a pele de agosto (fado)

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o que sabes da minha procura
do que nego e do que aceito
se ajo ou não por despeito
o que sabes da minha loucura

a chuva escorre dos beirais
em traços de água rectilíneos
inverno de cinza e céus iguais
peito aberto desejos ígneos

porque me segues sem saber
o horizonte do chão que sigo
porque morres assim comigo
em palavras que não vão acontecer

o que sabes da sombra definida
na metade oculta do meu rosto
é um precipício para mim a vida
como a pele no sol de agosto

*

Ilustração: diário gráfico, colagem e acrílico, papel, 2004

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Amália e Dylan Thomas numa noite de Abril

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Lisboa, Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, 20 de Abril de 1992. Fotografia: Jorge Muchagato

 

Escrever, alcançar a supressão absoluta do esquecimento. Era com ela também assim, esta ambição desmedida de guardar cada instante do continuum de imagens em movimento, inseparáveis; do grão e da modulação da voz; da incidência da luz de cena na face angulosa que marcava ainda mais uma trágica afirmação das órbitas oculares e das pálpebras pintadas com um largo traço negro; dos traços de voo da sua mão esquerda, do braço e do drapeado do vestido a assinalar os lugares mais dramáticos ou eufóricos das canções; do perfil nocturno do seu vestido de cantar; da criação única que era a sua arrepiante presença em palco. Sim, existia qualquer coisa; existia a respiração de um qualquer realidade diferente que descoincidia com a realidade propriamente dita. Essa existência começava cedo, com as Variações executadas pelo quarteto de guitarras. Os recitais de Amália Rodrigues eram um acto de criação irrepetível, portanto único. O ar vibrava de emoções, golpes diversos de uma espécie de estática eléctrica que retirava toda a explicação ao que acontecia, a cada um e a todos. O que sucedia era uma espécie de queda desejada, de queda amada, no precipício sem se saber quando. Algo semelhante à ideia inata de nos sabermos mortais, de sabermos que tudo acabará; algo semelhante ao cometimento de um fim sabendo-se que outra coisa não nos espera senão o fim; um involuntário chegar ao chão do fundo, de «sem ninguém para me entender» na «meia-noite a meio da vida». Acontecia uma vertigem emotiva que desafiava os limites da sensibilidade numa perturbação que não se conseguia (nem desejava) explicar. Uma genialidade vocal, musical, presencial insuperável. Mas não era possível essa supressão absoluta do esquecimento; na fronteira do paradoxo, era de facto difícil tudo fixar, tudo traduzir em memória: o arrebatamento motivado por essa qualquer coisa que existia nas apresentações ao vivo de Amália, era uma vivência radical que exacerbava os sentidos a uma elevação condenada logo pelo esquecimento, dado que a forma vulgar da memória não resistia a tal distensão. De alguma maneira, e deste modo isso vivi, os recitais de Amália transcendiam as qualidades da memória e por isso uma força quase irracional atravessava a intensidade dos aplausos. (Tudo existe, tudo passa, tudo acaba.) Essas memórias de Amália em cena são um chão profundo ao qual raramente se desce por completo; e assim a verdade, que é uma escada que se desce, ao invés do que vulgarmente se pensa. Os registos fonográficos permitem uma aproximação a um momento fragmentado de extremos – de uma volta da voz, de uma imagem que se conseguiu parar, de uma melancolia que feriu – impossíveis de traduzir e guardados como um tesouro secreto, íntimo.

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Dylan Thomas, A mão ao assinar este papel, edição bilingue, tradução e prefácio de Fernando Guimarães, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990

Aconteceu ter sido raro procurar; encontrei mais, e quando ousei ensaiar essa demanda condenada à intenção, creio terem sido poucas as vezes em que me achei bem sucedido. Se o risco conhecesse a intenção prévia existiríamos menos. A vida é a corrente e a rotação das marés. Amor, livros, música, arte, lugares, pessoas. Amargos tributos se pagam, as mais das vezes nem pelas qualidades da travessia mas pelo fraco engenho do entendimento que só o tempo apura. Mas regressamos ao sol ainda que a vereda se faça na direcção da obscuridade.

Amália ia cantar em Lisboa numa noite de Abril desse ano de 1992, na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, em recital repartido com um cantor, numa ocasião de solidariedade que agora não recordo. E eu regressava: naquela sala a ouvi pela primeira vez ao vivo, nove anos antes, na noite de 26 de Maio de 1983 (a célebre apresentação com António Variações na primeira parte) e depois em 20 de Dezembro de 1985 na Gala dos Finalistas de Direito (com Luís Góis, António Bernardino, fado de Coimbra, Rosa Lobato de Faria, declamação, e Herman José). Sozinho fui, como quase sempre, feita uma ou outra excepção, ia aos recitais de Amália. Encontrei Amália no umbral do meu entendimento, a minha idade nunca esteve em acordo com as circunstâncias, com o tempo; nem com a arte em que me encontrava. E, com Amália, essa realidade adquiriu muito cedo, ao juízo dos outros, uma triste feição exótica. Todavia, eu alcançava a tristeza da triste feição, mas não compreendia o sofrimento do exotismo. Era-me indiferente, uma vez que dobrava o cabo do exotismo na recompensa da beleza do sofrimento e da tristeza. É bela, a tristeza, mas é necessário que se saiba tal coisa.

