O Ouro de Quíloa, primeiro dia

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[O Ouro de Quíloa é uma narrativa histórica escrita para ser lida por adolescentes e a sua acção decorre em torno da realização da célebre Custódia de Belém, peça de ourivesaria sacra, atribuída a Gil Vicente, e realizada, sob encomenda do rei D. Manuel I, com o primeiro ouro que veio da Índia. A Custódia de Belém pode ser vista no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. A primeira versão de O Ouro de Quíloa foi escrita para a infância, há quase vinte anos, e fez parte de um projecto editorial que reuniu vários autores, mas que não chegou a concretizar-se. Em 2014, em outro contexto, uma segunda versão da mesma história foi escrita para a adolescência. Os acontecimentos históricos são verídicos, assim como algumas das personagens mencionadas, bem como os lugares a que se alude; uma notícia final dará conta de tais diferenças entre a ficção e a realidade histórica. A história é composta pelos doze dias de escrita do narrador; doze capítulos sob a forma de dias. Esta é a versão mais recente.]

 

***

 

PRIMEIRO DIA

Um pouco mais e o céu desenrodilha-se em chuva, as nuvens cinzentas e violáceas que durante toda a tarde o acaso teceu e adensou formando uma tenda de bruma que ia atirando, com o lento passar das horas, a luz e o calor do sol de cada vez para mais longe, trazem trovoada. Em menino tinha medo da trovoada, ainda tenho, as mulheres rezavam a Santa Bárbara e eu tinha medo das duas coisas, da trovoada que me feria os sentidos e das rezas que me encolhiam; e por fim tinha medo do eco dos sinos das igrejas espalhadas pela cidade, gritos de aves malditas ou desesperadas que vagavam pelo céu como o vento pela crista das ondas do mar, desfazendo-as. Agora estou só. A trovoada desabará pois estamos na altura do ano em que isso acontece, é Novembro. O dia escureceu devagar, as últimas folhas amareladas e secas do Outono vagueiam pelas ruas e pelas praças numa dança bela e ameaçadora. Ao princípio, gotas breves mas fortes são atiradas pelo vento contra a vidraça, lembram-me pedras pequeninas, e depois os clarões da luz muito branca e intensa dos relâmpagos parecem amalgamar todas as casas da cidade num mar de claridade indistinto que se extingue com a mesma rapidez com que caiu do céu, sem adivinhança nem aviso. Os trovões são ainda um eco longínquo, mas em breve virão despenhar-se sobre o triste emaranhado de casas, ruas e largos da cidade. A par dos grandes palácios e igrejas, as casas comuns, no recorte das águas inclinadas dos telhados, nas suas janelas pequenas, parecem-me construções frágeis, abandonadas a uma magnitude divina e inimaginável. O mundo, nos seus dias concisos de Outono parece ficar assim, de súbito, à mercê da inclemência de um céu revolto pronto a ruir como o tecto podre de uma casa velha. A vida, os movimentos de todos os dias, correm indiferentes, mas agora, que a luz do dia esmaece, afiguram-se-me pequenos e delicados. Há uma grandeza maior, a grandeza do mundo e do céu, que tudo parece envolver, pessoas, casas, o ruído distante dos apitos das embarcações no rio, o grito agoirento das gaivotas em terra, como se estivesse prestes a decidir, sem razão alguma, o seu destino.

Deslizando lentamente pela superfície rugosa do vidro, as gotas da água da chuva depressa escorrem, aos meus olhos, como lágrimas. O vidro, grosso e imperfeito, deturpa os traços visíveis da realidade e muda em formas grotescas o desenho rígido das casas e das torres de igrejas e casas nobres.

A porta da casa de dentro rangeu. Não estava fechada no ferrolho e o vento que assobia sobre a cidade abriu-a, fazendo bailar para dentro de casa as folhas secas que rodopiavam na atmosfera densa e pesada. Quando fui fechar a porta da casa de dentro que dá para o quintal, vi os ramos desfolhados e hirtos das árvores a implorar a misericórdia do céu convulso, como se naquela imagem pudesse ler o destino que a própria Providência reserva para todas as coisas, sem excepção. Estamos sempre à beira do nada, viemos do pó de um barro divino e ao pó regressaremos.

