A tecnologia das trevas

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Robert Mapplethorpe (1946-1989), Dennys, 1978

 

A realidade é hoje mais interiorizada do que vivida; exposto assim, ao arbítrio que em cada um vai da culpa ao desejo, da punição ao prazer, o interiorizado é, sem limites aparentes, idealizado, distorcido, informe ou disforme, grotesco ou sublime, abjecto ou belo, o nada ou o estético. A realidade assim não cai no precipício do risco; é mais fácil, mais segura, mais protegida, mais relevada. Na verdade, numa realidade sobretudo interiorizada, engana-se cada um a si mesmo conforme pode ou conforme alcança. Mas se se engana a si, ilude os outros, com intenção ou por omissão; se se engana assim, cega a verdade com o excesso ou a ausência de si mesmo. Sobretudo interiorizada, a realidade transformou-se num caos avesso a toda a forma de ordenação onde a verdade e a mentira se confundem sem confronto, sem luz nem sombra. É a benevolência do carcereiro, não a exigência do libertador; a mentira que se releva, a verdade que não se perdoa. Nada é o que é, tudo é uma utopia do avesso, que suga até ao fim e depois passa ao corpo seguinte. Vive-se na ilusão de um domínio da totalidade, mas tal poder, no mundo sublunar, não é possível. O tributo da totalidade é o caos. As trevas disseminam-se na ilusão, tal qual uma epidemia, e a ilusão confunde o saber com a ignorância numa contaminação recíproca e cíclica. Mas não vivemos, todavia, naquilo a que nos habituámos a designar, segundo os padrões conhecidos, ou seja, segundo os padrões do passado, uma «idade das trevas»; apesar dos mais nefastos revivalismos, apesar de toda a novidade que não passa de ideologias caducas ou de anacronismos regurgitados, tudo é hoje diferente do que alguma vez já foi. Interiorizámos as trevas e as suas diversas formas e o seu fundamento mais eficaz e manipulador: a culpa, a milenar e castradora culpa judaico-cristã. A ideologia cristã da história sustenta-se no providencialismo e no sentido deísta que nos transformou em escravos do destino espoliados da dignidade de Prometeu. Esta interiorização das trevas começa pela negação da própria humanidade, pela negação do corpo ele mesmo. Negar e punir o corpo é negar e punir a existência, expurgá-la da culpa induzida, o que significa, de imediato, negar, punir e, por fim, disciplinar a arte. Mas este nosso “existir” não equivale, no entanto e por paradoxal que pareça, ao fim seja do que for que nos tem vindo a transformar em viventes invisíveis; equivale à contaminação de tudo – o ser destrói-se no método insano de se tornar puro e esse método é o lugar da alienação. Trata-se de existir no consumo, de existir numa tolerância radical e anódina, numa indiferença suicidante. Ainda que tudo pareça indicar-nos o contrário, vivemos uma era da invisibilidade sob a égide da manipulação. A tecnologia das trevas é o caos de uma totalidade a que a cultura suficiente, aceitável e legitimada – que não deixa de ser uma das formas da ignorância – é incapaz de conferir qualquer sentido, porque ficou impotente para lhe dar uma ordenação capaz, ainda que parcial. Uma das evidências deste caos indomesticável é a escrita da história que regride, sob o jugo do sucesso comercial, à sua dimensão literária e diletante, numa equívoco nefasto com a prática jornalística. Não é já necessário queimar livros, basta torná-los ilegíveis para a inteligência.

 

