fado para o Fado Vitória

 

dl 082 - Cópia

 

trago no peito um poço
uma árvore ao invés
de raiz voltada ao sol
são as veias de um destroço
o dia morto das marés
no centro do girassol

eus de mim noite quebrada
rubro vinho sombra nua
do meu coração perdido
dobro o mundo na enseada
que verte o sangue à lua
daquele troço esquecido

sem deuses nem razão
sem saudades nem aquém
que me redimam o passado
nesse fundo onde não há fundo
há uma terra de ninguém
feita de rosas sangue e fado

*

Fotografia: guitarra, 2010.

poema que não

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as pedras resvalam e eu subo as escadas, a sombra ergue uma cidade
na parede
: estanco a mão: ruínas antigas, mentiras, omissões, abandonos – cegos da claridade
que trespassa a sede,
o silêncio do vidro quebrado pela altura do sol que a rotação ilude e não meço;
esta sede desvalida de grito e de mudez
: ramos partidos rasgam-me sulcos vermelhos nos braços, não regresso,
quando subo as escadas e as pedras redondas decorrem polidas, disponho cansaço e lucidez,
passos e caminhos, invernos e queimaduras do frio, outonos e cinzas ateadas,
o reflexo do fogo celeste nos plátanos, ruas vazias sob o carvão projectado das casas,
plantas rubras desenhadas sob o aparo, a pena que vale as esperanças desoladas
na parede
no rosto
na perspectiva do oxigénio transposto
um gesto na ravina que o movimento sem explicações conduzisse
mas não

*

Fotografia: Silos, 11 de Julho de 2017.

uma evidência quotidiana sem importância

Sketchbook 043 - Cópia

 

um cristal de neve no vidro a quebrar para abrir os pulsos num gesto transparente,
e depois o sangue a expandir-se, a desenhar um mapa na água quente, um simulacro de luz além das portadas,
versos longos, terna penumbra, livros fechados, o sangue a alastrar na água, entre pequenos nadas,
abrir e fechar as mãos, uma geografia de sangue, uma réstea de nudez no sol ardente

ninguém abrirá mais as portadas, nem a janela, na melancolia derradeira e tão bela do entardecer;
é a noite a portada, a noite indizível que regressa e me chama, incólume, na busca do calor, no Inverno;
o súbito halo eterno
do candeeiro que a evidência quotidiana virá acender

 

*

Ilustração: [sem título], dos diários gráficos, grafite e vieux-chêne, papel, 1998.

a ala psiquiátrica – terceira dimanação do caos

Sketchbook 063 - Cópia

 

desenhávamos artérias, veias, gestos de lâmina errados nos pulsos – não basta cortá-los, é necessária a arte de lhes conferir o golpe certo da liberdade, o exangue descanso antes do desapropriado descanse em paz –
o número dos comprimidos restantes
– ninguém ali desejou viagem alguma, e os passos, agora, sincopados, na perspectiva hirta do corredor, do princípio
para o fim e do fim para o princípio,
dentro do espelho,
medem apenas o branco, a ausência de todas as cores – não existe qualquer deslocação, nem caminho, nem libertação; apenas uma descoincidência tectónica e definitiva;
a tectónica da terra, do corpo e da sua inata respiração, e da linguagem,
das mãos e dos braços que seguram a acusação da própria morte que não deseja ser encontrada: o corpo desprovido enfim de um alvedrio do acaso sem razão alguma
(a minha decisão está no mar)

desenhávamos o branco da falta e do abandono, da verdade do impensado, o silêncio e as cores deambulavam ainda no sangue – mas estava envenenado, o sangue, pela supra descoincidência citada

eu chorei quando me trouxeram a comida no recipiente de alumínio e disseram que iam cuidar de mim, todavia o meu choro não era o de uma pessoa, mas o de um cão

jogavam-se cartas a cigarros, dentro do espelho,
dez cigarros pela manhã, dez cigarros pela tarde, cumpridas as refeições e os comprimidos e as cápsulas
as mãos postas a revelar as linhas da vida aos que nos queriam salvar
– mas isso não era possível

estávamos debaixo da garrada, na deformidade vítria da morte indiferente

eu acordava muito cedo e tinha que esperar duas horas pelo pequeno-almoço, todos os dias via o sol que resulta da rotação da Terra
entretanto abria a madrugada e chegava o carrinho, chiando no sufoco deserto do corredor, com as medidas dos pijamas lavados e as toalhas para o banho
mas nunca era manhã
alguns mandavam vir de casa os pijamas próprios, perguntaram-me, mas eu desprezo os simulacros

debaixo da garrafa existe algum espaço côncavo, um último bilhete de respiração

éramos todos salvados de um patíbulo algures na razão,

o meu patíbulo está certo desde o estalo da parteira naquela manhã de Abril
– nada existe para vencer

*

Ilustração: [sem título], tinta-da-china, papel, 1998.

