patologia do acaso, diário, 78

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Fotografia: Jorge Muchagato, 25 de Março de 2018

 

2018, Março, 25. A história está repleta de acções cujos objectivos reais não correspondem, necessariamente, às suas razões nem aos seus princípios, seja pelo tempo que se interpõe entre o motivo assumido enquanto razão e o objectivo real, seja pela estratégia de espelhos e de reflexos que se joga, ensopada de intenções. O objectivo pode estar nos antípodas do motivo, ainda que não o negue ou o exclua. Existe aquilo que se pretende dizer e, por fim, aquilo que, de facto, se diz; e ainda o que se diz por omissão ou por excesso. É a dimensão, na aparência paradoxal, do trabalho do historiador (a escrita da história), que incide sobre o que nunca teve existência, quer dizer, rasto existencial, mas foi involuntariamente inscrito no que existiu.

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Da matéria do tempo

Melencolia I
Albrecht Dürer [1471-1528], Melencolia I, gravura, 24,5 x 19,2 cm., Londres, National Galery of Art.

 

Somos uma determinada existência nas qualidades da matéria do tempo. Em que matéria do tempo estão o ser e as coisas, as visíveis e as invisíveis, os vivos e os mortos, os vivos e a memória, é o que primeiro importa para um historiador, pois é da matéria do tempo que começa por fazer-se a cabeça das pessoas, e é em relação a essa complexa e labiríntica matéria do tempo, composta de concordâncias e oposições, coincidências e indiferenças, que o ser constrói a sua perspectiva, a favor ou contra essa mesma matéria num movimento contínuo. Não existem vidas paradas nem sociedades imóveis. O ser aceita o espelho ou quebra-o conforme a natureza da sua relação momentânea com a matéria do tempo sublunar e com um dado sobrenatural ou com, simplesmente, o vazio ou o nada. Em todo o caso, “existe” sempre um absoluto, positivo ou negativo, por presença ou por ausência. Porque o nosso primeiro princípio é uma interrogação sem resposta durante a maior parte do tempo que nos é dado; e então, tudo se estrutura a partir da nossa relação com a morte. A nossa relação com a vida é uma relação com a morte. Vivemos no dúbio precipício do absoluto e do nada. Por essa razão, só o amor é o valimento da pena. A arte é um dos mais sanguíneos modos de todas estas relações, assim como a escrita da história. A eternidade do fascínio que motivam deriva da obscuridade de onde nunca sairão. É a perspectiva que temos sobre as coisas que faz as coisas, ou seja, que confere às coisas uma visibilidade cognitiva. A educação torna-se, assim, na única possibilidade da sobrevivência desta totalidade. Sem educação não existimos; ninguém consegue existir por si o bastante e então outros forjarão essa existência. Um dos mais densos paradoxos do nosso tempo é, em termos da vida quotidiana e da sua relação com a informação funcional e com a película de cultura permitida, o avanço tecnológico e a inteligência artificial serem compatíveis com o regresso de pressupostos do «pensamento selvagem». A nossa descoincidência cultural com o tempo tecnológico, o tempo vigente, tornou-se mais profunda; a nossa relação com a história está em mudança e não conseguimos antever em que sentido, pois os sintomas do presente são demasiado perturbadores. Vivemos numa estrutura mental fragmentada a chegar ao fim há demasiado tempo.

O fascínio pela história pode ser resumido por uma curiosidade, por um gosto, quase inexplicáveis, pelo conhecimento do que ocorreu antes da nossa existência. Este sentido de um antes de nós é inato. Quando começamos a despertar para o entendimento da existência, compreendemos que somos detentores de um passado genético, de um passado de existências que culmina em nós – temos pais, avós, bisavós. Ainda que não saibamos o que é a história, ainda que sejamos incapazes de a definir, compreendemos que temos uma história e que ela se consuma, compreendemos que existe uma linhagem, um processo reprodutivo no espaço e no tempo. Encontramos fotografias dos nossos ascendentes, sentimos o desejo de saber a nossa história e esse movimento é o processo da construção da nossa identidade. Esse fascínio existe e manifesta-se sob formas diversas e mais ou menos comuns, dado que temos a consciência da nossa existência no tempo e no espaço; mas não é suficiente para que se compreenda e explicite o fascínio que a história exerce – é necessário que construamos, num movimento constante e destinado a jamais alcançar uma conclusão, ou a jamais chegar a um estádio final de definição, o nosso particular conceito de história. O fascínio pela história é um processo complexo, tão complexo como o fascínio que a condição humana exerce sobre o nosso entendimento. Esse fascínio não é universal e por isso a história não tem um método. A qualidade da aproximação à verdade histórica é proporcional ao conhecimento de si e dos outros e é esse conhecimento que permite a escolha da perspectiva mais adequada num dado momento. A escrita da história é um denso processo de conhecimento geral com vários pontos centrípetos de forças diferentes que a especialização pode facilitar mas limita profundamente. A questão não é a especialização, mas a perspectiva. Pois se «a vida, tal como a vivemos, não é um momento de repouso»*, porque haveria de o ser o fascínio e a escrita da história?