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Os lobos iluminados

Respira-se e exala-se ansiedade, conformidade e sobretudo tristeza dissimulada, numa vivência semelhante à que é proporcionada pelas drogas e posologias antidepressivas: um corpo que se sabe angustiado mas que não sente essa própria angústia; uma tormenta adormecida, uma tempestade domesticada. Mas os tormentos adormecem quando encontram a sua resolução e as tempestades não passam senão depois de consumadas, depois de explodirem. Toda esta violência latente satura o ambiente concentracionário que se vive dentro de um centro comercial e de tal forma é densa que todos a ignoram, assim como ignoram ou esquecem a respectiva agressão. As crianças não conseguem o alheamento, a indiferença ou a resistência a este poderoso hipnotismo agressor. A arquitectura de um centro comercial é logo, nos seus alicerces funcionais, uma realização psicológica antes de ser uma empreitada material; arquitectura e decoração obedecem a padrões de envenenamento da vontade e, por consequência, de submissão, mas de uma benéfica submissão coroada e compensada pelo consumo até ao cêntimo. O ar parece adquirir a tensão extrema que antecede o estalo incerto e fulminante que percorre em desordem uma superfície de vidro resistente; o estilhaço imediato de um vidro de janela ou de uma superfície de porcelana; a poeira quase invisível que se liberta do barro partido. Essa tensão extrema nunca se concretiza nesta realidade artificial que é o interior, mais ou menos labiríntico, de um centro comercial. Quando as luzes se apagam, o silêncio que substitui a tensão psicológica habitada, assemelha-se ao silêncio devastador que cai sobre os despojos de uma guerra, onde ninguém morreu, mas a maior parte foi desapossada de dinheiro e de uma parte de si mesma; uma parte que diz respeito à autonomia da vontade, à liberdade de pensar, ao domínio das paixões. É a realidade dos lobos iluminados onde predomina a depredação que, protegida e defendida, faz exaurir a verdadeira realidade da vida vivida. Daqui, não se regressa para a realidade mas para a escola; se é assim, a escola é uma ilha defesa da realidade – tudo, enfim, como diz o anúncio luminoso de uma loja de roupa, está em concordância. Fora da realidade, a escola não pode ser o que mais ameaça o actual status quo extremo do capitalismo – a libertação pelo conhecimento.

 

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Fotografia: letreiro luminoso em montra de loja de roupa, Jorge Muchagato, 18 de Setembro de 2017

 

«Mas julgava ter já dedicado bastante tempo às línguas, assim como à leitura dos livros antigos, às suas histórias e fábulas. Pois é quase o mesmo conversar com as pessoas dos outros séculos como viajar. É bom saber alguma coisa dos costumes dos diversos povos, a fim de julgar mais rectamente os nossos, e para que não pensemos que tudo o que é contra as nossas modas é ridículo e contra a razão, assim como costumam fazer os que nada viram. Mas, quando se gasta demasiado tempo a viajar, acaba-se por ser estrangeiro no próprio país; e quando se é obsessivamente curioso das coisas que se faziam nos séculos passados, fica-se ordinariamente muito ignorante das que se praticam no presente. Além de que as fábulas fazem imaginar, como possíveis, muitos acontecimentos que o não são; e que até as histórias mais fiéis, embora não alterem nem aumentem o valor das coisas, para as tornar mais dignas de serem lidas, pelo menos omitem quase sempre as mais baixas e menos ilustres circunstâncias: donde resulta que o resto não pareça tal qual é, e que os que regulam os costumes pelos exemplos que delas tiram estão sujeitos a cair nas extravagâncias dos Paladinos dos nossos romances e a conceber projectos que excedem as suas forças.» – René Descartes (1596-1650), Discurso do Método, introdução e notas de Étienne Gilson, tradução de João Gama, Lisboa, Edições 70, 2016, pp. 12-13.

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, Agosto de 2017

 

Quando foi, onde foi, que no caminho nos esquecemos da importância de saber alguma coisa acerca dos outros, pessoas, comunidades, povos; que menosprezámos a sabedoria de nos criticarmos; que nos aproximámos de pessoas tão certas que nada viram; que nos deixámos dominar por falsas fábulas puras destituídas de toda a lição moral; quando foi, onde foi, que nos tornámos estrangeiros na nossa própria humanidade?

 