«um bocadinho de mar»

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sim, temos um bocadinho de mar verde azulado
só nosso, que guardámos do grande oceano que é o movimento da vida,
a deslocação perfeita de uma pequena vaga, entre a calma do vento e a sedição, que fez o incomensurável acaso de nos termos encontrado;
e é por ser tão vulgar, esta existência que escrevo, entre tantas ondas que as marés desfazem na praia,
que nesse bocadinho de mar verde azulado está a abstracção absoluta do tempo
e a ideia viva do para sempre vive em nós, o invulgar, o único, o irrepetível;
umas vezes os teus doces olhos verdes azulados, outras vezes a boca e a língua, a pele gostada, as mãos na suave posse dos corpos, as essências
(o mar é o originário movimento irrepetível de tudo o que existe)
porque a duração de uma vida é a única forma possível de um singular para sempre
: o nosso bocadinho de mar no conhecimento da pele e na matéria íntima do corpo,
o nosso bocadinho de mar anterior ao destino da praia
no centro líquido da origem da vida

Fotografia [pormenor]: Jorge Muchagato, Inverno de 2011.

corpo e lume um

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a tua voz guarda-me tanto…
um consolo de lã, uma força de linho, um doce feixe de ervas

o abismo da noite já não me chama, incessante, em brados silenciosos de vórtices sedutores, em cantos inaudíveis de falsa libertação…
agora a minha pele respira-te, e tu guardas-me inteiro, a voz e o corpo, e eu guardo-te inteira, a voz e o corpo,
e na cama, nos lençóis moldados pelos nossos corpos, odores e suores, olho o quarto e vejo os teus olhos verdes azulados, as feridas que o teu olhar não sabe ocultar, mas
agora estamos os dois nesse verde azulado que une o mar e a atmosfera na luz da manhã
e um dia seremos na intimidade nua toda indefesa da noite e do sono
no abandono completo do abraço para a travessia do sono

as pétalas da primeira rosa vermelha una, pintada e verdadeira,
pétalas de pele e carne húmida e contracta em movimento
na fronteira do risco e do precipício das bocas onde é a vida e é o tempo inteiro

o tempo inteiro que a física desmente e a existência que somos encontrou,
sentidos e pensamento, corpo e lume
um
 

derrotas

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há quatro biliões de anos existia um bola de fogo e magma no centro da nossa escuridão
arrefeceu e na descoincidência da terra com a crosta formaram-se os lagos, os rios e os oceanos
no vazio disforme do intervalo das rochas a subirem do mar

há trezentos milhões de anos, na escuridão interior do carbonífero que hoje o metal desfaz,
as aves ainda não abençoavam os céus, o clima era quente e húmido, os fetos subiam a vinte metros de altura

há sessenta e cinco milhões de anos quase todas as formas da vida foram extintas pela derrota* de uma rocha que incendiou os céus ignotos

mas vida venceu e tornou sobre a terra nihil
: há duzentos mil anos, na esterilidade da penúltima glaciação, criámos as lágrimas, e assim a morte e a arte

hoje, o cansaço cobre a rotação da terra na derrota dos dias e das noites

 

 

*derrota é a palavra antiga para rota.

 

*

Fotografia: Junho de 2017.

 

um dia bom [3]

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um pouco mais do miolo dos dias, tão passados, um pouco mais para além
da habitual rotina dos dias
: no céu do ocaso um primeiro vislumbre da lua,
nas luzes nocturnas da cidade um perfil novo para as mesmas casas,
no anguloso recorte a escurecer nos prédios iguais
uma sombra menos densa, um pouco mais
no papiro da árvore dos dias, na pele sedenta, na luz do sol, no íntimo calor da noite,
no brilho da água nas folhas verdes

no alcance dos olhos, no diafragma, no movimento, nos gestos

: palavras novas na página antiga da árvore do papel, sobre o livro do lume da redondeza do mundo,
um desejo equinocial que escreva radicalmente a verdade,
mais para além, mais para além da habitual rotina dos dias

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para I.
manhã de 26 de Junho de 2017

em itálico:
mais para além da habitual rotina dos dias: I.
lume da redondeza do mundo: do livro Esmeraldo de situ orbis, de Duarte Pacheco Pereira (ca.1460-1531/33). O Esmeraldo de situ orbis é um roteiro náutico e geográfico, um tratado de cosmografia e que o autor escreveu entre cerca de 1505 e 1508, ano em que interrompeu a sua redacção deixando-o inacabado. Foi publicado pela primeira vez em 1892. radicalmente a verdade pode ler-se na penúltima frase da página aberta, na fotografia.

*

Fotografias: I., vista urbana nocturna, e JM, um pedaço da entrecasca, semelhante ao papiro, da chamada árvore-do-papel, cujo nome científico é Lasiandra Papyrifera, sobre página da edição mais recente do Esmeraldo de situ orbis (1991).

 

 

 

um dia bom [2]

 

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escrevo o teu nome com a minha voz
e aporta em mim,
à suavidade de respirar quando escreves com a tua voz o meu nome,
um abandono feliz que me chama e desejo seguir,
uma voz de pétalas que me acelera o coração
e ao sangue avermelha de vontade,
uma voz de pétalas de rosa

levarei uma rosa vermelha o saber
não-pensado da seiva deste acaso

para I.