uma história de vida, arte e fado

Preciso do silêncio e da procura, da solidão e de escrever, de pensar e despensar; da dúvida e do contentamento, da distância e do corpo, do acaso e do rumo; de me ir encontrando e na ravina destas cadências temporais, de me abandonar à densidade ou ao desespero da cabeça e do corpo; é-me a pele muitas vezes o baraço destinado à queda ou ao salto. Mas não é, propriamente, uma sede constante; é uma forma de desejo anterior e posterior ao vitalismo da pele e do sexo; um informe sensível que agrega a sede, o desejo e a morte. Aterroriza e seduz, a morte. Não se trata, todavia, do terror de acabar, mas do terror de não saber; do medo da passagem, da mudança das propriedades. Ainda que não seja verosímil que exista mais algum estado do que este, a verdade é a do terror da consciência no ínfimo do termo adivinhado. Talvez seja um “momento” desprovido de tempo. Não pode ser um momento, por mais ínfimo, porque pressuporia uma fragmentação inimaginável do tempo. Seja o que possa ser ou não ser, parece que temos a consciência da morte do corpo, pois o funcionamento do cérebro prossegue algum tempo após a paragem do coração, a indicação da hora da morte, por razões que a ciência explica. Não há mais nada, portanto, que se saiba; mas o que não se sabe é como é a percepção disso. Sentirão alguns terror, outros pacificação, dado que o corpo não pode dar sinal disso, mas alguns sentidos, conforme os casos, como a audição e a visão, persistem? Pessoas reanimadas referem que ouviram a declaração das suas mortes pelos médicos.

[contamina-me a lentidão da mudança do medo em procura e, por fim, em sedução
mas não consigo limpar o medo, nem da procura nem da sedução.]

Do absoluto acaso da poeira universal toca-nos a dádiva de um certo tempo; a dádiva, enfim, de um pedaço de universo que desejamos arredondar à felicidade. «Fala-se tanto de felicidade, mas a felicidade o que é? Não se pode meter uma vida toda numa palavra» (1), sobretudo quando se existe, desde tão cedo, «fora da razão dos outros» (2).

[se fosse agora, um acaso do caos universal poderia salvar-me? dizem que o acaso
não existe, que existe uma espécie de razão mecânica
cujas entranhas relojoeiras nos acodem e a isso chamamos sorte e é estranho
que em nós a sorte rime com a morte.]

Não há deuses, nunca os houve e alguns de nós estamos fora desta cenográfica mecânica de indulgências, pois nos basta o sentido da morte e a condenação a viver. Em todo o caso, vivemos e vamos tecendo uma história, mas somos parcos nas explicações, se as procuramos ou quando as procuramos. Essa ausência de razão e de sentido dos gestos e das coisas acaba por nos consolar e afinal conferir à nossa vida uma singularidade, ou melhor, uma confirmação da singularidade que cada um é desde “sempre”.

[no meu modo de estar cada vez mais perdido, não me apercebo bem
do que você pensa nem do que você sente – embato nisto há algum tempo;
queria eu suspender a minha fala e que você me falasse
em certos momentos desejo apenas o silêncio, tombar um pouco
no sofá, de lado, numa posição semelhante à posição fetal, e ficar,
conferir no silêncio desse lugar algum descanso à minha cabeça e ao meu corpo
falar por esse silêncio de estar e de ter onde pousar a cabeça, onde abandonar
o corpo a um choro invisível e imperscrutável
do exterior; até à absoluta impossibilidade, até, enfim, à queda
decifro e compreendo fragmentos, apenas ou nada.]