A questão sanguínea de uma Testemunha da Ignorância

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Todos os dias um historiador pensa na razão das coisas e no poder, elevado ou miserável, das paixões humanas, e a sua capacidade de decifração e de análise, mas também de crítica, deve incidir com a mesma gravidade sobre o tempo que já se consumou e sobre o tempo que ele próprio sente transcorrer. Estamos sempre em relação com o passado, e isto quer dizer que «sermos membros de qualquer comunidade humana significa situarmo-nos em relação ao seu passado, ainda que assumindo uma atitude de recusa. O passado é, portanto, uma dimensão permanente da consciência humana, uma componente obrigatória das instituições, valores e outros elementos constitutivos da sociedade humana» [1] e portanto, «paradoxalmente, o passado continua a ser a ferramenta analítica mais útil no que se refere ao confronto com a transformação constante, mas assumindo uma forma nova. O passado transforma-se na descoberta da história como um processo de mudança direccionada, um processo de desenvolvimento ou de evolução. A transformação torna-se assim a sua própria legitimação, mas fundando-se agora num “sentido do passado”, que se transforma também» [2]. A verdade não é um fruto fácil de alcançar nem de saborear – isto é uma realidade, tanto para a vida quotidiana como para a escrita da história. Esse fruto que é a verdade nunca será suficientemente doce nem suficientemente amargo; ou será, por outro lado, demasiado doce ou demasiado amargo. A história é, de alguma maneira, semelhante à morte: uma espécie de «presença ausente» [3]; conhecem-na todos e ninguém. E com efeito: «não existe indicador mais significativo do carácter duma sociedade do que o tipo de história que se escreve ou não se consegue escrever» [4]. A verdade tem uma espessura insuspeita e não se pensa nisso com a devida frequência, mas devíamos: a vida é claridade e sombra, exposição e ocultação – «toda a gente sabe que os seres humanos não actuam sempre, nem mesmo habitualmente, a partir de motivos perfeitamente conscientes ou em função de motivos que estejam dispostos a confessar; e estaremos certamente a funcionar com um olho intencionalmente fechado se excluirmos o estudo dos motivos inconscientes ou inconfessados. Contudo, segundo alguns, é isso o que os historiadores deveriam fazer e este é o centro da questão» [5]. Parece ser fácil, imediato, tudo se poder saber neste tempo triunfal da informação, mas isso é, em certa medida, ilusório – na realidade sabemos pouco (ou sabemos o consentido) e decidimos ainda menos. A velocidade com que a informação se propaga e é tida, quase indubitavelmente, como verdadeira é tão vertiginosa que a sua manipulação é um exercício demasiado fácil e por conseguinte absolutamente tentador; o seu poder é desmedido. Esta realidade deveria fazer-nos pensar nas fronteiras reais da democracia, porque com as suas fronteiras retóricas convivemos todos os dias. A educação é a raiz comum da civilização e da democracia; é a educação, cívica e escolar, que a cada dia constrói e apura o instrumento e o método mais eficazes contra a indiferença em relação à mediocridade, à ignorância e à legitimidade do mal menor que cauciona todas as ditaduras independentemente das suas formais mais ou menos “legais” e das suas densidades repressoras. Esse instrumento é a capacidade informada de opção; os motivos da aceitação, os motivos da recusa.

De certa “notícia” e respectivo “rodapé” televisivo que enunciava o «sangue comunista» de um político português, o mais que se pode dizer é que se trata da questão sanguínea de uma Testemunha da Ignorância. É bem verdade que a história não se repete – é uma impossibilidade, teórica e de facto; mas, como escreveu o historiador britânico Eric Hobsbawm, se destituirmos a história do seu sentido pedagógico, isto é, se considerarmos que a história nada nos ensina, é provável que soframos de algum desajustamento psíquico. Todavia, escreveu o mesmo historiador, «infelizmente, se alguma coisa a experiência histórica ensinou aos historiadores é que, aparentemente, com ela, nunca seja quem for aprende seja o que for. Mas temos o dever de continuar a tentar» [6].

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[1]. Eric Hobsbawm (1917-2012), Escritos sobre a História, tradução de Miguel Serras Pereira, Lisboa, Relógio d’Água, 2010, p. 9. [Edição original: On History, London, Weindenfeld & Nicolson, 1997. A edição portuguesa é uma antologia da edição original inglesa.]

[2]. Ibidem, p. 20.

[3]. Paul-Louis Landsberg (1901-1944), Ensaio sobre a experiência da morte, tradução de Alberto Nunes Sampaio, Lisboa, Hiena Editora, 1994, p. 19. [Essai sur l’expérience de la mort, 1937.]

[4]. Edward Hallet Carr (1892-1982), Que é a História? Palestras proferidas na Universidade de Cambridge Janeiro-Março de 1961, tradução de Ana Maria Prata Dias da Rocha, Lisboa, Publicações Gradiva, s.d. [1982], p. 37. [Edição original: What is History?, London, Curtis Brown, (196_).]

[5]. Ibidem, p. 41.

[6]. Eric Hobsbawm (1917-2012), Escritos sobre a História, p. 44.