Cheguei cedo a Lisboa e entrei numa das livrarias que ao tempo mais frequentava e hoje já não existe, a Livraria Arco-Íris, no centro comercial do mesmo nome á avenida Júlio Dinis, frente ao Campo Pequeno. Apesar de ter sido fechada ao trânsito e sobejasse de duas ou três esplanadas e de meia dúzia de árvores domesticadas, sempre achei aquela rua triste e não encontro porquê. Talvez pelas ruínas de um prédio de pobre art nouveau portuguesa que lá resistiu. Recordo muito bem essa noite urbana pois nada havia nela de excepcional e a memória estava desprevenida de toda a fixação. A minha solidão aceitava no seu denso vazio a solidão nocturna; e ao mesmo tempo, em qualquer revolta profunda e impronunciável, rejeitava-a na frieza metálica e seca, estéril, do ruído do trânsito, do traço das luzes dos faróis dos automóveis e dos autocarros que se desfaziam de imediato na ilusão ocular, dos passeios percorridos por quase espectros apressados, sombras, precipícios alheios. Devo ter jantado em Lisboa nessa noite, creio que sim, para me achar ali. Havia um restaurante manchado de decadência precoce no piso abaixo do nível da rua, uma coisa angustiada e escura com laivos de glória perdida. Decidi fazer tempo na livraria até à hora do recital. Aprecio livrarias onde paire um silêncio suficiente, são lugares onde gosto de pensar e de encontrar, palavras em mim ou livros nas estantes.

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E encontrei este livro de lombada tão breve: A mão ao assinar este papel, de Dylan Thomas (1914-1953), poeta de vida trágica que eu então não conhecia. O pequeno livro, com cinquenta páginas onde vivem doze poemas na sua linguagem original e na sua tradução portuguesa, exerceu sobre a minha sensibilidade um fascínio imediato.

«Vem uma mudança no tempo do coração
secar a sua seiva, e um brilho que nos fere
vibra no interior glacial do túmulo»

ou

«A força que impele através do verde rastilho a flor
impele os meus verdes anos; a que aniquila as raízes das árvores
é o que me destrói.
E não tenho voz para dizer à rosa que se inclina
como a minha juventude se curva sob a febre do mesmo inverno.»

ou, ainda,

«O sangue esgota-se, estremecendo com a fuga
do sangue químico, consciente de como a agitação chega.
Junto à orla do mar, escuta as negras vogais dos pássaros.»

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Este livro salvou a minha solidão dessa noite, a mim, que nessa altura padecia da ilusão de ser salvo, até ao início do recital de Amália.

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Lisboa, Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, 20 de Abril de 1992. Fotografia: Jorge Muchagato

Publicado também no blogue Amália Rodrigues: a vida é um longo adeus

fado para o Fado Meia-Noite

eu era capaz de morrer
meu amor por ti somente
eu era capaz de anoitecer
como uma terra sem gente

tudo passa sem redenção
a vida as coisas o gostar
e passa até o coração
que julgamos nunca acabar

e no entanto permanece
este longo amor por ti
quando o mundo anoitece
é que encontro o que perdi

esquece o mundo que passa
que importa se o não sabemos
antes fosse essa a desgraça
do que tudo o que não temos

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Fotografia: Jorge Muchagato, Abril de 2015

 

 

 

 

fado para o Fado das Horas

esta solidão não sei
quem ma deu nem donde vem
destino que não procurei
nem culpa de ninguém

traz o ocaso algum sossego
porque o dia tudo ignora
na solidão que então nego
abre a noite que me chora

solidão vago mistério
que me habita a existência
ter no peito um eremitério
de ilusão e de ausência

mas um dia há-de acabar
esta solidão este vazio
quando o céu desabar
e o corpo me negar o frio

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Fotografia: Jorge Muchagato

 

 

fado para o Fado Vitória

 

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trago no peito um poço
uma árvore ao invés
de raiz voltada ao sol
são as veias de um destroço
o dia morto das marés
no centro do girassol

eus de mim noite quebrada
rubro vinho sombra nua
do meu coração perdido
dobro o mundo na enseada
que verte o sangue à lua
daquele troço esquecido

sem deuses nem razão
sem saudades nem aquém
que me redimam o passado
nesse fundo onde não há fundo
há uma terra de ninguém
feita de rosas sangue e fado

*

Fotografia: guitarra, 2010.

fado para o Fado Cravo

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era o sol cego do meio-dia
e nas minhas mãos mordia
o cão vadio da tua ausência.
rasgam as mãos esses dentes
e fora das veias dormentes
a noite ensopa a minha carência

era a lua naquele céu falso
e o frio da noite o cadafalso,
a faca no coração gelado.
eu queria só o teu rosto
o fogo do meu desgosto
nos contrários do fado

era uma estrela sozinha
contra o sol, uma luzinha,
firme na poeira do universo.
falta desse amor agora
a face destruída da demora
o tempo caído e disperso.

 

*

Fotografia: Guitarra portuguesa, Jorge Muchagato, Agosto de 2010.