“e eu mal auenturado mourome andando assi antre cuidado e cuidado” – escritos sobre a depressão, 4

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Fotografia: Jorge Muchagato, 19 de Abril de 2018

 

 

4.


O resplendor de ervas selvagens, sólidos malmequeres brancos e amarelos, papoilas de sangue puro e silencioso decifra a luz que regressa ao mundo. As árvores exalam silêncio. Estou dentro de uma linguagem determinada no exterior do mundo comum. Não sei se é importante, ou se vale a pena, a pena de descobrir onde ocorreu o sismo. É certo que o sismo ocorreu, mas não sei se o sismo ocorreu em mim ou se sou eu inteiro o sismo. Depois do sismo não há regresso e tudo o que pereceu não volta, ainda que se cultive a ilusão de construir o mesmo. O sismo é uma morte descoincidente toda feita de silêncio e de equilíbrio; de um estranho equilíbrio vagante traduzido numa forma tranquila de desespero abandonado de tentativas e de gritos, de lágrimas e de dor plausível. A sabedoria da recusa e da terra erma toma o lugar da anuência que paga o código e a legibilidade. É verdade que se adquire o poder terrífico de conseguir decifrar – num universo mental e material densamente povoado de símbolos que são com efeito símbolos e não-símbolos, impera o silêncio mau e o medo anti-criador, o assentimento e a superstição: conseguir decifrar é, de facto, deter um certo poder; mas esse poder carece da sabedoria de o localizar dentro do sismo que ocorreu. A depressão é também uma questão de linguagem. Ser-se só não significa necessariamente estar-se só; significa que se estilhaçou o limite do chapéu e das botas. «Morro com aquele que vai morrer e nasço com aquele que está a nascer, não estou contido entre o meu chapéu e as minhas botas, / E examino os mais variados objectos, nenhum igual ao outro e todos bons, / Boa a Terra e boas as estrelas e bons os seus complementos.» [1] Mas o mundo que resplende em vegetação e flores, senti-lhe hoje o cheiro e o calor. Ao cabo da manhã, a terra exalava silêncio e tudo era bom. Na depressão solar da tarde, lágrimas secas, luz rasante sobre a mesa, queda. Queda, sem explicação; um minúsculo estímulo exterior qualquer e. William Styron abriu o seu escrito sobre a depressão por que passou com o lamento de Job (Jb 3, 25-26): «Todos os meus temores caíram sobre mim / e aquilo que eu temia veio atingir-me. / Não tenho paz nem descanso, / os tormentos impedem-me o repouso.» O pobre Job: «Por fim, Job abriu a boca / e amaldiçoou o dia do seu nascimento. / Tomou a palavra e disse: / “Desapareça o dia em que nasci / e a noite em que foi dito: / ‘Foi concebido um varão!’ / Converta-se esse dia em trevas!» (Jb 3, 1-4). Mas não é inteiramente deste modo, pois na depressão não existem deuses nem tormentos de fora; tudo é dentro, como se fora condição e matéria das veias. «O dia em que nasci moura e pereça, / Não o queira jamais o tempo dar; / Não torne mais ao Mundo, e, se tornar, / Eclipse nesse passo o Sol padeça.» [2] Outro universo, outra linguagem, alguns símbolos comuns. «The walking wounded»: «Na depressão, esta fé na libertação, na recuperação final, está ausente. A dor não dá tréguas e o que torna essa situação intolerável é o prévio conhecimento que não haverá remédio – daí a um dia, a uma hora, a um mês, ou a um minuto. Se houver um vago alívio, sabemos que é apenas temporário; mais dores virão. É bem mais a desesperança do que a dor aquilo que esmaga a alma. Portanto, a tomada quotidiana de decisões não envolve, como nos assuntos normais, o passar de uma situação aborrecida para outra menos aborrecida – ou do mal-estar para o relativo bem-estar – mas o mover-se da dor para a dor. Não se abandona, nem por um só instante, o leito do suplício, antes se vive agarrado a ele aonde quer que se vá. E isto resulta numa experiência espantosa à qual eu chamei, aproveitando a terminologia militar, a situação dos feridos em marcha [the walking wounded], pois em praticamente qualquer outro caso de doença grave, um doente que sentisse dor semelhante estaria estendido na cama, possivelmente sob sedativos e ligado a tubos e cabos de sistemas de manutenção das funções vitais ou, pelo menos, numa postura de repouso e [n]um local isolado. A sua validez seria necessária, inquestionada e honradamente obtida. Contudo, a vítima de depressão não tem essa opção e encontra-se, portanto, tal como uma vítima de guerra, atirada para as situações sociais e familiares mais intoleráveis. Aí, apesar da angústia que lhe devora o cérebro, deve mostrar uma cara semelhante à que se associa com os acontecimentos e a sociabilidade habituais. Deve tentar fazer conversa e responder a perguntas, acenar com a cabeça ou franzir o sobrolho e, Deus lhe valha, até sorrir. Mas é um terrível desafio tentar dizer mesmo poucas palavras simples.» [3] Mas o resplendor de ervas selvagens que me despiu e o odor da terra que me tocou a pele. As árvores exalam silêncio.