 

* Marguerite Yourcenar [1903-1987], O Tempo esse grande escultor, tradução de Helena Vaz da Silva, Lisboa, Difel, s.d. [1984], p. 13.

agora que a liberdade é o teu nome

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agora que a liberdade é o teu nome, e a terra o teu sangue
pelos séculos dos séculos, e o misógino, abrasado ferro do ódio lacerou
a pele da matéria do tempo, o teu nome grita a carne e a condição,
a fronteira entre a noite e as trevas, entre as estrelas e a morte;

grita o futuro dos indomáveis reflexos da luz nos teus olhos viva,
e inúmeras vidas, pesados e obscuros silêncios com muitos séculos ainda ontem,
regressam no teu nome dos confins da história e da injustiça, dos confins
de lábios secos do sal rombo da travessia, da sede e do suor

agora que a liberdade é o teu nome és tu a matéria do tempo, da terra,
da carne, do amor, da vida por haver – vive Marielle.

Quando as mulheres,

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Marguerite Duras, capa da edição portuguesa de L’Été 80, Paris, Les Éditions de Minuit, 1980. [O Verão 80, tradução de João Costa, Lisboa, Livros do Brasil, 1990, capa de A. Pedro.]

 

A funcionalidade ideológica e pedagógica dos dias internacionais disto e daquilo é a mesma que encontra sentido para a existência de mendigos à porta das igrejas, de pedintes à porta dos supermercados, de sem-abrigo, dormindo ou alcoolizados dentro de caixas de cartão ou de prostitutas na mais velha profissão do mundo por escolha ou por gosto. Existe sempre um motivo, deliberadamente procurado, para a desgraça alheia, uma escolha, um erro. Encontra-se sempre um juízo para os erros dos outros, mas não para a consciência própria. Os dias internacionais são uma questão de consciência, um intervalo breve e inócuo, para que a ordem do mundo permaneça inalterada. É assim, cá vamos; mas não vamos – a civilização ocidental mudou-se num paradoxo insanável: a evolução tecnológica começa a requerer uma regressão do humano e do cultural.

O que sempre dominará, e isso faz-nos chorar, é o inferno e a injustiça do mundo do trabalho. O inferno das fábricas, os rigores do desprezo, da injustiça do patronato, do seu horror, do horror do sistema capitalista, de toda a infelicidade que daí decorre, do direito dos ricos a dispor do proletariado e a fazer dele a própria razão do seu malogro e nunca do seu êxito. O mistério é a razão porque o proletariado aceita. [1]

 

O que verdadeiramente interessa é a história das mulheres e as que foram subjugadas ou morreram por terem «ousado sair e gritar» [2]. O que de facto interessa é onde está e como está, sem condescendências, essa história das mulheres, ontem e hoje; e onde estão hoje, as mulheres quando, de entre incontáveis exemplos, são pressionadas pelas entidades patronais para não engravidarem; nas entrevistas para a obtenção de “emprego” a pergunta amachuca-as à cabeça do processo.

E aquela frase dele [Lacan]: “Ela não deve saber que escreve o que escreve. Porque se perderia. E seria uma catástrofe.” Esssa frase tornou-se, para mim, como uma espécie de identidade de princípio, de um “direito a dizer” totalmente ignorado pelas mulheres. [3]

 

Os homens lutam, sob a pureza legitimadora da violência, contra o tempo, movidos pelo mítico desejo da conquista, em todos os rituais possíveis da força; terra, rotas, dinheiro, objectos de toda a forma que cumpram o rito.

Quando as mulheres se decidem pela luta visível, é a pergunta que as move no querer saber: das razões, da violência, da conquista, da arbitrariedade, da condenação. Porquê? Perguntar é aguentar a solidão e as intempéries dos atalhos.

Quando são as mulheres a lutar, o tempo não é uma questão, nem um problema, muito menos uma circunstância – é um caminho, que é o que a vida é. Os homens lutam contra o tempo, contra si mesmos, até que cheguem e assinalem a conquista – quando perdem, regressam ao princípio e repetem; as mulheres lutam contra a morte, por si mesmas, até que alcancem, sem volta. Talvez por esta razão, não há quem possa afirmar se a Detective Chief Inspector Vera Stanhope, da série de televisão britânica Vera, criada pela escritora Ann Cleeves [n.1954] e interpretada pela actriz Brenda Blethyn [n.1946], é uma mulher feliz ou infeliz. Não é possível dizê-lo, nem quando a sua solidão preenche toda a imagem no ecrã.

