“e eu mal auenturado mourome andando assi antre cuidado e cuidado” – escritos sobre a depressão, 2

IMG_20170323_084404 - Cópia

2.

Tomei um calmante para adormecer um pouco na minha cabeça os gritos de desespero, ou de algo parecido com o desespero, mas que eu não sei o que é; uma desordem ensurdecedora, um caos mortal, e conseguir escrever; não quero escrever, mas preciso de escrever: é o único caminho que encontro para interiorizar, com todas as forças que julgo permanecerem ainda, que estou absolutamente só e que ninguém virá para me salvar. O sono deixou há muito de ser tranquilo e regenerador e acordo durante a noite; consigo, com esforço, voltar a adormecer, mas desperto cedo. Não é cansaço o que sinto quando acordo, mas um peso monstruoso do corpo. Tomo o pequeno-almoço porque sinto alguma fome, o café, fumo o primeiro cigarro sentado à mesa de trabalho, mas o corpo pesa-me demasiado, uma densidade absolutamente saturada que me puxa para o chão. Deito-me de novo, penso em tomar dois ou três tranquilizantes, mas não posso, com o grave trabalho que tenho, passar mais um dia num sono induzido. Os lençóis são quentes e confortáveis, de flanela, mas sinto frio. Fecho os olhos, sei que não conseguirei dormir, talvez procure um lastro de força ou algum convencimento psíquico que me faça vencer o peso e a densidade do corpo, mas é uma noite profunda, sem nada, a escuridão completa. Ensaio a posição fetal debaixo dos lençóis, é a escuridão mesmo de olhos aberto, mas a própria respiração ameaça sufocar-me. Afasto a roupa da cama, sento-me, quero levantar-me, tenho que dar razão ao dia ainda que não a encontre. Mas o corpo tomba com a cabeça para o lado dos pés. Depois de vários reveses consigo levantar-me, não quero, não sei se conseguirei, mas preciso de escrever para interiorizar que estou absolutamente sozinho, rodeado de silêncio, que esta escrita é «as mãos que trago»* e que se recusam a largar a cimalha para uma queda final no absoluto; que esta escrita é os meus sapatos desfeitos, os meus sapatos-verdade. Começo a sentir o apaziguamento induzido pelo tranquilizante; diminui um pouco o desespero, a desordem, o vórtice do caos onde pressinto o agravamento da doença; pressinto mas não sei, não tenho uma noção precisa da gravidade do meu estado psíquico para além da usual pulsão de morte que estes estados acentuam até à surdez. Levantei-me para a rocha de silêncio de mais um dia, mas levantei-me, quatro horas depois de ter acordado; não quero propriamente salvar-me de mim, isso seria condenar-me a não escrever, desenhar ou pintar. Não quero salvar-me de mim nem busco um sentido para o arbítrio do acaso de estar vivo, nada posso contra isso. Começamos a pensar em anos, depois em meses, por fim em semanas, e à beira do precipício, em dias, em horas. Agora, é necessário continuar a assentar bem as pedras de estar absolutamente só e de saber que ninguém pode salvar-me. [Entretanto, você telefonou-me, veja se conseguimos “tirar” esta morte de dentro de mim; é provável que não consigamos porque ela é a própria consciência de mim, mas que seja, pelo menos, uma vulgar pulsão que consiga esquecer sob o calor do sol, na sombra das árvores, no vento no rosto, na água do rio nas mãos em concha.]

 

16 de Junho de 2017

 

* Cecília Meirelles, do poema Canção a caminho do céu, que Amália cantou com o título As mãos que trago, no disco Com Que Voz, 1970.

*

Fotografia: Silos, Caldas da Rainha, 23 de Março de 2017.

 

*

“e eu mal auenturado mourome andando assi antre cuidado e cuidado”: Bernardim Ribeiro (ca. 1490?-ca. 1552?), Écloga Quarta «chamada Jano», in Idem, História de Menina e Moça, reprodução facsimilada da edição de Ferrara, 1554, estudo introdutório por José Vitorino de Pina Martins, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2002. Cantado por Amália, com adaptação e música de Alain Oulman, no disco Cantigas Numa Língua Antiga, 1977.