A televisão: um problema mental

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Por detrás da fachada bem desenhada e construída da informação e da comunicação, a civilização regride; dentro desta contemporaneidade, as divisões que se encaixam, transposta a fachada, tornaram-se inabitáveis para a humanidade, espelham os extremos da loucura: imediata à aparência principal, ficam as divisões onde impera a assepsia e no tardoz, separadas por uma comunicação vigiada e exigente, as divisões da imundície. Aos assépticos se convence do seu poder, aos imundos, que estão limpos. Nem os primeiros têm poder, nem os segundos estão asseados, mas ambos estão convencidos de que os direitos fundamentais à dignidade da vida humana se alcançam a partir do consenso. Os direitos que garantem a liberdade e a dignidade e conferem o devido valor à verdade, nunca foram alcançados por requerimento ou por concessão; existem porque foram conquistados e pagos com o sangue de séculos; com a vida de muitos humilhados, torturados, estropiados. Os direitos são defendidos e mantêm-se naquilo que é a vanguarda da civilização: a educação e a consequente maioridade intelectual. É pela educação, menosprezada e reduzida a um negócio político ou monetário, e pela cultura, considerada um empecilho à funcionalidade do sucesso e às imagens vigentes do estatuto social, que a civilização agora regride, quando a maior parte das pessoas pensa que se está no ponto mais adiantado e feliz do progresso. Mas não é assim: para pensarem isso seria necessário que soubessem o que é e o que significa o progresso; o mundo mudou, mas não começou anteontem. O acesso à informação fidedigna e à cultura, é inútil se as pessoas desconhecem os caminhos que a elas conduzem; é o mesmo que enviar alguém à Torre do Tombo, confiado nas possibilidades da história que lá está guardada para ser conhecida: sem saber o que procura e desprovido do método adequado para encontrar o que pretende, pouco ou nada alcançará. Muitas pessoas vi perdidas na Torre do Tombo julgando ser fácil conseguir um registo de casamento ou de óbito, um registo de baptizado, que algum advogado lhes disse quase de certeza lá existir exarado em antigos registos paroquiais para resolver os violentos imbróglios que embalam partilhas familiares. Muitas idas se tornavam vãs por falta de referências fundamentais para localizar a pesquisa: uma data aproximada, um nome de freguesia, um apelido. Não basta a ilusória segurança da existência da informação e dos canais de comunicação; sem que se saiba decifrá-los, não se é, verdadeira e eficazmente, usufrutuário mas prisioneiro ou vítima. As pessoas concluem com demasiada facilidade que estão a ser informadas quando na realidade estão a ser manipuladas no sentido de uma impotência que requer a qualquer preço uma protecção por pior que ela seja, desde que seja segura. Seria necessário que averiguassem se estão efectivamente seguras e estando, do que se dão por seguras. Pois de nada podem dar-se por seguras; se tudo isto estoirar de uma vez por todas, o mais que lhes resta é conseguirem arranjar umas conservas e uns garrafões de água, levantarem algum dinheiro se o tiverem durante os prováveis minutos em que as caixas multibanco ainda funcionem, e terem a esperança de que seja rápido e com o menor sofrimento possível.

O que consideram as pessoas saber num tempo em que a televisão se tornou um problema público de saúde mental e a informação não existe? Terão as pessoas a noção de viverem rodeadas da mais pura propaganda, ainda que não vivam num Estado totalitário? Que essa propaganda particular oficiosa é perniciosa e violenta e inocula na maior parte das pessoas sentimentos de impotência, de insegurança, de frustração, de medo, no sentido de uma vivência quase paranóica que potencia a fragilidade e a dependência dos poderosos e dos trepadores quase-poderosos? Suponho ser provável que não saibam, pois a ideologia triunfantes do futebol, das religiões religiosas ou zen encarregam-se, a tempo, de decepar essa ousadia. A televisão é, desde que apareceu e depois se generalizou, o mais forte instrumento e meio de manipulação que os diversos poderes de imediato reconheceram e procuraram dominar. O menosprezo crescente pela educação e pela cultura foi erodindo a fronteira do pudor que ainda aceitava alguma função educativa e cultural, por muito mediana que fosse, para a televisão. Hoje, os canais generalistas têm futebol, desastres, facadas, homicídios, assaltos, acidentes de toda a espécie e quilate e até a meteorologia se tornou um sublime instrumento da catástrofe, desejada, expectável ou real; numa repetição nauseante. À celebrada sociedade do espectáculo acrescentou-se a insanidade mental institucionalizada sob o eufemismo alienador da informação, da comunicação e por fim da qualidade garantida por todos os selos possíveis, da crítica especializada – mas não é um especialista alguém que “tudo” conhece de um assunto e ignora tudo o mais, como o definiu Ambrose Bierce [1842-1914] no seu Dicionário do Diabo? – ao coach guru repleto de estrangeirismos zen, desde que visível na montra ou na hierarquia das vendas? Nesta sociedade histriónica em que vamos sobrevivendo, sob o recuo entrincheirado dos direitos sociais e laborais, existe um problema público de saúde mental no qual a televisão é uma das lobotomias praticadas.

