alba

a mudez descende, morosa das veias reverbera a púrpura de um silêncio suicidário
é a alba
as palavras recuam e desmembram-se no refluxo da poeira – não é o mar, nem são os rios e as suas fronteiras,
são as artérias, os tecidos, os músculos – é o corpo e o pensar,
a pele, o sexo e a boca,
a alba que transpira das paredes da noite;
a memória é falada do sangue de um corte repentino, o esquecimento
é uma realidade irrealizável e
no feroz, imponderado desconhecido do inconsciente, resta
a violência da indiferença no cosmos instituído,
um risco de perspicácia que dome a vulgaridade e a dor impressa pelo menos
em alto-relevo

somos tão-somente unhas quebradas no mármore dos presságios,
miseráveis platónicos no abandono da rotação da Terra

o ser descende, tudo descende no sentido
da alba

adormecida onde nos matamos uma noite por outra
no devir da manhã

 

DSC03995
Fotografia: Jorge Muchagato, 4 de Novembro de 2017
Anúncios

consideração sobre a passagem da morte

é a morte que define a vida – corpo do anátema do tempo; é a morte
e tudo o mais é uma piedosa filosofia do desengano que [que]
a procura, montanhando o silêncio do ar – sedimenta e assoreia
é a morte que nos obriga; é a morte que incide, fere, corta e agrega

a morte é longa

[que]
[parece que o pai não morreu, que vai voltar do hospital]

não pertence a qualquer deus o pormenor – mas à morte

a morte é longa
e por conseguinte nos salva

[que]

não sabemos, exigimos
a demasia
[da conta]

 

DSC03299
Fotografia: Jorge Muchagato, 29 de Agosto de 2017

uma cisterna a meio do mar

DSC04059

 

todos os dias, na maré do prisma óptico que denuncia a rotação da luz, todos os dias
antes do frio e da aportação das aves, no primeiro movimento
de escalar a minúscula redondez das pedras negras do silêncio, sei
que o pior é a noite e as suas involuntárias aberturas cegas, quando
a seiva dos meus sonhos quebra o riso das carrancas e me jogo aos dados
do precipício

de todos os dias, a verdade é a noite e a sua acurada, silenciosa depressão terrosa – o amor-ódio-
-desespero-amor da noite, quando as janelas e as portas cegas
justificam e douram as tesselas de um exílio tão procurado como a decisão dos tijolos
nas portas e nas janelas

não ousarei afirmar que essa decisão é inverosímil, pois não se talham as pedras
da fortaleza sem lhe calcular a cisterna

todos os dias a noite incide a prumo no meio do mar
todos os dias acordo a meio do mar

 

DSC04063

 

Fotografias: Jorge Muchagato, 28 de Novembro de 2017

 

 

Eros e Tánatos, carne contra-divina

a noite oblíqua aceita o mar que abençoa a madeira do naufrágio
os corvos da madrugada dentro do crânio, e essa luz rara e vibrante
da manhã que nunca eclodiu, artérias frementes vazando
o sangue na linha movente do sal da praia onde morre o sol do presságio

o cerco da sombra define as paredes, mudez de ícaro nos calcanhares
mareando no perfil negro das árvores uma obscuridade viva e suave
consentida pelos vidros da lua onde o livre sulco da claridade, a queimada
expande – não sara o golpe da tua face, corte não resolvido de asfixiados avatares

sob o lácteo silêncio astral, a poeira insentida da tua passagem é a ruína
de uma falsa cidade, de um imaginário de vales, montanhas e caminhos de rega
onde os dias aportavam da epiderme e do suor da noite, da terra e da nudez,
do caule e do báratro onde Eros e Tánatos se unem em carne contra-divina

 

Tentaciones en casa de Antonio_1970 - Cópia
Manuel Alvarez Bravo [1902-2002], Tentaciones en casa de Antonio, 1970.

pai

o frio morto na minha face quando no ataúde
te beijei por fim e disse boa viagem querido pai, eu
que no meu entendimento tudo humano creio,
olhei a oliveira na fronteira da casa funerária, de noite envolta,
e disse-me, na estranheza da morte, mas eu quero,
irracional, eu quero que haja depois

chamava-te, como por uma primeira vez, da agonia te chamava
: pai, pai

 