*

01c

 

 

 

 

 

 

 

 

Idealização de Bernardim Ribeiro, por António Augusto da Costa Mota (1862-1930), bronze, 1907, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, e de onde provém a fotografia [alterada].

 

 

patologia do acaso, diário, 35: Argila e terra

DSC01160 - Cópia

2017, Maio, 7. Argila e terra. Se o radical do que escrevo é um ser-se irreversível (não necessariamente uma tradução, mas uma destruição e uma prova de fogo sem molde) cuja natureza e movimento existem na condição intransponível do silêncio e da descoincidência com o mundo (vulgo solidão) absolutos, não vinga com suficiência, para estar na rede social, a justificação do desejo de ser lido; porque, na realidade, escrevo para muito poucas pessoas, aquelas sobre as quais não incide a minha suspeita da empatia e do entendimento, sendo que ao princípio escrevo para mim e depois esqueço dado que o domínio sobre o escrito deixa de me pertencer, assim como o conhecimento de quem lê ou de quem ignora. É necessário destruir em mim, na medida do possível, o geral desejo de ser lido e o veneno da expectativa; basta-me saber que duas ou três pessoas procuram o que sou no que penso; que procuram, que abrem este caderno, e não que este caderno se impõe, ainda que por via do acaso e da sua absurda legitimação. Escrevo, mas bebo a taça do esquecimento, porque é o esquecimento o que me espera, com maior ou menor benevolência, mas irremediavelmente o esquecimento na dilatação do tempo. A necessidade de escrever é existir no enquanto de uma fronteira indiscernível e no ser-se da morte, mais nada. O mais, o que fica verdadeiramente, e vence o ser-se da morte, é a memória dos meus braços, quando me abraças, A., e a memória dos teus braços, A., quando eu passar. Porque é por ti, A., e existindo por ti eu consigo existir por mim, compreender que não sou um erro, um acaso perdido no Universo, mas uma partícula da sua poeira que não se perdeu no frio e na escuridão inimagináveis. E a sua luta, E. S., para que eu não ceda. É nesta terra sedimentada mas firme que existo: desde o primeiro momento em que chegaram, nunca me abandonaram – e encontraram em mim, mesmo quando eu respirava o pó do chão porque caíra de rosto em terra, e as lágrimas e o ranho erguiam do pó do caminho a argila do meu sofrimento, a razão bastante que antes de chegarem eu nunca soube.

O “ser da morte” e o suicídio do Ocidente

para E. S. com gratidão

DSC02066 - Cópia

A questão fundamental da vida é a morte. É no ser da morte que absolutamente decidimos tudo e que esse tudo, um absoluto ignoto, ao mesmo tempo nos decide. E assim o único absoluto da vida – porque a vida contém em si o absoluto, a nós próprios nos enganamos acerca disso, mas contém – é a conquista incessante e sofrida do desconhecido; essa terra ignota que se forma por sedimentação, partícula a partícula, como o processo de assoreamento de um rio, ou de uma lagoa com foz para o mar. Mas não alcançamos isso durante muito tempo, durante uma parte considerável da vida. Creio, então, que se não pode resolver-se a questão fundamental da vida – que é a da morte – é possível, ao menos, diminuir a extensão do equívoco e dar a tempo por essa terra assoreada. Toda a grande arte – da pintura à literatura, do canto à representação – é a natureza e a qualidade desse caminho em direcção à obscuridade e não em direcção à luz; e esse caminho, ou melhor, esse movimento e as suas razões, sendo o ser da morte a razão maior, existe desde a Antiguidade greco-latina. Todos os problemas fundamentais da humanidade enquanto ser da morte foram aí delineados, a sua necessidade e a sua acuidade foram aí enunciadas. A tragédia actual do Ocidente, que começou em Agosto de 1914, não é apenas a impossibilidade de um Renascimento – a Educação e a cultura enquanto valores civilizacionais foram depostos e destruídos, resumidos a acintosos instrumentos úteis do Poder, transformados em coisas de negócio definidas pelo melhor preço – é a constatação hoje centenária de uma dada morte histórica; não dessa morte que é o ser da morte de onde advém toda a vingança da arte, mas a morte anterior e interior que antecede o suicídio, e a deslocação fatal da vingança – da arte para esse suicídio.