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Fotografias: 24 de Abril de 2017

Na selva: 1. A tirania da anuência

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Vivemos na selva, espoliados do seu esplendor aberto ao conhecimento, desapossados do perigo e do terror natural da selva, do terror reflexo do que somos e a que viramos a face, espoliados do medo natural e necessário à sobrevivência e inoculados com um medo artificial que tolhe os passos quando não paralisa. Vivemos na selva esbulhados dela pela tirania da anuência ou pela imposição sem rosto de uma servidão intolerável e sem justificação plausível a um informe corporativo de «reprodutibilidade técnica» [1] de instintos e emoções, assente num altruísmo falso, enganador e sinuoso, que zela pelo nosso interesse, pelas nossas vantagens e, por fim, culminando o drama da existência quotidiana, pelo nosso lucro de coisa nenhuma. Esta tirania da anuência corresponde ao tributo indetectável que pagamos para que não nos matem – ainda que esse tributo nos envenene a existência – apesar do suicídio já cometido na ara do consumo mas por reconhecer, como se esta admissão fosse o descalabro de um último desespero onde guardamos o que resta da força anímica.

Vivemos na ignorância e na sua letargia de contrafacção, na sua alegria de contrafacção, no seu consolo de contrafacção, e aceitamos a mediocridade virando o rosto, recusando a cabeça sob a justificação pueril do coração, ao desejo da resistência na ilusão de que o acolhimento consolador da ignorância a que deve somar-se a indiferença, nos salva da densidade da respiração e a mediocridade sob a forma da literatura de cordel que afiança tudo se conseguir desde que nada se deseje, sob a forma dos concursos televisivos que sugam a esperança e a lucidez da auto-estima dos seus candidatos à fama, sob a forma da promoção violenta do que não se precisa, nos apazigua o espírito; mas a verdade não é outra senão a de sobrevivermos sem a dignidade do esforço e da persistência de uma luta empreendida na direcção da maioridade e da autonomia intelectual, do conhecimento de si e por consequência dos outros para que o conhecimento de si, que é também a sabedoria de saber sair de si, seja o mais justo possível; sem a dignidade da vitória única de se prosseguir no movimento incessante da vida e do pensamento depois da adversidade e do sofrimento dessa transposição, e damos por nós assim, mudados em pequenos ditadores amorais, no precipício desta degradante conclusão – a Humanidade dividida nas duas partes monstruosas da felicidade de contrafacção: o que eu quero e aquilo a que considero ter direito, e os outros, a mim vagamente semelhantes, que pressuponho nada quererem nem muito menos terem direitos. A qualidade da nossa existência, por via de quem somos e daquilo que realizamos, é também o lugar dos outros em nós. Fora deste pressupostos resumimo-nos a pequenos ditadores enfurecidos e cegos pela humilhação de um quotidiano feito de anuências e de contemporizações perante outros pequenos ditadores, localizados mais abaixo no índice da miséria geral, encavalitados nas estruturas de ferro iluminadas construídas pelos sub-ditadores dos verdadeiros ditadores que vivem dos frutos do desespero da soma de todas as anuências inferiores do mundo sublunar. E isto significa a perplexidade e o terror da constatação de nem no esplendor da selva natural virmos a conseguir ser humanos, quer dizer, sermos detentores de um conhecimento suficiente da Natureza e de nós próprios para não morrermos sozinhos nem nos matarmos uns aos outros. Porque tudo isto vigora no pântano da submissão à ideia de um mundo sacralizado que se traduz na menoridade do homem e, por consequência, das suas realizações não legitimadas pelo religioso, pelo político ou pelo gregário social. A escrita da História não deixará de se ressentir desta selva insonsa mas letal, definhando, não sem complexidades nem consciência, diluindo o secularmente legítimo lugar da erudição e da teoria da História, e transformando-se, para consumo insípido e informado o suficiente, num sintoma da História. Esta selva não está fora da História nem do seu discurso