 

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Brenda Blethyn como Vera Stanhope, por Helen Turton / The Telegraph

 

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Marguerite Duras, A Dor, tradução de Teresa Coelho, Lisboa, Difel, s.d. [Edição original: La Douleur, Paris, P.O.L. Éditeur, 1985.]

Apontamentos do caderno, 1: A Era da Invisibilidade

1.

Vislumbra-se pouco céu da janela da sala onde trabalho. Os prédios em redor são todos erguidos numa arquitectura inócua e feia, resumida à única justificação de quatro paredes, um tecto, uma ou duas janelas. As ruínas de pedra de uma casa térrea, com um vestígio de empena, conquistadas por uma vegetação bravia, constituem o único indício de vida sã neste pedaço de mundo urbano. Não me preocupa, isso; nesta casa tenho silêncio e utilizo as varandas e o terraço sobretudo para secar a roupa. A distância do mundo deixou de ser uma opção por qualquer motivo que se lhe arranjasse e mudou-se na única via de sanidade mental para não se acabar a vida alienado. Não gosto dos dias com esta feição, oprimem-me o peito e a cabeça, angustiam-me sem uma razão plausível, sinto-me como se estivesse, expectante, num limbo qualquer, onde não avanço nem recuo, apenas espero. O céu escuro e pesado alivia devagar, a chuva persiste, oiço apenas as goteiras e as levadas de vento mais ostensivas. Não chegam aqui os ruídos da cidade, apesar da proximidade de uma avenida principal. Tudo é silêncio e obscuridade, um pequeno rectângulo de janela, a luz irreal do candeeiro sobre um livro aberto. O dia descobre-se e torna quase brilhantes as bátegas da chuva que persistem no vidro ou escorrem por ele. Não gosto dos dias deste modo, quando a minha depressão interior se ajusta com a realidade natural do mundo; é a minha depressão interior que me salva, que me faz pensar e persistir, que me incita ao movimento e à raiva e ao desespero; da Natureza quero o esplendor da luz, a terra viva, o calor; o Inverno é-me quase insuportável, falta-me o ar perante e sob os elementos pesados. A minha tristeza basta-me e não quero que coincida com a da Natureza. A luz começa, enfim, a dispersar a cinza da atmosfera, e atenua a opressão que abriu o dia, é quase meio-dia.

2.

O que é uma ideia? A etimologia da palavra, eidos, continua a puxar até agora a Hélade: idea ou eidea – imagem, representação. Uma representação do espírito. Apesar de tudo o que nega essa evidência, é provável que a Humanidade atravesse a tragédia de uma imensa solidão, de um horroroso abandono, de um sanguíneo cepticismo em relação a si mesma; tudo isto, solidão, abandono, cepticismo, puxado ainda mais para o fundo pela agravante de um sentimento de deriva em face da caducidade de quase todos os conceitos tradicionais que eram próprios de um mundo em progresso e de uma ideia de história sem destino feito. Ninguém pode dizer que sabe para onde “vamos”, em que direcção nos “movimentamos” em termos de organização social, dado que a política tem já pouco maior significado do que um cenário de ópera medíocre. Suponho ser reduzido o peso da política em termos decisórios, ainda que sejamos manietados para pensar o contrário. O que é uma ideia? Qual a natureza do espaço que medeia entre uma ideia e um conceito? Porque se arroteia até à desertificação a esplendorosa vida dos significados? A quem fica defender o reduto ebuliente dos significados? Se a ideia é um relâmpago que nos fascina, não devíamos atemorizar-nos com a energia criadora que daí resulta. Não é todavia essa força que nos atemoriza, mas a sua degolação e, sobretudo, de onde procede a decapitação. A escravidão da Humanidade não é hoje mais o medo, mas a invisibilidade. A Revolução Industrial primeiro, os nacionalismos depois, precisaram de uma Escola disciplinadora no sentido da utilidade; a gigantesca “massa” dos desapossados não podia permanecer inculta numa sociedade que carecia de mão-de-obra eficaz para as especializações que ia conquistando, para o progresso, em suma. A “Revolução” Tecnológica-Financeira é ela própria a nova Escola e a sua sobrevivência está dependente da destruição da Escola (chamemos-lhe assim) clássica. A tecnologia começa a ser incompatível com o espírito e as Humanidades estão destinadas à destruição. Esta ideia parece ter sido interiorizada pelas próprias Ciências Humanas: o panorama editorial confirma-o. Existe só um problema – a morte; e só um conceito – a história. Tudo o mais deriva daquele problema e desta irreversibilidade, dado que são indestrutíveis apesar de não serem eternos. Na verdade, não sabemos o que é a eternidade. Se o problema da morte e a conceptualização da história estão no fundamento da maior parte das convenções, entre as quais a historiográfica, um e outra podem também aboli-las primeiro e reescrevê-las depois. Tal inovação é impossível sem a crítica. Paradoxalmente, vivemos tempos difíceis para proceder a essa imprescindível renovação, pois o fomentado e evidente retrocesso cultural força-nos a dialogar com fantasmas mandatados e, muito provavelmente, a sermos por eles vencidos. Não é a imagem que nos salva, mas a palavra: às imagens e a nós.