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[1]. Walt Whitman [1819-1892], Canto de Mim Mesmo, edição bilingue, tradução de José Agosstinho Baptista, Lisboa, Assírio & Alvim, 1992, pp. 22 e 23.

[2]. Luís de Camões [ca.1524-1580], Lírica, fixação do texto de Ernâni Cidade, ilustrações de Lima de Freitas, s.l., Círculo de Leitores, 1984, p. 244.

[3]. William Styron [1925-2006], Visível escuridão. Memórias da loucura, tradução de Maria Filomena Andrade e Sousa, Venda Nova, Bertrand Editora, 1990, p. 70. [Edição original: Darkness Visible. A memoir of Madness, New York, Random House, 1990.]

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“e eu mal auenturado mourome andando assi antre cuidado e cuidado”: Bernardim Ribeiro, «Egloga Qvarta chamada Jano», in História de Menina e Moça, reprodução facsimilada da edição de Ferrara, 1554, estudo introdutório por José Vitorino de Pina Martins, Lisboa,Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, pp. cix v.º [109 verso] – cx v.º [110 verso].

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“e eu mal auenturado mourome andando assi antre cuidado e cuidado” – escritos sobre a depressão, 3

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3.

A parte obscura do incomensurável labirinto que é a cabeça – acredito que caminho na direcção da obscuridade e não da luz; que a luz é, de facto, o conhecimento da obscuridade, que o sofrimento desse caminho é cognoscente; que esse conhecimento, doloroso, com clareiras de perplexidade, de algum apaziguamento, de dor ainda maior do que a já conhecida, de gritos, de impossibilidade de transcender a matéria corporal que em momentos sem fuga possível se afigura um cárcere; que esse conhecimento é estranho e indomável para quem o tem como a natureza mais elevada do acto de pensar. Clarice Lispector escreveu uma frase notável, breve mas plena de significados e de consequências, aparentemente simples, mas que qualifica bem este caminho do conhecimento em direcção à obscuridade e, em particular, define ao meu entender a essência do trabalho do historiador de si-para-si – que é a primeira acção, a acção fundadora do seu ofício, e Heródoto, em suma, abre assim as suas Histórias [1] – e as consequências visíveis disso na qualidade da sua aproximação à verdade: no proémio «A possíveis leitores» de A Paixão Segundo G. H., a escritora brasileira de origem ucraniana, diz da sua expectativa: «Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo de que se vai aproximar» [2]. Atravessar o oposto; ter-se a consciência da necessidade da travessia da tempestade, da travessia firme do contra-si, como no poema do fado Maldição, de Armando Vieira Pinto, cantado por Amália, «a mim odeio sem razão» [3]. Este sofrimento cognoscitivo não é o sofrimento do especialista – o especialista, suponho, não sofrerá muito, está convencido de ter o mundo inteiro na sua coutada ignorando tudo o resto, como bem define, no seu Dicionário do Diabo, Ambrose Bierce; este sofrimento cognoscitivo é precisamente o sofrimento aberto ao mundo, às expectativas, às esperanças e às derrotas do mundo; e é um sofrimento, por fim, não apenas pela sua real natureza, psíquica e física (porque somatizada), mas porque num dado momento é uma outra linguagem apesar da semelhança dos signos da linguagem comum. É o ponto de chegada de um processo entre os diversos processos da depressão mas também da criatividade: os signos são ainda os mesmos – deixam de o ser, na arte, podem também deixar de o ser na linguagem – mas a linguagem é outra, porque o mundo interior dessa linguagem é novo; novo e mais lúcido; e esta lucidez não se define tanto pela acuidade do que vulgarmente chamamos sensibilidade, mas sobretudo pela capacidade, quase monstruosa, quase disforme (mas nem uma coisa nem outra), de decifração da realidade. Cremos, ao princípio, que talvez estejamos a encetar um lento processo de enlouquecimento, porque lemos o que ninguém mais parece conseguir ou querer ler, porque compreendemos o que ninguém mais parece ter interesse em compreender. Parece, a um mesmo tempo, começar a existir um outro ser que é o mesmo ser que somos; eu sou eu mas já não estou apenas em mim, na minha cabeça. Começa então o receio, primeiro, e depois o medo de se estar a enlouquecer; de os outros terem perdido o sentido sem disso ainda se terem apercebido – «não compliques», dizem-nos. Mas não estamos a complicar, é outra a linguagem, é mais