*

Fotografia: ocaso nos livros, Maio de 2017.

 

patologia do acaso, diário, 31: O regresso da luz [2]

para E.S.

2017, Abril, 22, madrugada de 23. O regresso da luz [2]. Consideramos, vulgarmente, que a coragem estala fissuras no medo; que por fim a coragem estilhaça o medo, o vence e o dissolve como uma pedrada certeira e seca no ponto fraco do vidro invencível.

DSC01923

Concluímos deste modo porque tudo, sendo tempo, é fim, e por fim é morte. A vida começa na morte suspensa do orgasmo que gera e termina na totalidade da morte dentro da lenta degeneração do corpo e da sua mecânica matéria viva. Iludimo-nos com uma vitória onde sabemos não conseguir vencer e invocamos em vão a palavra e o conceito salvíficos de impossível.

DSC01924

Acreditar é existir até ao incêndio, viver é alcançar esse desejo de se encontrar na dor e no prazer vertiginoso do fogo.

DSC01925

Consideramos que a coragem vence o medo, mas não é assim; é o desespero que vence o medo, porque o desespero é a passagem oculta do medo. Por esta singular razão, a questão fundamental do suicídio – o primeiro problema verdadeiramente filosófico para Camus (1) – é a linguagem.

DSC01926

É também por esta razão que a luz regressa, porque nunca houve deuses, apenas a esplendorosa manifestação de um arbítrio, o verdadeiro sentido da grandeza humana; os Gregos estabeleceram, como crivo para a verdade histórica, no sentido da clareza (saphôs eidenai), uma distinção funcional entre o olho (opsis) e a orelha (akoê) (2).

DSC01927

*

(1). Albert Camus [1913-1960], O Mito de Sísifo: ensaio sobre o absurdo, tradução de Urbano Tavares Rodrigues, s.l., Livros do Brasil, 2016. [Edição original: Le Mythe de Sisife: essai sur l’absurde, Paris, Éditions Gallimard, 1942.]

DSC01929

(2). L’histoire d’Homère à Augustin. Préfaces des historiens et textes sur l’histoire, réunis et commentés par François Hartog, traduits par Michel Casevitz, édition bilingue Latin/Grec-Français, Paris, Éditions du Seuil, 1999, p. 101.

DSC01930

Fotografias: 22 de Abril de 2017.

 

 

 

o eterno mesmo frio dos meus anos

98

todos os dias desbravo a morte sem mais querer do que existir,

ainda que a mor razão seja de tudo estar perdido na vã distância de viver

porque retorno algum da minha própria existência me alcança;

o silêncio é o tributo, a linguagem é o preço, vivendo,

desde o vidro da pulsão que incendeia a morte, sob a condição de não existir,

e agora, mais perto, na subcondição de não sentir o nervo da dor, de não respirar

a beleza da melancolia da luz, quero dizer, do sofrimento,

de não viver no perfil do penhasco

 

mas as condições são mentira porque sinto a verdade sob a sua contingência:

o eterno mesmo frio dos meus anos

*

Ilustração: Dom Quixote, pormenor, tinta-da-china com aparo quebrado, papel, ca. 1995.

patologia do acaso, diário, 11: transformar a depressão em pensamento, escrever

dsc00871-copia

2017, Janeiro, 6. Transformar a depressão em pensamento, escrever. Encontrei uma frase, anteontem, mas não trouxe o livro. Ontem, ao final da manhã, recordei a ideia-axioma da frase para este escrito mas precisava do seu rigor enunciativo e saí de casa para ir buscar o livro, carecia da frase, absoluta, e das palavras precisas. Nesta necessidade encontrei também a justificação para fazer a caminhada imprescindível à sedimentação do pensamento e que guardo para o final do dia que é, nesta estação do tempo, o princípio da noite. Preciso de caminhar para alcançar alguma ordenação ao que penso e a sua consequência, a escrita. A existência do dia afirmava-se como a de hoje, o ar tépido do Sol, e senti prazer em caminhar àquela hora, sob a luz a exalar potência, vontade.