3.

«O homem, como ser que conhece, tem também de distinguir entre diferentes mundos, pois o conhecimento torna-se possível unicamente pela oposição.» –– Friedrich Hölderlin [1770-1843], Fragmentos de Píndaro, tradução, notas e posfácio de Bruno C. Duarte, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010, p. 25.

4.

Não existe um homem “eterno”, nem a história se repete, seja qual for o argumento apresentado para tal ideia que retorna no caleidoscópio dos medos contemporâneos. Mas existe um passado e uma memória. Não é possível recuar daqui para o passado, nem trazer o passado para aqui, seja de que modo for; a arte passou já por essa fantasia, por esse delírio; e a política. Para além disto, vivemos a expectativa da existência de um futuro em acordo com a verosimilhança temporal que conhecemos. A Humanidade e a sua vida podem apresentar semelhanças em diversos tempos da sua história, mas não permanecem iguais nem seriam iguais ainda que o desejassem (como já desejaram). A história desconhece o mesmo e o se; e assim a vida. Vivemos num tempo que se move, com uma violência de Janus, à força e ao ritmo de paradoxos e repleto de falsos e frágeis axiomas cuja decifração a morte lenta dos significados vai fazendo recuar. A realidade que antevemos e sobre a qual especulamos, como se estivéssemos dentro de um quarto de brincar, já existe, vivemos nela. A distância que julgamos separar-nos dessa realidade é a ficção com que somos enganados; a verdade tornou-se invisível e por conseguinte indecifrável. No entrementes desta pós-verdade, empurram-nos. Os media e as redes sociais tornaram as pessoas invisíveis, mas as pessoas estão convencidas do contrário. Não é suficiente entrar e utilizar; é necessário saber porque se entra e como se utiliza. Sem saber fazer perguntas, resta o simples e terrível funcionamento das “coisas”, uma escravidão dissimulada, a um tempo passível de ser aceite e oficialmente negada. Não é por nos ser dado a ver que necessariamente sabemos ver melhor.

5.

Os nossos actuais pressupostos civilizacionais são muito recentes, têm um século e erguem-se de uma hecatombe a um tempo anacrónica e catártica, a Primeira Guerra Mundial. Três acontecimentos marcaram já, primeiro, o início da caducidade desses pressupostos e, depois, a irreversibilidade de uma era de transição em direcção a uma ordem mundial financeira, social e política, que desconhecemos, bem definida nas suas orientações fundamentais. A história não se evola segundo a vontade dos poderes e a memória e os paradigmas, e assim os mitos, começam a fenecer pela morte geracional. Não temos tempo, somos empurrados quase constantemente. Os modelos tradicionais da revolução deixaram de ser viáveis e para os novos possíveis não existem nem força nem conhecimento bastantes. Esses três acontecimentos-fronteira foram o acidente nuclear de Chernobyl, na noite de 25 para 26 de Abril de 1986, a Queda do Muro de Berlim, em 9 de Novembro de 1989 e o colapso da união Soviética (1990-1991), e o atentado aos Estados Unidos da América em 11 de Setembro de 2001. A sociedade humana do futuro vai definir-se por uma questão ordenadora e definitiva: a genética. Para se alcançar esse Estado Genético é necessária uma Era da Invisibilidade. É onde estamos.

 

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Jorge Muchagato, 23 de Janeiro de 2018

 