profunda e mais dolorosa a decifração da realidade onde estão metidas as pessoas e as suas coisas; as pessoas, os prédios, as ruas, os gestos vazios, o caminhar em nada, os sons artificiais e agressivos da vida urbana ou semi-urbana, a raiva, o ódio e o desespero que perpassa pelas voz que expressam o contrário disso. «a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo de que se vai aproximar». Não, a vida não é sempre um cortar a direito – as livrarias estão repletas de livros destinados a convencerem-nos disso mesmo, largas secções de romance ou de ficção repletas de livros inúteis ou pouco mais do que inúteis cuja função é deitar fogo ao tempo que está, neste arbítrio do acaso que é a vida, oferecido ao menos para que se pense. Em quase todas as livrarias, as secções mais reduzidas e mais mal cuidadas dão as da filosofia e da poesia. A secção de história já não entra nestas contas porque está tão mercantilizada e falsificada (fake, dizem os Britânicos disto, creio) como a do romance ou a da ficção. O tempo – esse mistério tão pouco misterioso; a memória sim, é misteriosa sob qualquer perspectiva que se observe. «Podes indicar-me alguém que dê o justo valor ao tempo aproveite bem o seu dia e pense que diariamente morre um pouco? É um erro imaginar que a morte está à nossa frente: grande parte dela já pertence ao passado, toda a nossa vida pretérita é já do domínio da morte! Procede, portanto, caro Lucílio, conforme dizes: preenche todas as tuas horas! Se tomares nas mãos o dia de hoje conseguirás depender menos do dia de amanhã. De adiamento em adiamento a vida vai-se passando. Nada nos pertence, Lucílio, só o tempo é mesmo nosso. A natureza concedeu-nos a posse desta coisa transitória e evanescente da qual quem quer que seja nos pode expulsar. É tão grande a insensatez dos homens que aceitam prestar contas de tudo quanto – mau grado o seu valor mínimo, ou nulo, e pelo menos certamente recuperável – lhes é emprestado, mas ninguém se julga na obrigação de justificar o tempo que recebeu, apesar de este ser o único bem que, por maior que seja a nossa gratidão, nunca podemos restituir» [4] – assim fala Séneca na sua primeira carta a um certo Lucílio, mas a primeira frase é esta: «Procede deste modo, caro Lucílio: reclama o direito de dispores de ti, concentra e aproveita todo o tempo que até agora te era roubado, te era subtraído, que te fugia das mãos» [5]. Esse tempo que nos é roubado e subtraído é difícil de ser reclamado, reconquistado na parte que ainda resta, porque essa prisão – a abstracção que é o «sistema» – está dentro de nós, foi fatalmente interiorizada pelo conceito prostituído de civilização. A civilização é vida bem distinta do «sistema» que nos é inculcado. Por isso eu lhe digo, desde a mais pequena idade: «Tu és a tua cabeça». Mas as testemunhas desta civilização prostituída abandonaram há muito a sua qualidade moral, e não é de hoje tal negócio, dado que o mesmo Séneca no-lo diz: «pois grande parte das faltas não seria cometida se ante os faltosos se erguesse uma testemunha» [6]. É portanto difícil – tempestuoso – ler esta realidade sem se ser puxado para a «merencoria», para a melancolia, o nome que os Antigos davam aos estados a que agora chamamos depressivos. Todos os dias, apesar do monstruoso peso do corpo, apesar dos gritos ensurdecedores na cabeça, apesar da justificada revolta que os outros entendem como simples desregramento caprichoso quando não como loucura para arredar da felicidade social, é necessário estar firme até ao sangue como Prometeu: «Fica a saber claramente: não trocaria a minha desgraça pela tua servidão» [7], lúcido até à solidão absoluta como Séneca: «Tenho a certeza, Lucílio, que é para ti uma verdade evidente que ninguém pode alcançar uma vida, já não digo feliz, mas nem sequer aceitável sem praticar o estudo da filosofia; além disso, uma vida feliz é produto de uma sabedoria totalmente realizada, ao passo que para ter uma vida aceitável basta a iniciação filosófica. Uma verdade evidente, todavia, deve ser confirmada e interiorizada bem no íntimo através da meditação quotidiana: é mais trabalhoso, de facto, manter firmes os nossos propósitos do que fazer propósitos honestos. É imprescindível persistir, é preciso robustecer num esforço permanente as nossas ideias, se queremos que se transforme em sabedoria o que apenas era boa vontade» [8]. Por isso lhe digo, e a mim me digo: «Não tenhas medo, tu és a tua cabeça».