Num dia de há quarenta e cinco anos, quando cheguei a casa depois da escola, pedi à minha mãe ou à minha avó, um sobrescrito. Fiz um desenho, coloquei-o dentro do envelope, fechei-o, e de imediato amachuquei tudo com as mãos até fazer uma pequena bola; depois desfiz a bola até obter de novo o formato do envelope com o desenho dentro. A minha mãe estranhou, com censura, ter estragado um sobrescrito novo. Expliquei que aquele estrago se destinava a fazer do envelope e do seu conteúdo, novos, um envelope e um desenho antigos. Novo, era igual a todos os envelopes, amarrotado era um envelope antigo.
Escolhi o curso de História porque esse fascínio era o mais certo e o mais antigo e a insegurança que sentia em relação às minhas aptidões artísticas era demasiado forte e avassaladora para uma decisão assim e eu não estava ainda preparado para ficar fora da razão dos outros; além disso, “seguir” Belas Artes incutia-me o terrível receio de enlouquecer e de me achar, sem fim, fora dessa razão dos outros, de todos os outros, sem rumo e assustado num meio tão perdulário como eu imaginava ser o dos artistas. Eu não tinha forças nem argumentos nem justificações, para suportar, aos catorze anos, essa exclusão. Mas no liceu houve um engano na matrícula e fui inscrito na área das Artes Visuais em lugar da de Humanidades, que de facto escolhera. Deixei que o erro ficasse, talvez fosse um sinal do destino, e comecei a frequentar as disciplinas. Mas corrigi o erro porque a minha cabeça, julgava eu, não dava para a Física, a Química e a Matemática. E mudei o destino, julgo, porque não se sabe se mudando o destino não estamos, ao invés, a cumpri-lo. Tudo é hoje diferente de há trinta e cinco anos, mas esse medo do enfraquecimento ou mesmo da perda da razão permanece, mais diluído e entendido, mas suponho que permanece, na obscuridade do ininteligível. Mas fui prosseguindo com o desenho, a pintura, ocasiões de teatro e de canto. Mas a antiga sedução da história era um chão mais seguro para quem eu era há muitos anos.
O receio de enlouquecer nunca me abandonou por completo mas, quando há vinte anos me tornei professor de história da arte numa escola de artes, o caos que eu disciplinara em segredo e com acentuado sofrimento emergiu e obrigou-me ao confronto – eu era professor numa escola onde sempre desejara ser aluno. Ter sido professor na Escola de Artes e Design de Caldas da Rainha mudou a minha vida num processo longo que, suspeito, me acompanhará até ao fim, porque foi aqui que o medo se transformou num resíduo necessário ao risco e à sobrevivência. Mas antes, para desfazer a minha insegurança no que dizia respeito às aptidões artísticas, frequentei o curso de Pintura na Sociedade Nacional de Belas Artes de Lisboa em 1996, e compreendi que talvez houvesse alguma coisa, ainda que fraca ou ingénua.
Este retrato de Alfredo Marceneiro, pintado em pastel seco, numa tarde do início do Verão de 1994, foi feito com um copo de uísque ao lado. Trouxe-o esta semana para minha casa e tem uma história.
Suponho poder dizer que tenho tido uma vida um pouco aventurosa, à minha escala, entenda-se. Há vinte e dois anos, sem trabalho, procurava formas de ganhar a vida e lembrei-me, numa noite, de ir a uma casa de fados em Cascais, que já não existe, tentar vender os meus retratos da Amália e de outros fadistas. O proprietário do estabelecimento recebeu-me, gostou dos retratos e propôs-me um trabalho: ficar na casa de fados a fazer caricaturas de frequentadores que ele me indicasse, para depois lhas oferecer, e daqueles que me pedissem uma caricatura ou um retrato. Improvisei uma prancha, comprei uns pequenos recipientes metálicos acopláveis ao suporte, para a água e a tinta-da-china, e comecei logo na noite seguinte. Lembro-me que uma das pessoas que retratei, a pedido do proprietário da casa de fados, foi a mãe dos irmãos fadistas Camané, Pedro e Helder Moutinho. Começava depois do jantar e terminava madrugada adiantada. Tal como mais tarde sucedeu com a escola de artes, eu estava a desenhar numa casa de fados onde tantas vezes me apetecia cantar, também. Mas nunca mencionei a ninguém esse meu gosto.
Entre os desenhos que mostrei ao proprietário da casa de fados e a outras pessoas presentes, estava este retrato de Alfredo Marceneiro. Uma dessas pessoas quis de imediato comprar-me o retrato de Marceneiro, mas eu respondi que a pintura não estava para venda. O homem, que compreendi ser amigo do dono da casa de fados, insistiu tanto que a certo momento, pensando talvez que eu pretendia apenas obter um preço avultado, fez um último repto: «Diga-me um preço, seja qual for, que eu compro-lhe o retrato, qualquer preço». Mas não vendi porque eu sabia que não conseguiria fazer outro igual ou parecido. Eu tivera gestos irrepetíveis e raramente utilizava o pastel seco. À distância de tantos anos, provavelmente, não passará agora de um retrato vulgar, não sei; o que então percebi foi que o retrato teria alguma força. [«O que é que você está a fazer em história da arte?», perguntou-me um professor, aí por 1990, quando lhe levei fotografias do que então pintava, eu pintava muito, tinha um real desejo de aprender a pintar.] Foi um retrato “sofrido”; lembro-me que o pintei com a raiva de pretender provar a mim mesmo que o meu caminho mais verdadeiro (e perigoso) era o das artes. E estava, nessa intuição, só. Nessa época dispunha de pouco tempo para pintar e a minha cabeça estava envenenada por um emprego onde não me realizava. Eu tinha a pressa daqueles que receiam o golpe longínquo do arrependimento. O uísque atenuava essa frustração e derrubava a falta de confiança, o nem sequer valer a pena, a ausência de estímulo. Angústias ingénuas e desprovidas de suficiente sabedoria. Mas o desenho guardei-o durante estes anos todos, para agora, enfim, o colocar à venda.