O Mal e os sintomas da história

A ideia da existência de um homem “eterno” ou de uma condição humana definida, “aprisionada” nas suas qualidades, quase imutável na sua natureza fundamental, com uma espécie de existência supratemporal, não existe, é uma falácia em determinadas circunstâncias favorável a objectivos de ordem diversa, mas ineficaz. Esta ideia retorna, sobrevive, apenas, na insanidade da vozearia. Se não existe um homem “eterno” não pode existir uma história que se repita, pois não existe uma equivalência entre desigualdades. Tudo isto, no entanto, o mito supera, e assim os povos, as comunidades, carecem do paradigma mitológico, único ou disperso, explícito e ritualizado, ou implícito e fervente na subconsciência, da perfeição protectora, imutável e sempre presente. É bem verdade, como diz o Kyo de Malraux, que acabamos semelhantes à nossa dor; mas sem que consigamos decifrar a resposta à pergunta «O que o faz sofrer?» Uma ténue tentativa seria já bastante; um diafragma a inchar-se de decisão. [ Respira, mas não penses, quer dizer, não penses um enraizado pensar. ] Vivemos num tempo saturado de sintomas da história, mas ignorantes da sua natureza e das suas qualidades. A imagem é apenas o princípio de muitas outras coisas e em particular a constatação da fragmentação do tempo, de quase tudo vivente em fragmentos suficientes. É o que ouvimos com frequência, todavia a história não se repete e a informação não significa, necessariamente, conhecimento. Mas existe um passado e uma memória e o conhecimento é relacional, interdisciplinar, livre de fronteiras, e num dado estádio do caminho verifica a necessidade de ser indiferente a convenções, de ousar esventrar a tradição. Não é possível recuar daqui para o passado, nem trazer o passado para aqui. O aqui, apesar de ser o único existente carnal e sanguíneo, pensante, é demasiado fluido para tão desmesurada ambição, já o sabemos, pelo menos, desde Santo Agostinho. O caminho, portanto, é descendente, na direcção do subterrâneo e da obscuridade; caminho desconhecido, incerto, mas impossível de ser realizado sem o assoreamento que apenas a sabedoria vai construindo. Viramos o rosto às questões maiores, aos problemas verdadeiramente lancinantes; “conhecemo-los” dos filmes de arquivo que preenchem os documentários sobre as Guerras Mundiais. Agora, convivemos com a sua repetição, com a sua banalidade e com a sua lonjura. Mas a carne e o sangue são os mesmos, um século é um pedaço de tempo desmesuradamente pequeno. A morte está, por imagens e sons, tão próxima, que nos agarramos à fragilidade da distância para não sermos tomados pelo pânico, para não nos vermos ameaçados pela sombra antropomórfica da loucura, que sabemos dentro de nós, desde que principiamos a acordar para o ser e o agir. Não é mais possível uma outra Guerra Mundial, a própria terminologia logo a desmente – estamos na fronteira final de uma dada existência e no limiar do desconhecido. “Estamos”, quer dizer: nós, os que sabemos apenas o que nos é consentido saber – meia dúzia de migalhas do pão amassado pelo Diabo. A história não se repete nem regressa, é uma vez só. Tudo é uma vez só; assim a guerra e o Mal. Talvez o problema centrípeto não seja quem somos, mas até onde somos, em que fronteira deixamos de nos reconhecer, apesar de o espelho não nos enganar. É verdade que verificamos semelhanças, mas essas semelhanças, sejam elas quais forem, não coincidem com aceitável exactidão. «Qual é a minha experiência de vida? Nenhuma. Qual é a lei que extrais da vida? Nenhuma. Só o espanto. Só uma coisa cada vez maior, sempre assumindo maiores proporções, que sinto desabar no silêncio, mais doirada e frenética que o sonho. Tudo se reduz a coisas a que damos valor, e a coisas a que não damos valor. E entretanto ao nosso lado passa o tropel mágico, desesperado e caótico. Ali fora desabam os séculos e a torrente misteriosa que leva consigo estrelas em vez de calhaus. O jacto de portento vem do infinito e caminha para o infinito, levando consigo a alma, o universo, o lógico e o ilógico, o absurdo e Deus. Atrás deste assombro há outro assombro – e depois outro assombro ainda.» Já não podemos escrever, como Raul Brandão, que «ali fora desabam os séculos» – estamos dentro da «torrente» e essa torrente não se afigura tão misteriosa como nos é oferecido que “pensemos”. Em todo o caso, a questão maior persiste intacta desde um mais ou menos localizável princípio: a morte, e por inerência os balanços do Mal. «O problema capital da vida é o problema da morte. Ele resolve tudo. Não há factos isolados; não há acontecimento no universo que não gere outro acontecimento. O inconsciente não pode criar o consciente. É impossível dar um passo a que não suceda outro passo. A vida gera a morte – a morte gera a vida. Mas que vida?» Vivemos a expectativa da existência de um futuro segundo a verosimilhança temporal e a esperança de despertarmos a cada dia do sono. Pode encontrar-se, na humanidade e na sua vida, semelhanças pontuais em diversos tempos da história, mas não existe o mesmo, ainda que esse mesmo possa ser desejado.

Vivemos num tempo que se move à força e ao ritmo de paradoxos e repleto de falsos e frágeis axiomas. A realidade que ingenuamente antevemos e sobre a qual especulamos com inocência está em curso, vivemos nela. A distância que julgamos separar-nos dessa realidade é a ficção com que somos enganados; a verdade tornou-se invisível e por conseguinte indecifrável. Sobra o simples e terrível funcionamento das “coisas”, ou seja, uma “escravidão” dissimulada, a um tempo passível de ser aceite e oficialmente negada. Vivemos no umbral de uma forma invisível de fascismo; no entanto, não é o fascismo que regressa mas o Mal sob uma nova forma. É por isso que nunca se sabe, e enquanto não sabemos, empurram-nos.