17 de Junho de 2017

***

[1]. «Esta é a exposição das investigações de Heródoto de Halicarnasso, para que os feitos dos homens se não desvaneçam com o tempo, nem fiquem sem renome as grandes e maravilhosas empresas, realizadas quer pelos Helenos quer pelos Bárbaros; e sobretudo a razão por que entraram em guerra uns com os outros.» Heródoto, Histórias, Introdução geral de Maria Helena da Rocha Pereira, Introdução ao Livro I, versão do grego e notas de José Ribeiro Ferreira e Maria de Fátima Silva, Lisboa, Edições 70, 2002 [reimpressão da edição de 1994, Livro 1.º, 1, p. 53.

[2]. Clarice Lispector (1920-1977), A Paixão Segundo G. H., [1964], 2.ª edição, Lisboa, Relógio d’Água, 2013, p. 7.

[3]. Fado «Maldição» (Armando Vieira Pinto / Alfredo Marceneiro), versões editadas nos discos Fados 67, 1967; Encontro. Amália & Don Byas, gravado em 1968, editado em 1973; Amália no Café Luso, gravado em 1955, editado em 1974.

[4]. Lúcio Aneu Séneca (Córdova, 4 a.C. – Roma, 65 d.C.), Cartas a Lucílio [L. Annaei Senecae ad Lucilium Epistulae morales], tradução, prefácio e notas de J. A. Segurado e Campos, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1991, Livro I, Carta 1, 2-3, pp. 1-2. «O destinatário das Epistulae deve a sua imortalidade à amizade que o uniu a Séneca, a quem se deve praticamente tudo o que sabemos sobre ele. Aparentemente, Lúcio, de seu nome completo Gaio Lúcio Júnior, era natural de Pompeios, na Campânia, a célebre cidade arrasada pela erupção do Vesúvio no ano 79 da nossa era. Em dois passos das Epistulae Séneca refere a sua passagem pela cidade, e em ambos os casos escreve: a tua querida cidade de Pompeios. O argumento não é imperioso, mas é altamente plausível que o filósofo use tal expressão por Pompeios ser a terra natal de Lucílio, ou, pelo menos, por este lhe estar associado por algum motivo muito particular. Não é conhecida a data do seu nascimento, que, no entanto, não havia de andar muito longe da de Séneca», da Introdução, pp. VI-VII.

[5]. Ibidem, Livro I, Carta 1, 1, p. 1.

[6]. Ibidem, Livro I, Carta 11, 9, p. 32.

[7]. Ésquilo (Elêusis, provavelmente em 525 a.C. – Gela, Sicília, 456/455 a.C.), Prometeu Agrilhoado, Introdução, tradução do grego e notas de Ana Paula Quintela Sottomayor, Lisboa, Edições 70, 2014 [reimpressão], 966-967, p. 79.

[8]. Lúcio Aneu Séneca, Cartas a Lucílio, Livro II, Carta 16, 1, p. 54.

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Fotografia: Livros, 24 de Agosto de 2015.

 

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“e eu mal auenturado mourome andando assi antre cuidado e cuidado” [“e eu malaventurado morro-me andando assim entre cuidado e cuidado”]: Bernardim Ribeiro (ca. 1490?-ca. 1552?), Écloga Quarta «chamada Jano», in Idem, História de Menina e Moça, reprodução facsimilada da edição de Ferrara, 1554, estudo introdutório por José Vitorino de Pina Martins, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2002. Cantado por Amália, com adaptação e música de Alain Oulman, no disco Cantigas Numa Língua Antiga, 1977.

“e eu mal auenturado mourome andando assi antre cuidado e cuidado” – escritos sobre a depressão, 2

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2.