Um fio de luz, frágil e fria, incide nos degraus da escada de madeira que conduz ao sobrado e revela uma pequena parcela irregular da parede caiada. Fechadas as portadas das janelas de cima, toda a casa fica submersa na sombra e os objectos, um a um, começam a ser engolidos pela noite.

Entretanto, o aguaceiro anunciado desabou. Embora estejamos quase no limite do Outono, a chuva faz diminuir um pouco o frio seco e cortante que nos contrai o rosto e inibe os movimentos. O ruído pesado dos trovões parece ecoar dentro do corpo, no peito, acelerando o bater do coração, e a luz fulminante dos relâmpagos surpreende o olhar aquietado ao interior obscuro da casa. Estou só.

Escurece devagar – é ainda pouco mais do que o meio da tarde, as trevas adiantaram-se, em muitas horas, ao sino do recolher, e as pessoas, imagino, correm algumas para a protecção das arcadas da Rua Nova dos Mercadores, mergulhadas na penumbra; outras correm para os arcos do Terreiro do Paço ou do Hospital de Todos-os-Santos no Rossio ou, ainda, para debaixo das sacadas das casas que se debruçam sobre as ruas. Correm e olhem, surpreendidas, o céu escurecido e impiedoso.

De imediato os seus passos rápidos e nervosos ficam marcados no chão lamacento das praças e das ruas. A chuva faz levantar o cheiro nauseabundo dos monturos encostados às muralhas e dos restos que cada dia foi acumulando em alguns becos e travessas onde raramente chega a luz do sol. Uma película transparente e esbranquiçada evola-se no ar, tem a delicadeza de um fumo breve que a chuva não consente que se dissolva na atmosfera. O chão das ruas, ensopado, transforma-se em lama que se pega aos passos e salpica as paredes caiadas das casas. A água escorre pelos veios da terra assim empapada.

A fraca luz que a janela deixa passar para dentro da casa onde estou a sós com a minha memória não é suficiente para que eu possa continuar a escrever. Uma candeia de azeite, que alumiei do fogo da lareira, lança agora a sua claridade amarelada e terna sobre estas palavras desenhadas e sobre o gesto repetido de mergulhar o aparo da pena no tinteiro.

Perdi-me a ver a chuva, sou muito velho.

A noite, enfim, assentou sobre a cidade e muitos halos de luz iguais vêem-se agora nas casas da parte baixa de Lisboa e da colina do Castelo. A luz das velas e das candeias de azeite transborda, amena, das janelas e ilumina também, um pouco, as ruas estreitas e irregulares que parecem ter crescido, ao longo dos séculos, segundo a vontade despreocupada de trilhos humanos. Pequenos halos de luz, minúsculos, que se adivinham e não conseguem vencer as trevas. Ninguém se deixou ficar pela rua com esta invernia, por isso a cidade caiu num silêncio falso apenas interrompido pelos sinos das igrejas que tocam, agora sim, a marcar a hora do recolher e pelo latido dos cães perdidos. Os relâmpagos foram eclodindo cada vez mais espaçadamente e os trovões parecem agora os tambores soturnos de um exército longínquo. A trovoada desfez-se à entrada da noite. Esta cidade, que foi o primeiro mundo aberto aos meus olhos curiosos está, pois, entre as oito e as nove da noite.

Esta é uma história longa de muitos anos e foi para a fixar em letra pelo meu punho que regressei à casa onde agora estou. Daqui para a frente estarei face a face com o meu passado, deambularei devagar perante as imagens hirtas, já consumadas, da minha memória e começarei o derradeiro caminho. Para mim, tudo o que pertence ao mundo foi deposto. Uma enorme batalha se decidiu já, tudo foi assente e engolido pela voragem implacável do tempo. Agora é o momento de abandonar o campo, alcançar a terra de ninguém e passar a fronteira do fim. Não estou propriamente no fim, eu sou o fim, espero que algum dia venhas a compreender o sentido disto que escrevo.