E ocorreu-me, nesse movimento cheio de devir, que talvez esteja na direcção de tocar o âmago de uma realidade nova e desconhecida, quer dizer, desconhecida até esta possível formulação: transformar a depressão em pensamento. Talvez já esteja a viver nessa realidade mas não estou certo, ainda, de o poder afirmar com a clareza que a constatação exige. É provável, por outro lado, que a natureza desta escrita confirme a solidez dessa constatação, mas o silêncio em que decorre esta ínvia libertação ainda não me concedeu a benevolência do eco. É provável, também, que possa não existir razão para a pertinência desse eco; que esse eco não corresponda, afinal, a nada mais do que a um estímulo para a transposição do medo, ou melhor dizendo, para a transfiguração do medo. E é provável, enfim, que esse eco, esse eterno retorno, seja o próprio processo e acto de escrever, que desbrava o caminho enquanto se escreve e as ideias e as palavras chegam à existência num movimento igual ao que se procede para conferir substância à massa que levedada se mudará em pão. Um movimento que requer força e persistência, mas também intuição, para compreender o momento adequado em que a massa está inteira para ir ao fogo e ser pão. Em nada disto pensei quando disse que encontrei uma frase. Pensar é agir sobre a realidade e a escrita uma das formas de manifestação de uma certa realidade, uma transformação visível que confere extensão ao pensamento e afirma que essa certa realidade está certa, corresponde ao fruto no esplendor do seu amadurecimento, quando já passou o umbral da perfeição da forma e do aspecto, e chegou ao seu gosto mais apurado e prazeroso.

Mas a frase: trouxe o livro e tenho-a aqui. Durante o caminho de regresso a casa, a frase motivou outros trilhos numa terra idêntica e quando cheguei fui procurar os outros livros que dessa terra me ocorreram, e encontrei processos da mesma natureza. Esta procura corresponde a muitos anos. E encontrei, então: «Pensar. E se o pensar fosse uma doença, mesmo que dela resulte uma pérola?». Uma pergunta, construída por quem bem as sabia erguer, Vergílio Ferreira, num dos últimos livros dos seus diários, Pensar (1), publicado em 1992.

O pensar pode transformar-se numa doença, mas o que sucede nestes tempos, numa lonjura de vinte e cinco anos – ensinaram-nos na escola antiga que correspondiam à renovação das diferentes gerações – é que o pensar está categorizado como uma doença, agravada se resulta na necessidade da escrita. Porque a resposta à pergunta «porque escrevo?» é sediciosa e selvagem e é radical: «Porque escrevo? Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos, pessoas que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem» (2).

Mas transformar a depressão em pensamento, amassar a depressão até ao momento real do pensamento, é um caminho sem regresso, uma construção obscura que não é desconhecida: «Essa solidão real do corpo torna-se outra, a da escrita» (3), «Ver-se num buraco, no fundo de um buraco, numa solidão quase total e descobrir que só a escrita nos salvará» (4) – Marguerite Duras enunciou a evidência deste caminho sem volta pois ele corresponde a encontrarmo-nos selvagens e, por fim, a um suicídio:

«A escrita torna-nos selvagens. Regressamos a uma selvajaria de antes da vida. E reconhecemo-la sempre, é a das florestas, tão velha como o tempo. A do medo de tudo, distinta e inseparável da própria vida. Ficamos obstinados. Não podemos escrever sem a força do corpo. É preciso sermos mais fortes que nós para abordar a escrita, é preciso ser-se mais forte do que aquilo que se escreve. É uma coisa estranha, sim. Não é apenas a escrita, o escrito, são os gritos dos animais da noite, os de todos, os vossos e os meus, os dos cães.» (5)

«Existe suicídio na solidão de um escritor. Está só até na sua própria solidão. Sempre inconcebível. Sempre perigoso. Um preço a pagar por ter ousado sair e gritar.» (6)

A frase pela qual saí de casa é a decisão de Musil para escrever: «abrir a porta para uma vida no verdadeiro sentido do termo» (7).