DSC04018 - Cópia
Jorge Muchagato, diafragma nocturno, 9 de Novembro de 2017

é estrangeira a morte quando na carne ceifa perto

é estrangeira a morte quando na carne ceifa perto
beijo a corola do vinho, cuido na volta do pescoço
sem nunca me ter ferido no espinho vão da coragem
do baixo céu firme à boca esventrada do poço
o imerso incerto
dado que me confundi na ondulação solar da folhagem
e assim à morte voltei o rosto para a sombra no chão
das árvores e das artérias da sua verdadeira ramagem
tendo-me perdido vivo nos meandros da decisão

 

DSC03926
Fotografia: Jorge Muchagato, 19 de Outubro de 2017

 

nuvens

… uma constelação de acrobacias poéticas, firmes certezas
que nunca foram verdades
quando a condenação a que chamamos vida é a verdade estilhaçada
de certezas pequenas por esculpir;
poetas endeusados por lobos prontos
a roubar-lhes a divindade sob o ingresso da adulação, de molde
feito para a posteridade, essa pécora que involuntariamente a todos masturba mas a ninguém consente
que a foda
perícias poéticas de lama seca, perícias de barro mal amassado sob uma ficção
azul onde não conta o imensurável eflúvio das nuvens,
agilidades de metafísica lacrimosa que todos os dias perdem
uma nuvem iluminada

 

DSC03974
Fotografia: Jorge Muchagato, 2 de Novembro de 2017

 

 

exílio

vê se respiras enfim, sem medo nem expectativa, que estás absolutamente só
e te decides, de uma vez por todas as vezes, sem rancores nem arrependimentos,
tu, que conheces a essência da história como as linhas inexplicáveis das tuas mãos,
pelo exílio real de que não és culpado mas onde desde o princípio vives

quando tiveres umas moedas mete-te no autocarro e vai à foz
descalça-te, caminha na areia, molha os pés no mar frio e contempla a explicação azul da atmosfera
quando voltares para a casa onde agora estudas e dormes
terás esquecido, sem sofrimento, os interstícios verdadeiros que acinzentam as palavras

 

DSC03651 - Cópia
Fotografia: Jorge Muchagato, 21 de Setembro de 2017

 

carta última do naufrágio

na face da noite, nos olhos da face fria da noite, sangra o que não há,
o que não pode ser salvo, nem pela tesoura dos filósofos nem pelo absoluto;
sangram as palavras nuas, a mentira dos silêncios e das omissões; o que nunca virá
no devir mais justo, mais merecido, mais alvo, certo e resoluto

na face da noite, em sombras mudada e lida, queimo os lábios no meu exílio contrário
ao desamor feliz do mundo; queimo as mãos, a pele;
o sofrimento das ilhas perdidas nos mares desconhecidos de um desejo arbitrário.
não me estanco nas facas assassinas, conheço-lhes olhos e as mãos, o que as impele

na face da noite, na verdadeira nudez que revela os ombros, descai o medo,
como um drapeado grego, e cresce em veias a haste; eu sou o que sou e o que me desconheço;
a tectónica violenta da minha solidão, um tão amado naufrágio descendo no mar o degredo,
os milhões de séculos e silêncio da água gélida, onde não chega a luz, lavando-me da inexistência onde me desvaneço

 

DSC03295 - Cópia
Fotografia: Jorge Muchagato, 29 de Agosto de 2017

 

a anual decisão dos loucos

decidiram os loucos, à beira do estertor
do Verão, ainda o Outono docemente colore com lágrimas as árvores de fogo,
decretar em falsas luzes públicas, a invenção do natal,
que é de facto uma invenção,
ficando todos os anos com dois meses inteiros
para cagarem em cima do natal enquanto
sorriem a sorrisos parecidos ou a desesperos exilados

 

IMG_20161229_000501
Fotografia: Jorge Muchagato, Dezembro de 2016