patologia do acaso, diário, 85

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Fotografia: Jorge Muchagato, 25 de Abril de 2018

 

 

2018, Abril, 24. Quando chego aqui, neste canto da sala afogada em penumbra, cuido-me a própria matéria do silêncio e a razão inteira do motivo esfacela-se no precipício, na obscuridade de todas as impressões até este momento se terem desfeito numa imobilidade intraduzível. Os fragmentos e as ruínas de frases perdidas onde não era possível parar, algumas imagens, afiguram-se frágeis ao meu juízo. É inútil prospectar as razões deste desamparo, pois esse exercício culminaria num cansaço ainda maior do que fazer valer o dia para além do trabalho a que me propus. O céu plúmbeo do fim do dia angustiou-me e respirei com mais determinação enquanto caminhava pelas ruas habituais do regresso a casa. A luz do tempo parece sufocada por um véu artificial. O meu pensamento e os meus gestos parecem, em momentos de acentuada acuidade, separados de mim pela dúvida de os meus braços serem os meus braços e de o que penso ser pensado por mim. Já tomei o tranquilizante que me ajuda a dormir, não é possível descer mais e contento-me com o intraduzível que me estanca.

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«Ecce homo»

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Jorge Muchagato, «Ecce Homo», óleo sobre tela, 41 x 33 cm., ca. 1990.

 

«Infância

I

Terra
sem uma gota
de céu.»

Carlos de Oliveira [1921-1981], Turismo, Coimbra, 1942, publicado in Trabalho Poético, Lisboa, Assírio & Alvim, 2003, p. 9.

 

Um atavismo obscuro e indecifrável; uma realidade primordial desprovida de linguagem; uma realidade que sei existente, mas sedimentada num lugar algures nas propriedades do sangue ou nas intuições do pensar. A forma perfeita de um atomizado nada capaz da totalidade do ser, a fusão genesíaca com a poeira cósmica; um indecifrável dentro de outro indecifrável e essa totalidade desprovida de princípio e de fim, nos antípodas de todo o sentido. Um vagar quase monstruoso e disforme, mas que não chega a ser tal desproporção. Quando se esboçou em mim a consciência própria, começou a erguer-se, como uma sombra desproporcionada e assaz densa, a justificação e, por fim, a culpa ou uma forma de culpa, polida por uma concepção milenar de pecado. Combate-se, numa guerra feita de vitórias retumbantes e de derrotas rechaçantes até à raiz, esta noção envenenadora de pecado. Glóbulos que não se podem tirar ao sangue, mas não pensamos nisso todos os dias. A Páscoa assinala o julgamento, a condenação e a morte do judeu Yeshua, o Christos, o Ungido. Jesus Cristo. Ecce Homo, «Eis o Homem!», aqui o tendes. Pois é cada um de nós um Ecce Homo perante a Vida, nu, sem julgamento nem condenação; e sem deuses. É a grandeza que nos resta, pois tudo é símbolo. Sem deuses, sob a condição da gravidade, sob a condição dos tijolos do sofrimento, sob a condição da terra na boca, na rotação, perante a luz da manhã. Até uma palavra carece de conquista.