*

(1). Vergílio Ferreira, Pensar, Venda Nova, Bertrand Editora, 1992, 187, p. 145.

(2). Ibidem, 23, pp. 35-36.

(3). Marguerite Duras, Escrever, tradução de Vanda Anastácio, Lisboa, Difel, 1994, p. 15.

(4). Ibidem, p. 20.

(5). Ibidem, pp. 24-25.

(6). Ibidem, p. 32.

(7). Robert Musil, As perturbações do pupilo Törless, tradução e introdução de João Barrento, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2005. A frase está transcrita na «Introdução» e provém, conforme diz o seu autor, dos Diários de Musil, que a escreveu aos vinte e quatro anos.

*

Fotografia: livros e luz de vela, Agosto de 2015.

a imanência do suicídio na metafísica do aquário

img_20161229_000501-copia

 

caminhar é uma extensão sanguínea filamentosa do meu pensamento,

um movimento cognoscente e dilatador enquanto a palavra é pura e não reclama ser escrita

 

equilíbrio perfeito de fragmentos expectantes, palavras in corpore e corpo ad verbum

 

incandescência no sentido da densidade orgânica, obscura, do acto declarativo – existo

 

asseguro na palavra surgente do movimento de caminhar que existo,

releva deste ad unum escrever desagrilhoado da necessidade de escrever

 

o tempo é a cabeça,

é na cabeça que está o coração, o Todo expande-se da cabeça e a cabeça alimenta o coração que está dentro dela na reciprocidade do movimento do sangue

 

os enganos do Mundo refugiaram-se no coração mas o coração habita na cabeça, o coração persevera do limbo da desordem, os fluídos do caos fertilizam a luz

no abismo negro e agridoce das contracções durante a união dos viscos

 

existe uma não-existência que confirma o corpo inteiro, resistente, nessas palavras incapturáveis ao reduto de mendigar a existência na coutada atribuída

 

no movimento de caminhar toda a minha liberdade imurável se afirma no ardor das palavras que não subjugo à soberba de as fixar

 

eu sou livre nessas palavras, essas palavras são livres em mim

e o acto de pensar é o meu corpo e o seu esplendoroso limite enquanto

 

a causa e o efeito manifestam-se no preciso momento em que se dissolvem na física do movimento

 

mas existe um acto firme nas profundezas desta noite inalienável que embate, do indefinível interior, nas fronteiras do corpo

 

existe um acto que é uma forma (a letra da palavra) sobrevivente do suicídio, uma combustão do labirinto e do novelo,

um acto que derruba a metafísica e a justificação de todas as formas implausíveis de qualquer divindade,

um acto que se extingue no acto originário da palavra,

que por sua vez, na negação do aquário, do vaticínio e do seu contrário, galga a morte no abraço da morte que caminha ao lado

 

*

Fotografia: pormenor de um público cone de Natal, 28 de Dezembro de 2016.

o solstício dos menos que os cães

sketchbook-003

É possível escrever na carne porque nenhuma palavra, escrevo-o de novo, é um resto. A palavra é o próprio corpo, com os seus nervos, veias, artérias, sangue, fluídos, intelecto. A palavra é a vanguarda dos gestos, não apenas a dianteira, porque caminhamos para uma invisibilidade imposta como solução destinada a destruir o combate que toda a pergunta significa na sua origem. A adversidade não existe para nos tolher o passo, para nos dizer que não é possível caminhar mais apesar do pó da estrada e da terra que nos chamam. A adversidade, própria ou do outro, é uma pergunta à nossa humanidade e exige, fora da circunstância do tempo, uma resposta. Um «estendal solidário» na principal avenida de uma grande cidade capital, no Solstício do Inverno, longe da vista e do cheiro da miséria, onde as pessoas podem ir pendurar agasalhos necessários para o Inverno dos outros não é uma resposta, é uma suspensão da humanidade. É uma assinatura, com a omissão do nome, a caucionar a invisibilidade do Inverno dos outros, porque a dádiva subentende a aproximação, subentende olhar e sentir a miséria dos outros e fazer as contas próprias. Será alguma coisa dar sem olhar para a miséria dos outros nem ser atingido pelo cheiro da miséria dos outros, mas seria muito mais dar dentro do frio dos outros, olhá-los, oferecer a força da mão no ombro, abraçá-los, oferecer os joelhos próprios ao chão. Oferecer com a cabeça enfaixada para a miséria é fazer dos outros menos do que cães, sob a justificação de uma culpa qualquer a caucionar essa miséria. Ninguém é invisível, querem que sejamos, mas ninguém é, porque mesmo dessa invisibilidade exalaria o vapor do hálito no frio da atmosfera. Eu não sei se sou um escritor, nem sei se almejo a isso; sou um resistente que conhece a felicidade da palavra e as suas consequências.

