As palavras na rede

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A rede social mais famosa, não sendo, em termos objectuais, uma realidade real, é uma dada realidade onde interagem reais de diversa natureza, alguns dos quais profundos, que advindos do inconsciente transfiguram os seus utilizadores, com maior ou menor continuidade temporal, com maiores ou menores consequências, em Ícaros e Sísifos de, ao fim e ao cabo, realidade nenhuma que não seja a das suas próprias realidades psíquicas. Existe, portanto, uma dada mundividência povoada até à exaustão por projecções onde a realidade real é aferida, confirmada, contrariada, posta à prova e, por fim, reconstruída, tanto no sentido da verdade como no sentido da mentira ou da efabulação; e tudo mediado, em simultâneo, pela segurança que a distância preserva, mas também pela ousadia e pelo risco inconsequentes que outros suportes de tipo objectivo tenderiam a refrear. De facto, um dos aspectos mais interessantes que resulta da observação desta rede social é o de verificar que as pessoas dizem verdades, veladas ou peremptórias, elucidativas ou insultuosas, que nunca teriam a coragem de proferir diante da presença física do outro e quando se apercebem das consequências dessa selvajaria, censurada, ou pelo menos moderada, na vida social real e presencial, tornada corpo, apercebem-se também, demasiado tarde, do valor absoluto da palavra escrita; um valor absoluto que não está mediado e que é imediato. A rede “alimenta-se” da profundidade de paradoxos que a maior parte das pessoas não consegue gerir e nos quais incorre sem pensar, porque a indefinição ardilosa da rede instala-se dentro da cabeça, provavelmente quase desde o início da sua utilização. Assim, paradoxalmente, a rede social que pretende aproximar as pessoas, separa-as muitas vezes, sem remédio: por um lado, porque o conhecimento superficial dos significados das palavras gera equívocos com frequência insanáveis e, por outro lado, porque desocultando uma verdade verdadeira, gera inevitáveis decepções, seja nos conhecimentos comuns seja na relação projectada com os mais ou menos famosos de diversas áreas que cedem, no fundo – na rede, mas provavelmente não na vida real ou nas páginas de um livro – à possibilidade de uma fama imediatamente aferida, ou de pouco mais do que um exibicionismo que a popularidade fulgurante de seguidores acríticos desejosos de existirem perante os ídolos, legitima. Com efeito, a rede social não é um telefone, muito menos uma mesa de café ou de sala de jantar, e a palavra escrita está envolta num silêncio saturado de interpretações indomáveis. A palavra escrita, silenciosa e absoluta, ao contrário da palavra falada, que é coadjuvada pelo tom da voz, pela expressão do olhar ou pelo gesto, é irredutível ao recuo. Torna-se necessário compreender que a rede social é de facto uma rede, a um tempo figurada e objectiva, e que a rede ela própria não pressupõe, em relação aos seus utilizadores, a reciprocidade ou os seus cambiantes; pelo contrário: como todas redes, desde as redes fabricadas pelas aranhas até às redes de pesca, tudo aprisiona à excepção daqueles que as manejam, estejam eles na origem da rede ou nos seus sucedâneos. Não existe nesta rede social um meio-termo entre a palavra e o silêncio; ou é uma coisa ou é outra. A sensatez aconselha a que, não dominando adequadamente os significados da palavra, se opte pela prudência do silêncio. «Se não sabes o que vais fazer, é melhor estares quieto». Porque a força desmesurada que a rede social tem pressupõe, precisamente, que os seus utilizadores a esqueçam enquanto a utilizam; que os seus utilizadores caiam na armadilha e no engodo psíquicos do convencimento de estarem a escrever, de dentro da sua cabeça, para duas ou três pessoas, para um grupo restrito, quando, na realidade, estão a escrever para um número indeterminado de pessoas. O problema – que os utilizadores da rede a esqueçam enquanto a utilizam – conduz-nos ao princípio e à questão da verdade verdadeira desocultada. Daqui imagine, cada um, o que significa esta verdade e a sua consequência em termos de responsabilidade intelectual.

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Fotografia: Fevereiro de 2017.

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