As pessoas saturam as suas consciências e as alheias, nelas marcando a lembrança ocasional e dissolvida o bastante, com a palavra «democracia» mas não perdem, assim não descortinem a sombra da admoestação inevitável, todas as oportunidades que se lhes oferecerem para a pontapearem. Necessário é que ninguém tenha disso notícia ou seja testemunha. Esta realidade é hoje a regra onde ela melhor impera depois de legislada mais acima no papel, na anuência ou no conluio: o quotidiano dos invisíveis, onde a consideração pelo semelhante deveria ser uma escolha moral adveniente do carácter, da educação, inevitavelmente do conhecimento, e não uma imposição resultante da autoridade da lei, ou de uma outra qualquer forma de autoridade. Agir bem e essa acção justificar-se a si mesma. Ignora-se ou esquece-se, menospreza-se demasiadas vezes, a prudência devida ao uso da responsabilidade intelectual inseparável da responsabilidade deontológica e basta chegar-se à rede social para se compreender que essa realidade virtual é de facto uma rede onde de motu proprio se expõe a verdade que a cabeça censura ou oculta perante a densidade física dos outros. A labiríntica tragédia disto está na constatação de esta realidade já não se restringir por inteiro a uma questão moral que poderia ser esclarecida mas na constatação de se apresentar como um problema cultural, por consequência civilizacional, profundamente relacionado com uma realidade virtual – no ecrã e fora dele – que está a destruir, sem inocência mas com a bacia da água à frente das mãos, o valor inalienável da liberdade de escolha, das vontade própria e das relações inter-pessoais, nos diferentes tipos de família e na sociedade.

Na verdade, esta anuência negociada às tiranias, que não estabelecem para o jogo regras suficientemente claras e que saturam o quotidiano, significa também a espera necessária para a vez própria do pontapé na democracia e no lugar do outro no mundo. Estas tiranias que vivem, tranquilas, da anuência e da contemporização, todos os dias são bem pagas e não carecem de acentuadas teorizações intelectuais para serem desocultadas, senão das perguntas adequadas que revelam as paredes inexpugnáveis erguidas à mais elementar procura da informação fundamentada que transponha o gesto, real ou virtual, da indicação do lugar do consumo.

Come-se tudo, hoje, legitimado pelo selo vagamente garantido do bem-estar, confirmado por livros de moralidade pintalgados com cores de variadas ciências, e do hedonismo que consegue conviver com as notícias de uma escravidão real, com corpos, cabeças e nomes reais mas longínqua, que calça, veste e decora a civilização pela via cega da marca, do produto quase vivo e a falar à semelhança do famoso que o promove, que espreita a carência da identidade. Compra-se, então, o estatuto, o sucesso, o corpo e a pujança sexual de um famoso ou famosa, estabelecendo-se uma proximidade inexistente no movimento da inveja. Por fim, projecta-se esse desejo infantilizado no futuro dos filhos, cuja vida se procura orientar no sentido do estatuto, do sucesso, do corpo perfeito, «coisas» só possíveis ao lado de todas as actividades profissionais que brilham foram do pensamento, exiladas da vocação natural para a pergunta. A terra sombria e desordenada da cultura onde «o leite e o mel» estão destituídos de todo o simbolismo e valor porque a bênção legitimadora do sagrado religioso não reconhece a força criativa da desordem, da dúvida, do caos. É possível alcançar a vida eterna, mas. Mas perfilado na ordem que vigia a cabeça e sorri, benevolente, reclamando a sua parte, ao consumo falho de sentido. E anui-se, porque existe a porta salvadora, entreaberta dia e noite, de uma qualquer start-up que conduz ao convívio privilegiado com os lobos. Depois do tirocínio talvez se consiga ser um lobo entre os lobos de uma dada matilha.