Tomei um calmante para adormecer um pouco na minha cabeça os gritos de desespero, ou de algo parecido com o desespero, mas que eu não sei o que é; uma desordem ensurdecedora, um caos mortal, e conseguir escrever; não quero escrever, mas preciso de escrever: é o único caminho que encontro para interiorizar, com todas as forças que julgo permanecerem ainda, que estou absolutamente só e que ninguém virá para me salvar. O sono deixou há muito de ser tranquilo e regenerador e acordo durante a noite; consigo, com esforço, voltar a adormecer, mas desperto cedo. Não é cansaço o que sinto quando acordo, mas um peso monstruoso do corpo. Tomo o pequeno-almoço porque sinto alguma fome, o café, fumo o primeiro cigarro sentado à mesa de trabalho, mas o corpo pesa-me demasiado, uma densidade absolutamente saturada que me puxa para o chão. Deito-me de novo, penso em tomar dois ou três tranquilizantes, mas não posso, com o grave trabalho que tenho, passar mais um dia num sono induzido. Os lençóis são quentes e confortáveis, de flanela, mas sinto frio. Fecho os olhos, sei que não conseguirei dormir, talvez procure um lastro de força ou algum convencimento psíquico que me faça vencer o peso e a densidade do corpo, mas é uma noite profunda, sem nada, a escuridão completa. Ensaio a posição fetal debaixo dos lençóis, é a escuridão mesmo de olhos aberto, mas a própria respiração ameaça sufocar-me. Afasto a roupa da cama, sento-me, quero levantar-me, tenho que dar razão ao dia ainda que não a encontre. Mas o corpo tomba com a cabeça para o lado dos pés. Depois de vários reveses consigo levantar-me, não quero, não sei se conseguirei, mas preciso de escrever para interiorizar que estou absolutamente sozinho, rodeado de silêncio, que esta escrita é «as mãos que trago»* e que se recusam a largar a cimalha para uma queda final no absoluto; que esta escrita é os meus sapatos desfeitos, os meus sapatos-verdade. Começo a sentir o apaziguamento induzido pelo tranquilizante; diminui um pouco o desespero, a desordem, o vórtice do caos onde pressinto o agravamento da doença; pressinto mas não sei, não tenho uma noção precisa da gravidade do meu estado psíquico para além da usual pulsão de morte que estes estados acentuam até à surdez. Levantei-me para a rocha de silêncio de mais um dia, mas levantei-me, quatro horas depois de ter acordado; não quero propriamente salvar-me de mim, isso seria condenar-me a não escrever, desenhar ou pintar. Não quero salvar-me de mim nem busco um sentido para o arbítrio do acaso de estar vivo, nada posso contra isso. Começamos a pensar em anos, depois em meses, por fim em semanas, e à beira do precipício, em dias, em horas. Agora, é necessário continuar a assentar bem as pedras de estar absolutamente só e de saber que ninguém pode salvar-me. [Entretanto, você telefonou-me, veja se conseguimos “tirar” esta morte de dentro de mim; é provável que não consigamos porque ela é a própria consciência de mim, mas que seja, pelo menos, uma vulgar pulsão que consiga esquecer sob o calor do sol, na sombra das árvores, no vento no rosto, na água do rio nas mãos em concha.]

 

16 de Junho de 2017

 

* Cecília Meirelles, do poema Canção a caminho do céu, que Amália cantou com o título As mãos que trago, no disco Com Que Voz, 1970.

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Fotografia: Silos, Caldas da Rainha, 23 de Março de 2017.

 

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“e eu mal auenturado mourome andando assi antre cuidado e cuidado”: Bernardim Ribeiro (ca. 1490?-ca. 1552?), Écloga Quarta «chamada Jano», in Idem, História de Menina e Moça, reprodução facsimilada da edição de Ferrara, 1554, estudo introdutório por José Vitorino de Pina Martins, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2002. Cantado por Amália, com adaptação e música de Alain Oulman, no disco Cantigas Numa Língua Antiga, 1977.

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Idealização de Bernardim Ribeiro, por António Augusto da Costa Mota (1862-1930), bronze, 1907, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa, e de onde provém a fotografia [alterada].

 

 

“e eu mal auenturado mourome andando assi antre cuidado e cuidado” – escritos sobre a depressão, 1

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Caldas da Rainha, 26 de Maio de 2017

1.