*

Ilustração: dos diários gráficos, lápis, 1996.

patologia do acaso, diário, 7: a escada da verdade no «tempo dos assassinos»

digitalizar0107

2016, Dezembro, 20. A escada da verdade no «tempo dos assassinos». Escrever no movimento de resistir e de recusar a invisibilidade imposta ao sangue dos outros. Escrever porque essa invisibilidade dilui também e sem compaixão o vermelho-negro do meu sangue. Escrever porque a invisibilidade legitima a omissão da compaixão. Escrever porque um homem que canta enquanto caminha pelas ruas da cidade, com as lentes dos seus óculos partidas e coladas com fita adesiva, me aperta a mão e me chama «irmão» e eu não sei o resultado do regresso do dia. Escrever porque nos matam e se eu sei escrever devo escrever contra a invisibilidade que nos está a murar. Escrever no chão da humanidade porque nenhuma palavra é um resto. Escrever porque é preciso construir perguntas. Escrever porque é preciso defender dos lobos a cabeça, o pão, o azeite e o lume.

Suponho que vamos fazendo uma parte avultada do caminho considerando que nos elevamos à verdade, mas a verdade é uma escada que se desce, sozinho, na única direcção indomável da vida, a terra e o terror da pergunta. A solidez dessa escada equivale à razão de decidirmos descê-la, à qualidade dessa descida, à determinação de avançar o passo em cada degrau na obscuridade. A pacífica e silenciosa grandeza da maioridade emocional e intelectual de um ser humano não consiste em subir pelo egoísmo da conquista nem em descer pela servidão voluntária e proveitosa, mas em aproximar-se do sofrimento dos outros sem a soberba de lhes conferir uma voz que não seja a deles. Mas é necessário que se tenha descido dentro de si, na direcção da própria obscuridade e se esteja disposto a abrir nela uma nova vereda para ver com maior acuidade. A primeira matéria da arte é a luz extraída da escuridão e por isso a arte evidencia que os deuses da mais diversa natureza são a criação oportuna de traidores e de colaboracionistas que enriquecem com o negócio estabelecido sobre o fatalismo da menoridade intelectual do ser humano enquanto tributo pago para conseguir sobreviver, na esperança vã de se escapar ileso ao processo de invisibilidade que está a ser imposto. É pois necessário que nunca se encontre a escada da verdade. O detalhe assassino vai fazendo o seu caminho e por isso as mensagens telefónicas das empresas chegam às horas em que as pessoas, dentro das suas casas, pensam e falam juntas, dentro do calor do afecto, à hora do jantar ou no tempo imediato. Quando se beijam, quando se abraçam, quando partem o pão, quando choram, quando riem, quando afirmam que existem. Estamos a ser mortos para continuarmos a viver sem alguma vez chegarmos à escada da verdade.

*

A expressão «tempo dos assassinos» pertence ao título do livro de Henry Miller, The Time of the Assassins: a study of Rimbaud, New York, New Directions, 1946. Edição portuguesa: O Tempo dos Assassinos: um estudo sobre Rimbaud, tradução de José Miranda Justo, Lisboa, Antígona, 2016.

*

Ilustração: dos diários gráficos, vieux-chêne, tinta-da-china e colagem, 2004.