*

André MALRAUX [1901-1976], A Condição Humana, [1933], tradução e prefácio de Jorge de Sena [1919-1978], Lisboa, Livros do Brasil, s.d., p. 39.

Raul BRANDÃO [1867-1930], Húmus, edição de maria João Reynaud, «Obras Clássicas da Literatura Portuguesa Séc. XX, 128», Obras Completas, vol. X, Lisboa, Relógio d’Água, 2015, pp. 94-95. Edição de referência: Húmus, Paris-Lisboa, Livrarias Ailluad & Bertrand, s.d. [1926].

 

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Jorge Muchagato, 21 de Fevereiro de 2018

1945, Janeiro, 27: Auschwitz

Janeiro, 27: International Holocaust Remembrance Day

«Todos descobrem, mais tarde ou mais cedo na vida, que a felicidade perfeita não é realizável, mas poucos se detêm a pensar na consideração oposta: que também uma infelicidade perfeita é, igualmente, não realizável. Os momentos que se opõem à realização de ambos os estados-limites são da mesma natureza: derivam da nossa condição humana, que é inimiga de tudo o que é infinito.»

«Se fôssemos capazes de raciocinar, deveríamos resignar-nos a esta evidência, de que o nosso destino é perfeitamente impossível de conhecer, de que qualquer conjectura é arbitrária e perfeitamente carente de qualquer fundamento real. Mas os homens só muito raramente são capazes de raciocinar, quando o que está em jogo é o seu próprio destino; preferem em todos os casos as posições extremas; por isso, conforme os seus caracteres, entre nós uns convenceram-se imediatamente de que tudo está perdido, que aqui não é possível viver e que o fim é inevitável e próximo; outros convenceram-se de que, apesar da extrema dureza da vida que nos espera, a salvação é provável e não está longe e, se tivermos fé e força, voltaremos a ver as nossas casas e as pessoas amadas. As duas classes, dos pessimistas e dos optimistas, não são porém tão distintas: não porque os agnósticos sejam muitos, mas porque a maioria, sem memória nem coerência, oscila entre as duas posições-limites, conforme o interlocutor e o momento.
Toquei o fundo. Apagar o passado e o futuro aprende-se muito rapidamente, se a necessidade empurra. Passados quinze dias da chegada, já sofro da fome regulamentar, a fome crónica desconhecida dos homens livres, que provoca sonhos de noite e se espalha em todos os membros dos nossos corpos; já aprendi a não me deixar roubar, pelo contrário, se encontro algures uma colher, um cordel, um botão que possa apanhar sem perigo de punição, ponho-os no bolso e passo a considerá-los meus de pleno direito. Já apareceram, na sola dos meus pés, as chagas que não saram. Empurro vagões, trabalho com a pá, canso-me à chuva, tremo ao vento; até o meu próprio corpo já não me pertence: tenho o ventre inchado e os membros emagrecidos, o rosto inchado de manhã e encovado à noite; alguns entre nós têm a pele amarela, outros cinzenta; quando ficamos sem nos ver por três ou quatro dias, temos dificuldade em reconhecer-nos.
Tínhamos decidido encontrar-nos, os italianos, todos os domingos à noite num canto do Lager; mas desistimos imediatamente, porque era demasiado triste voltarmos a encontrar-nos cada vez menos numerosos, mais deformados, mais macilentos. E era tão cansativo dar aqueles poucos passos; e, para além disso, reencontrar-nos significaria recordar e pensar, e era melhor não o fazer.»

«Então pela primeira vez nos apercebemos de que a nossa língua carece de palavras para exprimir esta ofensa, a destruição de um homem. Num ápice, com uma intuição quase profética, a realidade revelou-se-nos: chegámos ao fundo. Mais para baixo do que isto, não se pode ir: não há nem se pode imaginar condição humana mais miserável. Já nada nos pertence: tiraram-nos a roupa, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão, e se nos escutassem, não nos perceberiam. Tirar-nos-ão também o nome: se quisermos conservá-lo, teremos de encontrar dentro de nós a força para o fazer, fazer com que, por trás do nome, algo de nós, de nós tal como éramos, ainda sobreviva.»

Primo Levi, Se Isto é um Homem, tradução de Simonetta Cabrita Neto, Lisboa, Teorema, s.d. [2001], pp. 15, 35-36 e 25-26, respectivamente.