mil passos

[ a luz começa a regressar mas o frio ainda cinge o mundo; a noite, porém, é a mesma sempre – um limbo de cabotagem, à vista de palavras, onde conjecturas a salvação do dia antes da passagem pelo sono, travessia indefesa e não ajuramentada. o dia e a noite lado a lado duma origem distante, parabolê; analogia do que realizaste, do que deverias ter feito, do que não alcançaste, até te achares à beira do marco miliário que nenhum caminho te indica, nada te diz a não ser constituir-se, sem piedade, na marca do que passou, mas te reclama contas, só tu sabes que te são pedidas, e que tu és a testemunha de ti mesmo, que nesse limbo de fronteira estás só perante a incerteza e o vazio; é verdade que desejas, crês e te projectas, mas estás à face do nada. podes desenterrar as moedas, mas estás à face do nada; as palavras que procuras para a redenção do dia advêm igualmente dessa fronteira onde te encontras e tal como por ti, também por elas nada poderás a não ser entregares-te ao primitivo desejo da manhã, oriundo do imemorial. ] A maneira e forma como percepcionamos, entendemos, vivemos e moldamos a inexorabilidade que é o tempo é talvez o espelho mais fiel do que somos; [ o tempo é tão pele e vísceras como o ser ] porque estas duas realidades inelutáveis, tempo e ser, se aliam e confrontam, contemporizam e reprimem, permitem e recusam [ o tempo nada decide, mas o ser ] a ambas é comum, ao tempo por espelho, ao ser por acção, a expectativa, o desejo e a vontade, para que não sejas, sempre e por sua vez, nem Sísifo nem Prometeu, considerando, todavia, que é algumas vezes necessário, por aquilo a que chamamos circunstâncias, ou pelos erros, ser um ou ser outro. [ definir o tempo é definir o ser, dar destino a um é dar destino ao outro; e uma enorme rede, verdadeira e alegórica, envenenando-te o tempo envenena-te o ser ] decide a tua liberdade, ousa o teu pensamento – é a primeira vitória do teu futuro.

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 26 de Janeiro de 2018

1945, Janeiro, 27: Auschwitz

Janeiro, 27: International Holocaust Remembrance Day

«Todos descobrem, mais tarde ou mais cedo na vida, que a felicidade perfeita não é realizável, mas poucos se detêm a pensar na consideração oposta: que também uma infelicidade perfeita é, igualmente, não realizável. Os momentos que se opõem à realização de ambos os estados-limites são da mesma natureza: derivam da nossa condição humana, que é inimiga de tudo o que é infinito.»

«Se fôssemos capazes de raciocinar, deveríamos resignar-nos a esta evidência, de que o nosso destino é perfeitamente impossível de conhecer, de que qualquer conjectura é arbitrária e perfeitamente carente de qualquer fundamento real. Mas os homens só muito raramente são capazes de raciocinar, quando o que está em jogo é o seu próprio destino; preferem em todos os casos as posições extremas; por isso, conforme os seus caracteres, entre nós uns convenceram-se imediatamente de que tudo está perdido, que aqui não é possível viver e que o fim é inevitável e próximo; outros convenceram-se de que, apesar da extrema dureza da vida que nos espera, a salvação é provável e não está longe e, se tivermos fé e força, voltaremos a ver as nossas casas e as pessoas amadas. As duas classes, dos pessimistas e dos optimistas, não são porém tão distintas: não porque os agnósticos sejam muitos, mas porque a maioria, sem memória nem coerência, oscila entre as duas posições-limites, conforme o interlocutor e o momento.
Toquei o fundo. Apagar o passado e o futuro aprende-se muito rapidamente, se a necessidade empurra. Passados quinze dias da chegada, já sofro da fome regulamentar, a fome crónica desconhecida dos homens livres, que provoca sonhos de noite e se espalha em todos os membros dos nossos corpos; já aprendi a não me deixar roubar, pelo contrário, se encontro algures uma colher, um cordel, um botão que possa apanhar sem perigo de punição, ponho-os no bolso e passo a considerá-los meus de pleno direito. Já apareceram, na sola dos meus pés, as chagas que não saram. Empurro vagões, trabalho com a pá, canso-me à chuva, tremo ao vento; até o meu próprio corpo já não me pertence: tenho o ventre inchado e os membros emagrecidos, o rosto inchado de manhã e encovado à noite; alguns entre nós têm a pele amarela, outros cinzenta; quando ficamos sem nos ver por três ou quatro dias, temos dificuldade em reconhecer-nos.
Tínhamos decidido encontrar-nos, os italianos, todos os domingos à noite num canto do Lager; mas desistimos imediatamente, porque era demasiado triste voltarmos a encontrar-nos cada vez menos numerosos, mais deformados, mais macilentos. E era tão cansativo dar aqueles poucos passos; e, para além disso, reencontrar-nos significaria recordar e pensar, e era melhor não o fazer.»