*

(1). Amália Rodrigues, Expresso, suplemento «Revista», Lisboa, 25 de Outubro de 1997, «Amália, os Versos da Voz», Inês Pedrosa.
(2). Vítor Pavão dos Santos, Amália. Uma Biografia, 2.ª edição, Lisboa, Editorial Presença, 2005, p. 25.

*

 

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Jorge Muchagato, Retrato de Alfredo Marceneiro, pastel seco sobre papel, 1994
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a pele de agosto (fado)

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o que sabes da minha procura
do que nego e do que aceito
se ajo ou não por despeito
o que sabes da minha loucura

a chuva escorre dos beirais
em traços de água rectilíneos
inverno de cinza e céus iguais
peito aberto desejos ígneos

porque me segues sem saber
o horizonte do chão que sigo
porque morres assim comigo
em palavras que não vão acontecer

o que sabes da sombra definida
na metade oculta do meu rosto
é um precipício para mim a vida
como a pele no sol de agosto

*

Ilustração: diário gráfico, colagem e acrílico, papel, 2004

Amália e Dylan Thomas numa noite de Abril

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Lisboa, Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, 20 de Abril de 1992. Fotografia: Jorge Muchagato

 

Escrever, alcançar a supressão absoluta do esquecimento. Era com ela também assim, esta ambição desmedida de guardar cada instante do continuum de imagens em movimento, inseparáveis; do grão e da modulação da voz; da incidência da luz de cena na face angulosa que marcava ainda mais uma trágica afirmação das órbitas oculares e das pálpebras pintadas com um largo traço negro; dos traços de voo da sua mão esquerda, do braço e do drapeado do vestido a assinalar os lugares mais dramáticos ou eufóricos das canções; do perfil nocturno do seu vestido de cantar; da criação única que era a sua arrepiante presença em palco. Sim, existia qualquer coisa; existia a respiração de um qualquer realidade diferente que descoincidia com a realidade propriamente dita. Essa existência começava cedo, com as Variações executadas pelo quarteto de guitarras. Os recitais de Amália Rodrigues eram um acto de criação irrepetível, portanto único. O ar vibrava de emoções, golpes diversos de uma espécie de estática eléctrica que retirava toda a explicação ao que acontecia, a cada um e a todos. O que sucedia era uma espécie de queda desejada, de queda amada, no precipício sem se saber quando. Algo semelhante à ideia inata de nos sabermos mortais, de sabermos que tudo acabará; algo semelhante ao cometimento de um fim sabendo-se que outra coisa não nos espera senão o fim; um involuntário chegar ao chão do fundo, de «sem ninguém para me entender» na «meia-noite a meio da vida». Acontecia uma vertigem emotiva que desafiava os limites da sensibilidade numa perturbação que não se conseguia (nem desejava) explicar. Uma genialidade vocal, musical, presencial insuperável. Mas não era possível essa supressão absoluta do esquecimento; na fronteira do paradoxo, era de facto difícil tudo fixar, tudo traduzir em memória: o arrebatamento motivado por essa qualquer coisa que existia nas apresentações ao vivo de Amália, era uma vivência radical que exacerbava os sentidos a uma elevação condenada logo pelo esquecimento, dado que a forma vulgar da memória não resistia a tal distensão. De alguma maneira, e deste modo isso vivi, os recitais de Amália transcendiam as qualidades da memória e por isso uma força quase irracional atravessava a intensidade dos aplausos. (Tudo existe, tudo passa, tudo acaba.) Essas memórias de Amália em cena são um chão profundo ao qual raramente se desce por completo; e assim a verdade, que é uma escada que se desce, ao invés do que vulgarmente se pensa. Os registos fonográficos permitem uma aproximação a um momento fragmentado de extremos – de uma volta da voz, de uma imagem que se conseguiu parar, de uma melancolia que feriu – impossíveis de traduzir e guardados como um tesouro secreto, íntimo.