Esta casa, onde cheguei com uma intenção para partir com outra tão diferente, tão pouco adivinhada, mas até agora, no meu perfeito juízo, a mais certa, tem, como tudo o que habita o tempo, uma história; e um infalível segredo a cujo o âmago estas palavras me levarão daqui em diante. Estamos cercados pela história, nós próprios somos história, tempo que passa e vence, coisas que se acham e coisas que se perdem, sentimentos que nascem e sentimentos que vão morrendo. Em tudo isto, o que persiste de nós quando o silêncio toma conta do mundo? Só as flores do campo, que parecem estar no mundo desde que o mundo é mundo, é que não têm história e, mesmo assim, sabemos que isso é mentira. Porque gostamos nós de pensar assim, porque é que o pensarmos assim nos consola? Tudo nas flores se resume à beleza que nos chama, sem razão, que nos impele a colhê-las ou a deixá-las a ondular ao vento, debaixo do sol, como o diamante mais raro que pudéssemos encontrar e não nos atrevêssemos sequer a tocar por simplesmente reflectir a luz de uma maneira que jamais imagináramos que pudesse existir.

Se do mundo tomássemos apenas o que existe tudo seria mais rápido. Não nos enredaríamos tanto no nosso pensamento, talvez até nem fossem necessárias lágrimas para sermos o que somos. Sim, creio que se nos resumíssemos apenas ao que existe a vida não nos pesaria tanto.

Espero que a luz da candeia de azeite que arde perto da minha mão direita ilumine e inspire o que tenho para escrever. Ansiamos sempre pela luz; mas agora, velho como estou, não tenho a certeza disso.

A história fabulosa cujas primeiras portas se abrirão em breve, aconteceu vai para muitos anos e reparte-se por outras memórias semelhantes à minha, outras memórias que são como pequenos pontos luminosos na infinitude do universo, algumas das quais foram repousando no pó da terra, e já não poderão falar. Somos puxados pela memória nos momentos mais inadvertidos. Escrevo também em nome dessas outras memórias para as resgatar ao inevitável esquecimento que acena, da noite dos tempos, a todas as lembranças. Mas nem todas as memórias emergirão desse lago sem fim, desse limbo onde o tempo, tal como o conhecemos, já não existe. E não farei, decerto, justiça a todas as lembranças que evocarei.

Esta é uma história repleta de aventuras, de caminhos amplos mas igualmente sinuosos, de coisas tão espantosas e a princípio tão estranhas que pode, com razão, pensar-se que é inventada. Como todas as histórias contadas desde o princípio dos tempos, como a nossa própria vida, este relato é feito de alegria, risos e sol, calor e conforto, mas também de acontecimentos profundamente marcados pela tristeza, pelo desalento e até pela morte. A vida ensina-nos que em alguns momentos precisamos do silêncio e da tristeza para sermos mais fortes, mais certos do que pretendemos da vida de forma a não esquecermos o devido valor do bem que temos. Os lençóis a cheirar a linho lavado, macios na nossa face e em que à noite adormecemos, são um bem sem preço, assim como as mãos da nossa mãe que nos penteiam os cabelos pela manhã, assim como os braços do nosso pai que nos levantam para contemplarmos o mundo, assim como o pão que à mesa nos é dado.

Por mim que a escrevo, agora, esta história parece-me parada no tempo, ou suspensa na minha própria memória como se fosse uma série de quadros antigos e distantes que regressam e vão sendo revelados por uma luz inesperada; uma luz vaga e rasante revela com lentidão o brilho dessas pinturas. A nossa memória não é apenas uma espécie de compêndio onde estão registados nomes, factos, lugares, tanta coisa. A nossa memória somos nós, a nossa vontade, a nossa acção no mundo, os nossos sentimentos a construir-nos. O que recordamos em pensamentos é, como muito bem sabemos, quanto mais não seja pelos sonhos, também uma imagem. E ao mesmo tempo que recordamos, vamos esquecendo.

Regressei há poucos dias de uma fabulosa cidade, extraordinária, mágica, posso dizê-lo. Nos confins da terra, essa cidade é o ponto de confluência de caminhos oriundos de todo o mundo conhecido, de estradas e veredas que são percorridas pela fé e pela esperança de muita gente. Fiz uma árdua viagem, desde a neve do Norte da Europa até esta grandiosa e quase irreal cidade, se é que assim se pode nomear uma cidade onde se esteve, e pensei muito, uma vez que em parte considerável do tempo caminhei sozinho. Tive tempo para observar os meus pés a palmilhar cada pedaço do caminho coberto pela últimas neves do Inverno, tempo para falar com as flores à beira dos trilhos, com aquelas que são as primeiras a eclodir na terra renovada pela Primavera. Muitos dias e muitas noites passaram sobre o meu caminho, muitas voltas do sol e da lua. Muitas cidades, aldeias, lugares, casais. Incontáveis tons diferentes do céu e formas diversas das nuvens. Tive ainda tempo para ficar em sossego a olhar as montanhas elevarem-se até ao céu azul resplandecente de luz. Quando o cansaço me surpreendia sentava-me numa pedra à beira do caminho e dava descanso ao bordão ou repousava no feno dos campos a ouvir o vento e a observar as aves a planarem no vazio ilusório do céu. Fiz a jornada em direcção ao Sul, sem pressas. Imponentes igrejas marcam os caminhos de peregrinação mais antigos da Europa.