«Então pela primeira vez nos apercebemos de que a nossa língua carece de palavras para exprimir esta ofensa, a destruição de um homem. Num ápice, com uma intuição quase profética, a realidade revelou-se-nos: chegámos ao fundo. Mais para baixo do que isto, não se pode ir: não há nem se pode imaginar condição humana mais miserável. Já nada nos pertence: tiraram-nos a roupa, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão, e se nos escutassem, não nos perceberiam. Tirar-nos-ão também o nome: se quisermos conservá-lo, teremos de encontrar dentro de nós a força para o fazer, fazer com que, por trás do nome, algo de nós, de nós tal como éramos, ainda sobreviva.»

Primo Levi, Se Isto é um Homem, tradução de Simonetta Cabrita Neto, Lisboa, Teorema, s.d. [2001], pp. 15, 35-36 e 25-26, respectivamente.

 

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«Former prisoners of the “little camp” in Buchenwald», H. Miller / Getty Images.

patologia do acaso, diário, 71: Liberdade e gente à porta

2018, Janeiro, 17. Liberdade e gente à porta. A própria literatura e a sua história nos dizem que não é importante, nem significativo (para o que verdadeiramente interessa e vai ao encontro da motivação criadora de facto do escritor) ter muitos leitores. Com efeito, existe uma correlação íntima entre o universo de leitores e a liberdade do escritor: quanto menos leitores tiver maior será o seu desprendimento e a sua indiferença, condições essenciais à liberdade criadora. Ao escritor motiva a reciprocidade dos leitores que o encontram e depois o procuram. Encontra-se muita gente, neste mundo, e é ínfima a que procuramos. Ser-se bestseller significa apenas muita gente à porta.

 

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Jorge Muchagato, Veias, 13 de Janeiro de 2018

patologia do acaso, diário, 52: Prometeus, Sísifos, Ícaros

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Jorge Muchagato, 7 de Novembro de 2015

 

 

2017, Outubro, 20. Prometeus, Sísifos, Ícaros. A cabeça avança-me no sentido da obscuridade onde impera uma devastadora pulsão de morte a que não sei se alguma vez declarei guerra, se alguma vez me rendi sem condições; uma sedutora pulsão de morte que talvez se tenha transformado, em algum lugar do caminho, no próprio sentido da vida, da minha vida. Uma pulsão de morte amada que me assassina e beija quando acontece sentar-me em alguma pedra ou marco miliário na beira da estrada. Sentar-me é um acontecimento quando sucede a cabeça avançar-me demasiado e me canso de desespero e de abandono ao vagar. O que então empreendo não tem propriamente as qualidades de um dado vazio nem de uma indefinida ausência. Quando me sento estou a cair; preciso desta queda para conseguir resistir-lhe; preciso da obscuridade e do chão último para regressar à claridade iludida e ao movimento. Penso agora que talvez tenha transformado a morte no sentido da vida; transfigurado a pulsão de morte em força de viver. Uma transfiguração, de facto, e escrever é um indício de ordem no caos, um logos, um princípio de inteligibilidade, uma guerra infinda e incondicional, em que me sento e levanto, sento e levanto, alcanço e falho, ganho e perco. Mas sob a pele das convenções está verdadeiramente o caos e as suas contradições. A história fincou na minha sensibilidade, desde que tenho lembrança de me entender, o fascínio maior. A história é o império da Morte; de um passado extinto e perdido onde vive ainda a matéria pensada da consciência de uma pulsão de morte, ou melhor dizendo, diversos conceitos de morte enquanto sentidos para o acto e para a realização. Desejei também, desde muito cedo, ser arquitecto, mas a matemática não é para a minha cabeça; mais tarde, seduziu-me a vontade de ser artista plástico, mas tive medo de enlouquecer. E no princípio de mim, condutor de autocarros ou maquinista de comboios. Durante a infância desenhei sobretudo casas e navios, veleiros. Ficar e partir. Todavia, o caos não se me afigura necessariamente como o excesso absoluto da desordem e da ansiedade. Quando me sento também acontece o caos. A vida perderia todo o sentido se não morrêssemos, mas a Humanidade, a inteligência humana, aliada e subjugada pela inteligência artificial, conseguirá vencer a Morte chegando à obra de um outro corpo sem a contingência da degradação. É provável que seja isso o Apocalipse da aniquilação e por fim da extinção. Eu fui roubado às unhas da Morte quando tinha dois meses de idade, há cinquenta e um anos, por esse mesmo processo. Não é a vida que nos diz que estamos condenados a morrer; é a morte que no-lo afirma: que estamos condenados a viver. Prometeus, Sísifos, Ícaros.

