos filamentos nervosos dos sexos

deitei-me nu para te escrever, quis queimar-me no ar em que respiro a tua falta,
e vi-me, nesse limite sublime do desejo: sou um homem-cavalo,
firo com os cascos a terra, a um tempo gemo e relincho, grito,
incapaz de suster a minha dureza escorrente, sedenta
do teu sexo entreaberto, húmido e viscoso de mulher-égua

deitei-me nu para te comer com as palavras e arder em tanto que animal,
pois transponho o meu pensar de homem
e se todavia a linguagem me ancora à humana natureza, tudo o mais se queima,
num desespero animalesco, onde a rigidez do sexo e a fulgurante dor da sua pele presa
embatem nos lençóis lavados,
expectantes, como eu naquela fronteira, por se ensoparem de ti

 

27 de Junho de 2016

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Fotografia: Manuel Alvarez Bravo (1902-2002), Ventana a los Magueyes, 1976.

eroticon VI: respiração, pele, terra

01d - Cópia

 

marca-me a sangue, fere-me de faca no corpo, morde-me de fúria e desespero os ombros,
fecha o meu sexo nas tuas mãos e crava as unhas;
marca-me, rasga-me as costas e o peito
com a tua mais violenta e lasciva raiva de fêmea;
marca-me a carne sob a pele com os golpes vermelhos
dos nossos corpos libertos da distância, das palavras, do pensamento,
naquelas fragas inóspitas, naquela terra existente só para a nossa nudez;
a pele, entre a respiração da atmosfera e a fecundidade da terra

vem, que a vida não volta

14 de Junho de 2016

 

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Fotografia: Duane Michals (n. 1932), Newlyweds at the window, 1962.