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Dylan Thomas, A mão ao assinar este papel, edição bilingue, tradução e prefácio de Fernando Guimarães, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990

Aconteceu ter sido raro procurar; encontrei mais, e quando ousei ensaiar essa demanda condenada à intenção, creio terem sido poucas as vezes em que me achei bem sucedido. Se o risco conhecesse a intenção prévia existiríamos menos. A vida é a corrente e a rotação das marés. Amor, livros, música, arte, lugares, pessoas. Amargos tributos se pagam, as mais das vezes nem pelas qualidades da travessia mas pelo fraco engenho do entendimento que só o tempo apura. Mas regressamos ao sol ainda que a vereda se faça na direcção da obscuridade.

Amália ia cantar em Lisboa numa noite de Abril desse ano de 1992, na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, em recital repartido com um cantor, numa ocasião de solidariedade que agora não recordo. E eu regressava: naquela sala a ouvi pela primeira vez ao vivo, nove anos antes, na noite de 26 de Maio de 1983 (a célebre apresentação com António Variações na primeira parte) e depois em 20 de Dezembro de 1985 na Gala dos Finalistas de Direito (com Luís Góis, António Bernardino, fado de Coimbra, Rosa Lobato de Faria, declamação, e Herman José). Sozinho fui, como quase sempre, feita uma ou outra excepção, ia aos recitais de Amália. Encontrei Amália no umbral do meu entendimento, a minha idade nunca esteve em acordo com as circunstâncias, com o tempo; nem com a arte em que me encontrava. E, com Amália, essa realidade adquiriu muito cedo, ao juízo dos outros, uma triste feição exótica. Todavia, eu alcançava a tristeza da triste feição, mas não compreendia o sofrimento do exotismo. Era-me indiferente, uma vez que dobrava o cabo do exotismo na recompensa da beleza do sofrimento e da tristeza. É bela, a tristeza, mas é necessário que se saiba tal coisa.

Cheguei cedo a Lisboa e entrei numa das livrarias que ao tempo mais frequentava e hoje já não existe, a Livraria Arco-Íris, no centro comercial do mesmo nome á avenida Júlio Dinis, frente ao Campo Pequeno. Apesar de ter sido fechada ao trânsito e sobejasse de duas ou três esplanadas e de meia dúzia de árvores domesticadas, sempre achei aquela rua triste e não encontro porquê. Talvez pelas ruínas de um prédio de pobre art nouveau portuguesa que lá resistiu. Recordo muito bem essa noite urbana pois nada havia nela de excepcional e a memória estava desprevenida de toda a fixação. A minha solidão aceitava no seu denso vazio a solidão nocturna; e ao mesmo tempo, em qualquer revolta profunda e impronunciável, rejeitava-a na frieza metálica e seca, estéril, do ruído do trânsito, do traço das luzes dos faróis dos automóveis e dos autocarros que se desfaziam de imediato na ilusão ocular, dos passeios percorridos por quase espectros apressados, sombras, precipícios alheios. Devo ter jantado em Lisboa nessa noite, creio que sim, para me achar ali. Havia um restaurante manchado de decadência precoce no piso abaixo do nível da rua, uma coisa angustiada e escura com laivos de glória perdida. Decidi fazer tempo na livraria até à hora do recital. Aprecio livrarias onde paire um silêncio suficiente, são lugares onde gosto de pensar e de encontrar, palavras em mim ou livros nas estantes.