 

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«Former prisoners of the “little camp” in Buchenwald», H. Miller / Getty Images.

patologia do acaso, diário, 68: Imagem, espelho e arte

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Jan van Eyck [activo em 1422 – m. 1441], Portrait of Giovanni (?) Arnolfini and his wife [pormenor], 1434, óleo sobre madeira de carvalho, 82,2 x 60 cm. Londres, The National Gallery.

patologia do acaso, diário, 68. 2018, Janeiro, 15. Imagem, espelho e arte. A produção de objectos a que hoje chamamos artísticos e, por consequência, entendemos sob o conceito moderno de arte (mesmo quando não eram, efectivamente, arte, mas imagem e espelho) é, na civilização ocidental judaico-cristã, uma questão que se localiza entre a moral e a beleza. Por conseguinte, o historiador não a poderá compreender fora da cultura, ou seja, fora da filosofia e da literatura, considerando que a filosofia foi durante séculos de natureza teológica. O deleite, ténue e subjectivo, procura na arte as “características” formais num esquema diacrónico; o conhecimento procura-lhe o invisível a partir de um imponderado que toda a forma de arte é incapaz de domesticar, porque o que se deseja que fique é motivado por uma funcionalidade intencional repleta de testemunhos do inconsciente. A palavra «arte» não é um conceito adquirido; logo, não o deve ser também o método.

patologia do acaso, diário, 67: Invisibilidade e paradoxo

patologia do acaso, diário, 67
2018, Janeiro, 15. Invisibilidade e paradoxo.

«Porque eu não vejo a nossa memória como um elemento que, por acaso, conserva isto e perde aquilo, mas antes como uma faculdade que sabiamente organiza e exclui.»
Stefan Zweig, O Mundo de Ontem, tradução de Gabriela Fragoso, 2.ª edição, Lisboa, Assírio & Alvim, 2014, pp. 17.

 

 

A simplicidade da afirmação de Stefan Zweig é aparente – o seu enunciado pressupõe uma acentuada complexidade anterior. Antes de poder vir a ser uma das testemunhas do seu tempo, o historiador é o seu próprio tempo, nele se construiu, nele vive. Para além das épocas da sua “especialidade”, um historiador deve interessar-se pelo seu tempo; pensar e decifrar a existência comum onde vive; tarefa difícil, dado que sujeita às idiossincrasias próprias de um ser no tempo e no espaço.

 

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Soldados da Infantaria britânica na Batalha do Somme (1 de Julho a 18 de Novembro de 1916). Fototeca Storica Nazionale.

 

O século XX começou em 1914-1918 com a Primeira Guerra Mundial, que o historiador Eric Hobsbwm [1917-2012] definiu «por várias razões o início do afundamento na barbárie» e que, a partir daí «habituámo-nos a matar», «os sacrifícios desmedidos que os governos impuseram aos seus próprios soldados ao empurra-los para os holocaustos de Verdun e de Ypres instauraram um precedente sinistro, quanto mais não seja por estipularem chacinas ainda mais sem limites sobre o inimigo» e «a própria ideia de uma guerra de mobilização nacional total destruiu o eixo que definia a guerra civilizada, ou seja, a distinção entre combatentes e não-combatentes» *. A Primeira Guerra Mundial foi um acontecimento sem retorno – «talvez devêssemos perguntar-nos por que motivo a civilização do século XIX não pôde recompor-se a seguir à Primeira Grande Guerra, ao contrário do que foram as expectativas de muitos. Mas o certo é que não se recompôs. Começara uma época de catástrofes: guerras seguidas de revoluções sociais, queda de impérios, colapso da economia mundial à escala mundial, recuo ininterrupto das formas de governo constitucionais e democráticas, ascensão do fascismo e do nazismo».

O século XX, iniciado com a morte industrializada – e sob ideações onde ainda vigorava a memória do último conflito europeu, a guerra franco-alemã de 1870 – e a revolução (Rússia, 1917), terminou em 1989-1990 com a queda do Muro de Berlim, a desagregação da União Soviética e a reunificação da Alemanha. Seguiu-se um interregno de dez anos que correspondeu a um período de indecisão entre o “clássico” do século precedente e o “invisível” do que não se sabia mas se aguardava. Entretanto, a China torna-se uma potência capitalista sem abdicar do ideário comunista. O século XXI começou com o 11 de Setembro de 2001 e as suas consequências. Hoje parece “evidente” que a Humanidade não se destruirá – quer dizer, passará a um novo estádio da sua existência – pela guerra geral, mas pelo veneno, por várias formas de veneno – do ar que respiramos ao conteúdo do que pensamos. Vivemos, assim, numa Era da Invisibilidade – dos poderes, dos cidadãos, das pessoas. O corrente estádio da Humanidade é um paradoxo.

 

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Tropas portuguesas partem para a frente de guerra, na Flandres. Joshua Benoliel [1873-1932], Arquivo Municipal de Lisboa.