A minha vida já vai tão longa que todo o meu cabelo e barba estão brancos. «Pouca barba, pouca vergonha», diz-se ainda hoje. É tempo de relatar esta história, como já disse, para que não seja esquecida. Mas eu sei que o que me move é, sobretudo, a realidade de a ter vivido e o sentido dos acontecimentos que aqui relatarei está entranhado no sangue que me corre nas veias e procede de um tempo muito anterior ao meu. Tudo mudou no mundo e nos homens: a injustiça, o sofrimento, dilaceram os tempos que correm. Sinto, verdadeiramente, que tudo se desmorona perante a impiedade da noite que nos aguarda. Sinto que as trevas alcançaram o coração da humanidade.

Escrevo no ano de 1560 e a cidade de onde acabei de regressar chama-se Santiago de Compostela; fica situada numa terra envolta em mistérios onde existem bruxas bondosas. Essa terra chama-se Galiza e fica muito longe, para além do Norte das fronteiras de Portugal. No Inverno, os seus vales outrora verdes e brilhantes das gotas do orvalho, as suas montanhas cobertas de árvores esguias e assustadoras, de bosques escuros, amanhecem cobertas por um nevoeiro gelado e denso. Ainda o sol não subiu acima das montanhas e já os pastores soltam dos currais os rebanhos de ovelhas e cabras que seguirão para as pastagens. Ecoa na madrugada o ladrar dos cães que acompanham os pastores e nuvens de fumo desprendem-se das chaminés das casas de pedra tosca cobertas de colmo. Por essa hora inicial da manhã, também eu saía da casa que me dera dormida, e retomava o caminho para Sul, para Santiago de Compostela, com um pedaço de pão, uma cebola, um naco de chouriço no bornal.

Nos meses de Verão, ao final do dia, o céu de Santiago de Compostela, que é o mesmo céu que Deus criou para todas as pessoas e para todos os animais, para as florestas e para os lagos, para os campos e para as pedras, tem um tal brilho que parece tomado pelo fogo, pois fica tal qual da cor deste. O céu assemelha-se, então, a uma abóbada de veludo da cor do vinho, a arder, e o dia, antes de ceder o lugar à noite, vem repousar, nos seus derradeiros raios de sol, na magnífica escadaria da catedral do apóstolo Santiago. Ao final do dia, o céu vê-se tão bem, fica tão límpido e tão sereno que parece que o podemos tocar com as mãos se levantarmos os braços. E dorme-se em paz, de coração pleno e sonhos tranquilos, depois de uma visão assim.

Existe uma porta de madeira, ao lado da grande escadaria que conduz ao interior da catedral, que reflecte os raios do sol tal qual um clarão, como se fosse toda feita de ouro puro. Quando o ocaso do dia esmalta de amarelo a fachada da catedral, o seu brilho é tão intenso que mal podemos fixar nela o olhar. Aqui tudo é o esplendor da luz, seja a do astro maior do universo, seja a que floresce no interior da nossa existência.

Santiago de Compostela é uma cidade que está sempre cheia de gente das mais curiosas proveniências, especialmente durante o mês de Julho quando, no dia vinte e cinco, se celebra com sumptuosidade a festa do apóstolo Santiago. Milhares de pessoas enchem então as naves e o deambulatório da grande catedral perfumada com o incenso das celebrações. As orações ou as preces que saem das suas bocas, as exclamações de espanto perante a majestade e a beleza da igreja, geram um burburinho indistinto que ecoa sob as altas e frias abóbadas de pedra. Nesta imensa catedral se vêem os rostos cansados de quem fez longas e penosas caminhadas e acabou de chegar, mas também as expressões serenas e agradecidas daquelas pessoas que cumpriram a Peregrinação e se preparam para procurar estalagem na cidade ou regressar às suas casas. No chão frio da catedral há gente que se ajoelha e chora. Um rio de preces sobe até ao céu na esperança da sua magnitude e da sua piedade.