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E encontrei este livro de lombada tão breve: A mão ao assinar este papel, de Dylan Thomas (1914-1953), poeta de vida trágica que eu então não conhecia. O pequeno livro, com cinquenta páginas onde vivem doze poemas na sua linguagem original e na sua tradução portuguesa, exerceu sobre a minha sensibilidade um fascínio imediato.

«Vem uma mudança no tempo do coração
secar a sua seiva, e um brilho que nos fere
vibra no interior glacial do túmulo»

ou

«A força que impele através do verde rastilho a flor
impele os meus verdes anos; a que aniquila as raízes das árvores
é o que me destrói.
E não tenho voz para dizer à rosa que se inclina
como a minha juventude se curva sob a febre do mesmo inverno.»

ou, ainda,

«O sangue esgota-se, estremecendo com a fuga
do sangue químico, consciente de como a agitação chega.
Junto à orla do mar, escuta as negras vogais dos pássaros.»

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Este livro salvou a minha solidão dessa noite, a mim, que nessa altura padecia da ilusão de ser salvo, até ao início do recital de Amália.

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Lisboa, Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, 20 de Abril de 1992. Fotografia: Jorge Muchagato

Publicado também no blogue Amália Rodrigues: a vida é um longo adeus

fado para o Fado Meia-Noite

eu era capaz de morrer
meu amor por ti somente
eu era capaz de anoitecer
como uma terra sem gente

tudo passa sem redenção
a vida as coisas o gostar
e passa até o coração
que julgamos nunca acabar

e no entanto permanece
este longo amor por ti
quando o mundo anoitece
é que encontro o que perdi

esquece o mundo que passa
que importa se o não sabemos
antes fosse essa a desgraça
do que tudo o que não temos

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Fotografia: Jorge Muchagato, Abril de 2015

 

 

 

 

fado para o Fado das Horas

esta solidão não sei
quem ma deu nem donde vem
destino que não procurei
nem culpa de ninguém

traz o ocaso algum sossego
porque o dia tudo ignora
na solidão que então nego
abre a noite que me chora

solidão vago mistério
que me habita a existência
ter no peito um eremitério
de ilusão e de ausência

mas um dia há-de acabar
esta solidão este vazio
quando o céu desabar
e o corpo me negar o frio

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Fotografia: Jorge Muchagato

 

 

fado para o Fado Vitória

 

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trago no peito um poço
uma árvore ao invés
de raiz voltada ao sol
são as veias de um destroço
o dia morto das marés
no centro do girassol

eus de mim noite quebrada
rubro vinho sombra nua
do meu coração perdido
dobro o mundo na enseada
que verte o sangue à lua
daquele troço esquecido

sem deuses nem razão
sem saudades nem aquém
que me redimam o passado
nesse fundo onde não há fundo
há uma terra de ninguém
feita de rosas sangue e fado

*

Fotografia: guitarra, 2010.

fado para o Fado Cravo

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era o sol cego do meio-dia
e nas minhas mãos mordia
o cão vadio da tua ausência.
rasgam as mãos esses dentes
e fora das veias dormentes
a noite ensopa a minha carência

era a lua naquele céu falso
e o frio da noite o cadafalso,
a faca no coração gelado.
eu queria só o teu rosto
o fogo do meu desgosto
nos contrários do fado

era uma estrela sozinha
contra o sol, uma luzinha,
firme na poeira do universo.
falta desse amor agora
a face destruída da demora
o tempo caído e disperso.

 

*

Fotografia: Guitarra portuguesa, Jorge Muchagato, Agosto de 2010.