A depressão é uma dor psíquica constante, positiva e negativa, negativa e positiva, à semelhança dos extremos do processo fotográfico – um processo também do eu; apercebo-me, em certos momentos, a realizar em mim uma arguição da sua verosimilhança, a tactear, a aferir se o meu eu coincide comigo, se a minha cabeça está comigo, ou se eu estou fora da minha cabeça e me vejo pelos meus próprios olhos. É também semelhante à fome – um processo de conclusão adivinhável; sempre um processo, mas houve um ponto ou uma fronteira (a palavra limite é a mais adequada mas não serve, nem o conceito nem as imagens possíveis) em que o processo parou, estancou, para poder continuar. O processo é invisível e invencível e a fronteira corresponde à consciência de se ter saído de uma dada realidade a que os Antigos chamavam «o mundo habitado» e que era em simultâneo um conceito. No movimento, mas fora do mundo habitado. E assim como se deixa de sentir a fome, o corpo adquire uma densidade e um peso quase insuportável onde predomina o som da própria respiração – já não se sente a dor, mas está-se no seu útero e na sua cabeça; “útero” e “cabeça” num organismo informe onde os “olhos” confirmam o excesso absoluto de uma acuidade intelectual impressionante, desconhecida até darmos conta dela, precisamente pelo processo que ela é. Talvez por este processo conhecer momentos em que se transforma num vórtice indomável, o álcool se dilua tão perfeitamente na depressão e faça sangrar de uma maneira única – mas não sucede ao álcool o que sucede à medicação: a necessidade de estancar, porque o álcool pode diluir-se – não: a melhor palavra não é diluir, mas contaminar; porque o álcool pode contaminar também um outro processo, aliado e inimigo da depressão, o processo criativo. Realizei, como escrevi em um outro diário, que talvez seja possível transformar a depressão em pensamento; mudar a depressão num processo cognoscente, amassá-la até se transformar em pão – em escrita. «Você não pode lutar contra a depressão; você tem que aprender a viver com a depressão». Esta evidência, que eu nunca poderia ter alcançado sozinho, leva já treze ou catorze anos no meu pensamento; a começar por aqui: a escrever agora, a escrever sobre o que já foi escrito, desenhado ou pintado; a desenhar, se tempo houver para isso; a fixar imagens com a máquina fotográfica. Porque preciso; para ficar de mim próprio conhecido. Gosto dos versos quinhentistas de Bernardim Ribeiro – que Amália transfigurou em canto com música de Alain Oulman no disco Cantigas Numa Língua Antiga, 1977 – para escrever sobre a depressão quando estiver de maré: «e eu mal aventurado morro-me andando assim entre cuidado e cuidado», que são da Écloga Quarta «chamada Jano».

Para E.S.

26 de Maio de 2017

 

307

 

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Mudei terra mudei vida
mudei paixam em paixam
vi a alma de mim partida
nunca de meu coraçam
vi minha door despedida:
Antre tamanhas mudanças
de hum cabo minha sospeita
e de outro desconfianças
leixanme em grande estreita
e leuanme as esperanças

 

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Nesta triste companhia
ando eu que tam triste ando
jaa nam sam quem ser soía
os dias viuo chorando
as noutes mal as dormia:
Temo descanço tornado
mal que por meu mal ho vi
e eu mal auenturado
mourome andando assi
antre cuidado e cuidado

 

Por me nada nam ficar
que nam me fosse tentado
prouei darme a trabalhar
mas nunca me achei cançado
para poder descançar:
Quando mais cançado estaua
alli meu mal entam
a meu mal se apresentaua
e o corpo e o coraçam
ambos cançados leuaua

 

Sketchbook 072
Diários gráficos, tinta-da-china, 1998

 

Nam sabendo onde me hiria
que ma mim laa nam leuasse
roguei a Deus nam soo hum dia
que da vida me tirasse
pois me dala nam queria:
Mas com cuidados maiores
cree que Deus se nam cura
ca dos pobres pastores
como que elles por ventura
nam sentem laa suas dores

 

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O quam bem auenturado
fora jaa se me matara
minha door ou meu cuidado
eu morrera e acabara
e meu mal fora acabado:
Nam vira tal perdiçam
de mim e de tanta cousa
perdido tudo em vam
porque hua paixam nam repousa
em outra maior paixam

 

Bernardim Ribeiro, «Egloga Qvarta chamada Jano», in História de Menina e Moça, reprodução facsimilada da edição de Ferrara, 1554, estudo introdutório por José Vitorino de Pina Martins, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2002, pp. cix v.º [109 verso] – cx v.º [110 verso].

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