Diz-se que na catedral, tão fabulosa como os mais belos palácios que se possa imaginar, está sepultado o apóstolo Santiago, um dos doze apóstolos de Jesus Cristo e é por isso que esta é uma das igrejas mais antigas e mais importantes de toda a cristandade. Tiago, o seu irmão João e Zebedeu, o pai de ambos, consertavam, no barco, à beira do mar da Galileia, as redes de pesca, quando Jesus passou por eles e os chamou. Deixando o barco e o pai, Tiago e João seguiram Cristo tornando-se, de pescadores de peixe em pescadores de almas. Do ar cálido da Terra Santa, do seu chão queimado pelo sol, depois da morte de Nosso Senhor, Tiago veio evangelizar a Hispânia. Tiago, João e Pedro foram os únicos apóstolos que assistiram à transfiguração de Jesus, no cimo de um monte, quando «o Seu rosto resplandeceu como o Sol, e as suas vestes se tornaram brancas como a luz», assim escreveu São Mateus. Bem-aventurado Santiago, por quem gritam os soldados. Muitas e estranhas línguas se ouvem aqui constantemente, uma vez que de todos os reinos da Europa acorrem peregrinos para ver e tocar o túmulo de Santiago que fica na cripta da catedral, sob o altar principal. O túmulo é uma resplandecente urna de prata, muito bem lavrada, que encerra os ossos de Santiago e dos seus discípulos Santo Atanásio e São Teodoro. A cripta é uma sala pequena, baixa e escura, iluminada pelas incontáveis velas que lá deixam os peregrinos e por uma tocha fixada na parede por uma armação de ferro forjado. Pouco mais tem de altura do que uma pessoa. Toda a gente, sã e doente, passa por esta sala em silêncio e com veneração.

Uma confusão enorme de pessoas enche as ruas da cidade de Santiago e o terreiro defronte da catedral: peregrinos ostentando a vieira pendurada ao pescoço sobre o peito, atada ao cajado ou cosida ao chapéu, mercadores opulentos, bobos a cantarem ou a fazerem acrobacias na esperança de uma moeda, cuspidores de fogo que a todos espantam, mendigos e doentes andrajosos que a muitos repelem, músicos, nobres que se fazem notar pela riqueza das suas vestes e das dos seus acompanhantes. Cavaleiros e até reis aqui chegam. O nosso rei D. Manuel, que Deus tenha a sua alma em eterno descanso, também aqui veio há já muitos anos, em 1502, se a memória não me atraiçoa.

Quanto tempo passou desde os anos de leite da minha infância até agora! Tenho sobre a mesa em que escrevo estas palavras, a concha que simboliza a minha peregrinação a Santiago de Compostela. É uma concha branca que apanhei nas praias da Galiza e onde pintei, com tinta vermelha, uma Cruz de Santiago. Adiante tornarei a falar desta minha jornada a Santiago.

Ocorre-me falar do céu de Santiago porque o céu de Lisboa, que pode ver-se da janela pequena da casa que foi dos meus pais e dos meus irmãos, assim como dos pais dos meus pais, na colina de São Francisco, mo faz lembrar. O sol põe-se do lado oposto a esta janela, para as bandas do Mosteiro de Belém, onde o rio Tejo se junta ao mar, mas pode ver-se na colina do Castelo de São Jorge, defronte a esta, o mesmo fogo do crepúsculo a amarelecer devagar sobre o casario e sobre as paredes do castelo e das torres da Alcáçova onde outrora viveram os reis de Portugal e a que hoje chamamos, apenas, o Castelo Velho. Nesta época do ano, essa última luz do sol é tão breve como a grandeza abandonada daqueles paços reais que conheci nos tempos da sua opulência. As torres da Sé, o Hospital do Rossio, a muralha da Ribeira que o rei D. Fernando mandou fazer e hoje já quase não se vê porque os sobrados das casas subiram acima das suas ameias, pertencem já ao anunciado reino da noite. O céu é agora uma imensa abóbada nocturna repleta de pequeninos lumes que são as estrelas. As nuvens desfizeram-se com a tempestade.