Uma das perspectivas vividas sobre a civilização que ruiu em 1914-1918 pode ser encontrada no conhecido livro de Stefan Zweig, O Mundo de Ontem: «Quando tento encontrar uma fórmula prática que descreva a época na qual cresci, a época que antecedeu a Primeira Guerra Mundial, penso ter encontrado a mais precisa se disser: foi o período áureo da segurança. […]. Ninguém acreditava em guerras, em revoluções e subversões. Todo o radicalismo, toda a violência pareciam não ser já possíveis numa época de razão. Este sentimento de segurança era o tesouro mais desejado por milhões de pessoas, o ideal de vida comum. Só com esta segurança se podia considerar a vida digna de ser vivida, e círculos cada vez mais amplos ambicionavam participar desse precioso bem.»**

 

* Eric Hobsbawm, «Barbárie: Guia de Instruções» [1994], in Escritos Sobre a História, tradução de Miguel Serras Pereira, Lisboa, Relógio d’Água, 2010, pp. 232 e 235.

** Stefan Zweig [1881-1942], O Mundo de Ontem. Recordações de um Europeu, tradução de Gabriela Fragoso, 2.ª edição, Lisboa, Assírio & Alvim, 2014, pp. 18-19.

Um apontamento sobre o invisível

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Painéis de São Vicente, cerca de 1460-1470, Nuno Gonçalves (activo entre 1450 e 1491), óleo e têmpera (?) sobre madeira de carvalho, 207,2 x 64,2 cm; 207 x 60 cm; 206,4 x 128 cm; 206,6 x 60,4 cm; 206,5 x 63,1 cm, Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga (Inv.: 1361 Pint), proveniente do Paço de São Vicente de Fora, Lisboa, 1913. Imagem: Museu Nacional de Arte Antiga.

 

[Somos uma questão sangrante com o invisível – é questão diferente, a do sobrenatural; mais longínqua ainda a do religioso. O excesso, sublime ou grotesco, a essa questão nos puxa, como o silêncio vulgar da noite que, incessante, nos reenvia o ser em indagação, perguntas obsessivas que têm apenas respostas benevolentes mais ou menos fundamentadas e em constante transformação; somos o que vamos sendo e todavia desejamos fixar-nos, marcar o que não podemos suspender. Vamos simulando respostas benevolentes na Natureza – o mar, o céu, as cores das estações do ano, as árvores, os rios, as montanhas, as praias, a luz, o falso movimento do Sol. Na arte.]

A questão da história dos objectos tidos como arte, no seu tempo original, num tempo posterior ou hoje, é, decerto, o de uma determinada importância simbólica e material que lhe é conferida de acordo com funcionalidades diversas – políticas, sociais, religiosas, pedagógicas, porém, sempre culturais – com densidades variáveis, concomitantes ou descoincidentes, concordantes ou opostas que agrega: um pensamento que existe antes da chegada à imagem, que considera vital a sua transfiguração em imagem, e os horizontes de chegada que a imagem, efectiva ou potencialmente, comporta em si. Ora, se as imagens são pensadas, não podem deixar de ser vividas, pois uma das qualidades mais fortes e determinantes do humano é a memória; e a memória (o seu motivo, a sua narratividade) existe e determina a partir das qualidades da psychē, palavra grega que significa respiração, sopro, alento, ou seja, o ser. Mas o ser qualifica-se por ter uma vida e por estar, por sua vez, determinado por uma essência que é simultaneamente a sua consciência de fim: o saber a morte. Assim, e porque a produção de imagens e de objectos tidos como arte é realizada no tempo e nas suas particularidades (nem sempre progressivas), corresponde a desejos e a objectivos diversos que vão da política à pedagogia. Essa produção corresponde a uma vontade sobre a morte e, igualmente, a uma vontade disciplinadora dentro de uma dada visão do Mundo, da Natureza e do Humano. A arte é em primeira instância um acto do pensar destinado à visibilidade e à legibilidade segundo as condições da matéria, num contexto de forças concordantes ou discordantes, agregadoras ou estilhaçantes, que se manifestam e se medem entre o individual e o social. A arte questiona-nos acerca de um invisível que determina toda a existência; e a natureza desse invisível pode ser indomável quando advém do universo onírico. Se toda a história começa por ser uma história do visível – o testemunho, o vestígio – a sua razão mais profunda é “tocar” a história do invisível que motiva a lágrima e a guerra, o amor e o ódio, o bem e o mal, a felicidade e o infortúnio, fundamentada sobre conceitos, sistemas mentais, códigos emocionais, e as imagens e as palavras ocultam intenções. A escrita da história é vida vivida.

 

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O Inferno, cerca de 1505-1530, mestre português desconhecido, óleo sobre madeira de carvalho, 119 x 217,5 cm, Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga (Inv.: 432 Pint), proveniente de convento extinto em 1834.