codicilo

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a génese, quando ao fim de anos lhe descobrimos a face, é um vinho ácido.
eu, quando existir verdadeiramente quero o fogo, pois a terra já a tenho na boca.

 

Fotografia: Jorge Muchagato, Março de 2018

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nada,

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somos o decidido antes
de sermos mais tarde
ferida vertendo instantes
eternidade que nos guarde

está o sol nessa geografia
joga a vida a nosso jeito
e sabemos que morre o dia
coincidindo o sol no peito

em tudo somos mistério
a procura de explicação
é o sangue do eremitério
onde se exangua o coração

todo o tempo é perdido
de razão e circunstância
uma abóbada de sentido
que explicasse a distância

e regressa intacta a manhã
ao espelho lavamos a face
alguma crença lúcida e sã
a salvar-nos do disfarce

 

Fotografia: Jorge Muchagato, 13 de Junho de 2018

corvos

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na cal da noite, a hipnose da sombra dos corvos
fende a película da cor, as suas asas negras estalam a tinta.

a decisão é um insecto na quietude do âmbar; a fissura é a decisão.
o que distingue a morte é o cuidado com que o suicídio se retira.

ninguém. uma praia, uma árvore sem retorno,
de ramos vedados a todo o suborno.

 

 

Fotografia: Jorge Muchagato, 18 de Maio de 2017

uma equivalência matemática entre a luz e a sorte

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uma coisa é um problema, outra coisa é a tradição
conceptual desse problema;
uma e outra coisa têm átomos diferentes
quando é necessário tomar uma decisão.

existe um espaço civilizacional entre o problema e a sua tradição
que afere as consequências do desenho
na perspectiva mais acertada, na decisão do ponto de fuga
que vence a invisibilidade e corta as marés do infundado não.

acima das circunstâncias, tudo tem o seu escrúpulo, a sua delicadeza
amorosa, consoante a fonte do gesto, do olhar ou da palavra;
tal irreproduzível nascente faz pensar se o cume da montanha
é a vitória ou o absurdo. nem uma nem outra coisa; a altura da certeza

ou a altura da dúvida. a um tempo caos e cosmos; morte e génese, génese e morte;
nada é o tudo que foi, tudo o que é converge para o ponto centrípeto
do nada. no caroço da dádiva, ler no escrito o que não foi escrito,
sair do gabinete de curiosidades inúteis a comer o pó e fazer uma equivalência
matemática [de sangue] entre a luz e a sorte.

 

 

Fotografia: Jorge Muchagato, 30 de Junho de 2018

“Corpo de mim”, um poema cantado, Mísia

MÍSIA, Corpo de mim (Jorge Muchagato / Fado Mayer), com maestro Fabrízio Romano (arranjos e piano), Luís Guerreiro (guitarra) e Luís Cunha (violino). Madrid, Teatro Nuevo Apolo, 22 de Junho de 2018, Festival de Fado de Madrid. Filmagem: No Solo Fado. Revista Digital Sobre Música Portuguesa, 2018. Apresentação do novo projecto musical de Mísia, Pura Vida.

 

 

Não tenho asas
Nem tenho assombros,
Regresso ao fim.
Nunca fiz casas
Sobre os meus ombros
Corpo de mim.

Não cedo feridas
Nem cicatrizes
Sou o meu degredo.
Guardo caídas
São os matizes
Da dor e medo.

Escrevo na pele
Tudo o que sele
A dor e o presságio
De risos e naufrágio
De abraços perdidos
Escrevo na pele
Nuvens, sangue e memória
No corpo da minha história
Não há gritos esquecidos.

Desbravo a morte
Beijo o cansaço
E fecho as mãos
Sou mar e norte
Ventre e regaço
De tantos nãos.

Afoguei certezas
Maldições neguei
Regressos do fim
Comi tristezas
No meu corpo sei
Não morri de mim.

 

Obrigado, Mísia

 

76a

 

Filmagem: da  página oficial de Mísia na rede social Facebook

 

pinhole

DSC04250 - Cópia

 

 

 

o veneno das ruas, a luz e o calor do sol,
eu que me penso: eu, e eu à face de mim
em torno, alguma ponte dentro da realidade
no papel de arroz do mundo.
cabeça de melancolia, gestos de vagamundo,
palavras de pescoço no tempo de uma pinhole.
beber a luz e o calor do sol, de cotovelos no varandim,
livre e longe da traficada régua da cidade

o sangue reflui, não se afigura o corpo do promontório,
é difusa a distância do quadro à praia. naufrágios, destroços
sangrados pelo nevoeiro denso que descende
a película da realidade e a fende.
o mapa enlaçado nos tojos é um desenho aleatório.

 

 

Fotografia: Jorge Muchagato, Janeiro de 2018

anti-memória

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a língua dos gestos; se eu conhecesse as palavras,
escolheria o pólen do silêncio e esperaria, absoluta nudez,
o vento que o dissolve na atmosfera e confere razão ao nada;
aportaria na tua boca,
no sal do teu suor de fêmea,
na tua voz indefesa de palavras.

 

 

Fotografia: Saul Leiter [1923-2013], Fay, ca. 1947. Saul Leiter Fountation, New York.

 

os corvos a norte

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Fotografia: Jorge Muchagato, madrugada de 15 de Junho de 2018

 

 

 

o sol declara, a sombra escreve:
na parede, os veios das tábuas,
anéis invisíveis na cofragem do betão.
e, dentro, as linhas do ferro invencível à terra.
a matéria morta.
a face perfeita, absorta,
da lúcida mudez das águas
a corroer o útero indiscernível da guerra
e as evidências do não

grasnam corvos; das suas asas
deslizam, suaves, perdidos no ar, átomos
que o sémen da escuridão fecunda.

pó de carvão, grasnam os corvos
a norte
do sol.

 

 

não, apesar

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Fotografia: Jorge Muchagato, Casa da Cultura / Céu de Vidro, 14 de Junho de 2018

 

 

 

os cães ladram no invisível da noite, os seus latidos tocam a música que agora ouço
enquanto desço aos fundamentos do silêncio; afastaram-se, os cães, não conhecem
o Nada que seduz a noite. passaram, derrotados pela mudez do eco. os cães não têm culpa nem pescoço.
os cães não precisam de existir e no entanto (ladram de novo) não esquecem.

chove, a velha do andar de baixo fecha sem pudor as janelas da marquise
de uma varanda horrível e desperdiçada. desço pela minha respiração.
não estou, apesar.

finis ermo

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Fotografia: Jorge Muchagato, 17 de Junho de 2018

 

 

a minha solidão tem a idade da minha pele
nos seus minúsculos abismos naturais revelados pelo movimento;
é antes da matéria da palavra, num longe que afivele
todas as cintilações da escuridão

feita das cinzas da expectativa, da pele fugidia da noite, de ocasos
rubros, rasos de esplendor, de simulacros e subterfúgios;
um céu encarnado de Verão sem caminhos ínvios nem refúgios,
só um chão para a dor da cabeça que a terra cinzele.

virei as costas ao mar perante a forma que o mar tinha.