escrever

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O que poderia ter acontecido mas nunca aconteceu, não é substancial, não é matéria nem carne do esquecimento, mas matéria e corpo da poesia; é então que o que nunca aconteceu mas poderia ter acontecido, acontece ao lado, na verdade que a poesia é, ainda que seja mentira. O acontecimento é, portanto, o poema, o poema descarrilado e não o que poderia ter acontecido mas nunca aconteceu. Escrever é arquivar, não é esquecer. Nada esquecemos, só não sabemos que esquecemos, a neblina é imprevisível, e numa certa manhã cega-nos o índex. Não temos mão no esquecimento, tal como não temos mão na origem do que pensamos. Estamos indefesos perante o esquecimento e por isso escrever é resolver, é o bastante.

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, dos diários gráficos, 1998

“e eu mal auenturado mourome andando assi antre cuidado e cuidado” – escritos sobre a depressão, 2

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2.

Tomei um calmante para adormecer um pouco na minha cabeça os gritos de desespero, ou de algo parecido com o desespero, mas que eu não sei o que é; uma desordem ensurdecedora, um caos mortal, e conseguir escrever; não quero escrever, mas preciso de escrever: é o único caminho que encontro para interiorizar, com todas as forças que julgo permanecerem ainda, que estou absolutamente só e que ninguém virá para me salvar. O sono deixou há muito de ser tranquilo e regenerador e acordo durante a noite; consigo, com esforço, voltar a adormecer, mas desperto cedo. Não é cansaço o que sinto quando acordo, mas um peso monstruoso do corpo. Tomo o pequeno-almoço porque sinto alguma fome, o café, fumo o primeiro cigarro sentado à mesa de trabalho, mas o corpo pesa-me demasiado, uma densidade absolutamente saturada que me puxa para o chão. Deito-me de novo, penso em tomar dois ou três tranquilizantes, mas não posso, com o grave trabalho que tenho, passar mais um dia num sono induzido. Os lençóis são quentes e confortáveis, de flanela, mas sinto frio. Fecho os olhos, sei que não conseguirei dormir, talvez procure um lastro de força ou algum convencimento psíquico que me faça vencer o peso e a densidade do corpo, mas é uma noite profunda, sem nada, a escuridão completa. Ensaio a posição fetal debaixo dos lençóis, é a escuridão mesmo de olhos aberto, mas a própria respiração ameaça sufocar-me. Afasto a roupa da cama, sento-me, quero levantar-me, tenho que dar razão ao dia ainda que não a encontre. Mas o corpo tomba com a cabeça para o lado dos pés. Depois de vários reveses consigo levantar-me, não quero, não sei se conseguirei, mas preciso de escrever para interiorizar que estou absolutamente sozinho, rodeado de silêncio, que esta escrita é «as mãos que trago»* e que se recusam a largar a cimalha para uma queda final no absoluto; que esta escrita é os meus sapatos desfeitos, os meus sapatos-verdade. Começo a sentir o apaziguamento induzido pelo tranquilizante; diminui um pouco o desespero, a desordem, o vórtice do caos onde pressinto o agravamento da doença; pressinto mas não sei, não tenho uma noção precisa da gravidade do meu estado psíquico para além da usual pulsão de morte que estes estados acentuam até à surdez. Levantei-me para a rocha de silêncio de mais um dia, mas levantei-me, quatro horas depois de ter acordado; não quero propriamente salvar-me de mim, isso seria condenar-me a não escrever, desenhar ou pintar. Não quero salvar-me de mim nem busco um sentido para o arbítrio do acaso de estar vivo, nada posso contra isso. Começamos a pensar em anos, depois em meses, por fim em semanas, e à beira do precipício, em dias, em horas. Agora, é necessário continuar a assentar bem as pedras de estar absolutamente só e de saber que ninguém pode salvar-me. [Entretanto, você telefonou-me, veja se conseguimos “tirar” esta morte de dentro de mim; é provável que não consigamos porque ela é a própria consciência de mim, mas que seja, pelo menos, uma vulgar pulsão que consiga esquecer sob o calor do sol, na sombra das árvores, no vento no rosto, na água do rio nas mãos em concha.]