Todos os céus são diferentes e iguais ao mesmo tempo em todo o mundo, porque não existe senão um. É o dia e a noite, as horas diferentes de cada terra, que nos fazem ter a ilusão de que Deus criou apenas o pedaço de céu que o nosso olhar consegue alcançar. E, contudo, talvez seja mesmo assim: quem sabe se essa nossa impressão não é, ela própria, a manifestação da bondade de Deus para connosco, fazendo-nos sentir únicos. Somos tanto o que desejamos, queremos tanto o mundo à medida dos nossos sentimentos… Mas eu sei, da boca de quem lá esteve, que, do outro lado deste redondo mundo, no distante Oriente, o céu é diferente, a configuração das nuvens, nas quais a nossa imaginação infantil se perde a divagar, é outra, assim como é diversa, também, a temperatura, a terra e tudo mais. Eu tive um irmão, alguns anos mais velho do que eu, que foi nas naus de Vasco da Gama à Índia, no tempo do rei D. Manuel, há mais de sessenta anos e por isso sei estas coisas. Andarilho do mar, esse meu querido irmão, que ficou a viver em Goa.

Foram as lembranças da minha aventurosa e longa vida que me levaram a fazer o caminho até à cidade de Santiago de Compostela, as mesmas que agora me conduzem aos maravilhosos e terríveis acontecimentos que ocorreram há muitos anos. Acredito que sejam motivo de admiração pois até para mim, ao cabo de tanto tempo, tais peripécias conseguem ainda ter a força de me surpreenderem. Os mais ínfimos pormenores de pessoas, lugares e objectos, revelam-se no meu espírito e regressam incólumes. Aquele rosto, a luz incidindo sobre aquele objecto, cheiros voláteis ondulando no ar invisível, paladares, o frio de um certo dia, o ruído dos pássaros no arvoredo… Na minha memória tudo tem um último lampejo, uma derradeira lembrança.

Tão assombrosas são as aventuras que daqui a pouco narrarei que nem a mim próprio, que as vivi, quase parecem verdadeiras. Mas eu sei que são a verdade porque ainda tenho os olhos abertos e essa realidade vivida está impressa no meu espírito com a força rara com que agora me agarro à vida para escrever. E uns desenhos antigos e já esbatidos por sucessivas manchas de humidade que fazem lembrar o limite incerto das ondas do mar na areia, certificam-me da autenticidade do que vou contar. Estão ali, sobre um banco, e reencontrei-os quando voltei a esta casa. São belos e delicados e é por esses desenhos de uma fineza e de um cuidado que nunca mais voltei a ver iguais, nem a reputados e caros artistas, que começará o relato das minhas aventuras. Gostava que fossem meus, mas não fui eu quem os desenhou: foram-me deixados por alguém que fez de mim, em tenra idade, o artista que, já homem, vim a ser. Foram-me deixados por alguém que me levou consigo a conhecer reis e rainhas, nobres e gentis damas, gente poderosa da corte dos monarcas de Portugal, cidades e vilas onde o seu trabalho era requerido e admirado.

Antes disso, no entanto, devo uma palavra acerca do modo como esta narrativa começou: foi em Santiago de Compostela que reencontrei um amigo que, como adiante se lerá, faz parte desta história e de quem há muitos e muitos anos não tinha qualquer notícia. Na verdade, cheguei a temer que já tivesse morrido. Por ele – logo se saberá o seu nome – fiquei enfim a conhecer o que faltava a esta história, o que não testemunhei directamente.

Já é noite adiantada, está frio. Não se ouve voz de gente pela cidade e só os latidos dos cães perturbam a serenidade nocturna. Vou fazer uma pequena ceia e depois deitar-me na enxerga. Será longo, umas vezes pesado, outras vezes doloroso, o caminho cujas portas, hoje, desde os confins da minha memória, abro uma última vez.

 

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Escriba, notário ou copista. Ampliação fotográfica de gravura de madeira publicada na obra de Iñigo López de Mendoza [1398-1458], 1.º marquês de Santillana, Bias contra fortuna hecho por coplas, reproduzida a partir do catálogo Lisboa Quinhentista: a imagem e a vida da cidade, Lisboa, Direcção dos Serviços Culturais da Câmara Municipal de Lisboa, 1983, n.º 148 da exposição.