salvados poéticos, 2: son[h]o

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son[h]o

na escuridão do poço ondula

o baço reflexo do gesto indeciso

que a noite fora do poço acidula

para incitar num toque preciso

 

os vidros da lua oscilam na água

negra, citações da chama sedutora,

breve e contraditória da mágoa

que no riso fulge, ímpia e delatora

 

ferem as unhas os próprios dedos

e no poço resta o húmido bolor

a comer a noite e os vãos segredos

afundados num sonho incolor

*

Fotografia: árvores, Abril de 2015.

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salvados poéticos, 1: Outubro vermelho

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Outubro vermelho

 

iguais, as minhas veias, aos finos caules imprevistos das heras,

veredas – veredus: o cavalo para viagem – sinuosas pelo peito adentro numa esfera de escuro,

veias vivas de cansaço, de ilusões fulgurantes, de extenuadas esperas

vagando num persistente desejo puro

só a esponja vermelha de sangue pulsante é toda a verdade,

em palavras transfigurada (não traduzida), um constante Outubro vermelho

sedento, do vinho rubro dolente que aplaque a súmula das noites, o Fado Cravo

que deita fogo ao vazio na combustão de um súbito fulgor de eternidade,

verosímil, dentro do tempo que recuso mas onde me reconheço velho

aceitando na face da manhã o espelho e a crueldade do veredicto em agravo

 

o meu corpo está todo agora na minha língua

2015, Outubro, dia incerto

*

Fotografia: árvores, Outubro de 2015.