 

16 de Junho de 2017

 

* Cecília Meirelles, do poema Canção a caminho do céu, que Amália cantou com o título As mãos que trago, no disco Com Que Voz, 1970.

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Fotografia: Silos, Caldas da Rainha, 23 de Março de 2017.

 

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“e eu mal auenturado mourome andando assi antre cuidado e cuidado”: Bernardim Ribeiro (ca. 1490?-ca. 1552?), Écloga Quarta «chamada Jano», in Idem, História de Menina e Moça, reprodução facsimilada da edição de Ferrara, 1554, estudo introdutório por José Vitorino de Pina Martins, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2002. Cantado por Amália, com adaptação e música de Alain Oulman, no disco Cantigas Numa Língua Antiga, 1977.

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Idealização de Bernardim Ribeiro, por António Augusto da Costa Mota (1862-1930), bronze, 1907, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, e de onde provém a fotografia [alterada].

 

 

patologia do acaso, diário, 35: Argila e terra

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2017, Maio, 7. Argila e terra. Se o radical do que escrevo é um ser-se irreversível (não necessariamente uma tradução, mas uma destruição e uma prova de fogo sem molde) cuja natureza e movimento existem na condição intransponível do silêncio e da descoincidência com o mundo (vulgo solidão) absolutos, não vinga com suficiência, para estar na rede social, a justificação do desejo de ser lido; porque, na realidade, escrevo para muito poucas pessoas, aquelas sobre as quais não incide a minha suspeita da empatia e do entendimento, sendo que ao princípio escrevo para mim e depois esqueço dado que o domínio sobre o escrito deixa de me pertencer, assim como o conhecimento de quem lê ou de quem ignora. É necessário destruir em mim, na medida do possível, o geral desejo de ser lido e o veneno da expectativa; basta-me saber que duas ou três pessoas procuram o que sou no que penso; que procuram, que abrem este caderno, e não que este caderno se impõe, ainda que por via do acaso e da sua absurda legitimação. Escrevo, mas bebo a taça do esquecimento, porque é o esquecimento o que me espera, com maior ou menor benevolência, mas irremediavelmente o esquecimento na dilatação do tempo. A necessidade de escrever é existir no enquanto de uma fronteira indiscernível e no ser-se da morte, mais nada. O mais, o que fica verdadeiramente, e vence o ser-se da morte, é a memória dos meus braços, quando me abraças, A., e a memória dos teus braços, A., quando eu passar. Porque é por ti, A., e existindo por ti eu consigo existir por mim, compreender que não sou um erro, um acaso perdido no Universo, mas uma partícula da sua poeira que não se perdeu no frio e na escuridão inimagináveis. E a sua luta, E. S., para que eu não ceda. É nesta terra sedimentada mas firme que existo: desde o primeiro momento em que chegaram, nunca me abandonaram – e encontraram em mim, mesmo quando eu respirava o pó do chão porque caíra de rosto em terra, e as lágrimas e o ranho erguiam do pó do caminho a argila do meu sofrimento, a razão bastante que antes de chegarem eu nunca soube.