Tudo acabará por desembocar numa pueril afirmação fotografada para a rede social preferida e, por fim, no lixo. Em todo o caso, fica feito o rito de passagem da visibilidade universal. A Black Friday, o Natal e os seus gigantescos monstros metálicos e eléctricos coroados por uma estrela contrária às que no Universo permitem que nos localizemos no mundo sublunar, que são cones e não árvores ainda que da forma destas se pudessem, pela arte, aproximar, não existem sem a alienação e são os «directores espirituais» – tudo isto está relacionado com uma funcionalidade sentimental e pedagógica de tipo religioso e com o lugar dos ídolos que as pessoas veneram desconhecendo que a natureza dos ídolos diz também respeito ao que eles reclamam – que desculpabilizam e abençoam a compra daquilo de que não se precisa, o gasto do dinheiro que não se possui, o suborno pelo afecto que chegou sob condição ou que nem sequer chegou. De permeio, alguma humanidade se perdeu neste caminho, mas em Janeiro do ano que virá, nas livrarias, a salvífica secção dos livros de «auto-ajuda» estará em reposição constante. Mas não pensa quem compra tais livros e neles busca um éden de sucesso e de abundância demasiado distante para os seus braços, para o seu looking, para a sua etiqueta, que a sua leitura está mediada pela lonjura do cheiro a refogado ou a fritos.

Afirmar que vivemos na decadência, mesmo considerando a tecnologia e as suas irrecusáveis vantagens, é pouco e não está próximo da verdade, pois seria necessário averiguar se o que hoje se entende por decadência corresponde aos conceitos e às imagens legados, sendo que estes conceitos e imagens provêem quase todos de impérios, de reinos, em suma, de formas de poder vigente. Conceitos, «coisas», em suma. Suponho que o conceito e a constatação de decadência foram deslocados da ordem política, social e económica – a cuja identidade o conceito já não interessa porque a sua sobrevivência não depende dele – para a cabeça. (A decadência do corpo é uma evidência irreprimível embora possa ser, por um tempo sem recompensa, domada.) Esta ordem social e política considera uma mulher ou um homem de quarenta anos como estando velhos para esse eufemismo que é a designação «mercado de trabalho». Um homem ou uma mulher nesta idade recebem, então, um convite hipócrita para o reino da esmola, para o império dos restos. Existe até agora um delirante conceito de «pós-verdade», como se tal coisa justificasse a pertinência de uma consciência para a mentira.

É provável que este conceito de «pós-verdade» se relacione com a mistificação da repetição da História tendo em conta os acontecimentos recentes, o estado do mundo. O entendimento da repetição da História pressupõe no seu movimento a existência de um sentido, mas este sentido da História carece do elevado sentido ordenador da Providência. Deus foi há muito destituído da posse da História. Esta civilização predispõe-se a devolver a Deus, contrita, essa tirania da anuência que menoriza humanidade e a sua história. A ideia da repetição da História é um erro de consequências devastadoras. A civilização não pode regressar a nenhum lugar do seu percurso anterior, ou nenhum desses lugares pode ser na subsequente consumação do tempo reproduzido. Aquilo a que vulgarmente se chama «a lição da História» pressupõe a natureza da sua escrita. Não devemos temer a repetição da História porque isso não é possível; devemos temer, e bastante, a ameaça do seu esquecimento ou, pior, a lâmina de uma segunda escrita que a deturpe e a falseie, e a mude naquilo em que os regimes centralistas, autoritários ou fascistas a metamorfosearam: numa doença. A doença da História é verosímil quando se vive na selva mas sem o esplendor da selva e se come a miséria geral no simulacro de se estar longe da miséria.

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[1]. Walter Benjamin, «A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica», in Idem, Sobre arte, técnica, linguagem e política, introdução de T. W. Adorno, traduções de Maria Luz Moita, Maria Amélia Cruz e Manuel Alberto, Lisboa, Relógio d’Água, 1992, pp. 71-113.

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Sequência dos textos Na selva: 2. A tirania da infância; 3. A tirania da fama; 4. A tirania da mediocridade; 5. A tirania da informação; 6. A tirania da mentira.

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Fotografia: Iluminação (pormenor) do Solstício de Inverno, vulgarmente chamado Natal, Dezembro de 2015.