patologia do acaso, diário, 44: Da imprescindível necessidade de tempo

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2017, Julho, 13. Da imprescindível necessidade de tempo. É necessário muito tempo, muitas diversas formas e entendimentos do tempo: é uma frutuosa possibilidade da absoluta e absurda carência de sentido da vida. Encontramo-nos, existimos, agimos e acabamos aqui, não nos foi dada, pelas categorias cognoscitivas que possuímos para decifrar, compreender e construir a realidade, evidência alguma de outro qualquer lugar onde possamos re-existir para além da carne deste. É nosso, portanto, apenas aquilo que jamais poderemos domar, apropriar-nos ou modificar: o tempo. (É preciso muito tempo para ver uma árvore, decifrar o movimento do mar, lançar as mãos em concha à agua do rio apenas para a sentirmos na pele das mãos, do rosto, nas pálpebras, nos lábios.) Mas não pensamos nisso com suficiente frequência nem nos conferimos a dignidade de sobre o tempo em que nos consumamos construir justificações (Séneca), razões, sentidos úteis ou simplesmente prazerosos. A consciência da necessidade e usufruto deleitoso ou útil do tempo pode ser uma forma de resistência contra a dignidade que a actual civilização todos os dias nos suga, desvitalizando-nos, até que nos tornemos invisíveis e reduzidos a um número que consome e paga sem qualquer noção de sentido ou de necessidade. Esta é uma das razões pela qual a actual civilização está a tonar invisível, em termos sociais e pedagógicos, a saúde mental. Os objectivos alienatórios desta civilização da “informação” e do “entretenimento” a qualquer preço no sentido do consumo, material e imaterial, desregrados, estão nos antípodas da necessidade imprescindível de uma preocupação pública com a saúde mental. Afigura-se-me que o futuro imporá sobre a saúde mental o mesmo nível de densidade de preconceito e de exclusão que em tempos recentes trabalhou e construiu para outras categorias intelectuais, biológicas ou de género. Todos os dias esta morte do tempo descobre novos preconceitos, alguns dos quais consegue domar transformando-os em doença e por consequência medicando-os, ou em simples exclusão com graves consequências no percurso escolar e profissional de uma pessoa. Já não existe uma resposta estruturada de política de saúde pública para a saúde mental; as pessoas que sofrem de algum tipo de doença do foro da saúde mental, a mais comum das quais será a depressão – que se expande sob o silêncio vendado dos poderes públicos – e que não detêm os meios económicos para obter a intransponível qualidade de vida (e inclusão social) ficam entregues a si mesmas, ou mais verdadeiramente, entregues a um suplemento de drogas que as levante todas as manhãs da cama para um novo dia. Porque o tempo tornou-se um “luxo” arcaico e dispensável em face das metas, dos objectivos, dos índices de “sucesso” e de “realização”, do “lixo” tecnológico de uma espécie de supra-tempo que ninguém jamais alcançará mas quase todos afiançam conhecer e viver e dele retirar prazer. É um “lixo” comestível destinado a queimar tempo, desde livros insanos que prometem a juventude intacta dentro de uma carcaça humana, ou concluem que Deus não tendo tempo suficiente criou as mães, a objectos inteiramente dispensáveis a maior parte do tempo necessário para usufruir da profana respiração do mundo onde existimos uma só vez: a respiração das árvores, do mar, da luz do sol, da terra.

É necessário muito tempo, até para algumas acções ou gestos vulgares que precisamente o tempo tornou vulgares e tão importantes; muito tempo para decisões que carecem da rapidez de uma resposta, porque, justamente, existe muito tempo antes e muito tempo por vir. A escolha de uma palavra carece do tempo para nos decidirmos por essa palavra e não por outra muito semelhante, mas que não é essa palavra, porque essa palavra pode ser o alicerce de um conceito, de um significado, de uma consequência interpretativa. Ensina-se hoje, creio, a arte de não ter nem sentir o tempo, a arte da voragem de acontecimentos (um sentimento é um acontecimento) que se devoram numa sucessão vertiginosa e quase vazia de entendimento, de significados e de consequências. Tudo acontece na fronteira do necessário imediato para não permanecer e assim se evitar a angústia da decisão, a angústia de se ter um natural motivo de conversa, a dor própria do tempo que se consuma, o sofrimento, em suma. Mas o sofrimento existe e ergue a força moral, é necessário à vida, e esse sofrimento do tempo não desaparece, apenas se aquieta ou sufoca, mas não se mata e espera-nos, é certo que nos espera, e em geral tarde demais. Esquecemos, todavia, (esquecemos tanta “coisa” que erradamente encerramos na conclusão do arcaísmo), que a «espera» ou «esfera» é a esperança do mundo. Receio que não seja hoje possível compreender a fecundidade dessa esperança do mundo fundamentada nos trabalhos do tempo. Não é possível «chegar novo a velho», como nos querem, sob o alpendre do dinheiro fácil, convencer; é apenas possível chegar a velho o melhor que nos seja possível em corpo e mente; porque não se chega a velho sem muito tempo e fazemo-nos novos contra o tempo.

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Fotografias: o livro de Alexandre de Humboldt, Histoire de la Géographie du Nouveau Continent, tome quatrième, Paris, Librairie de Gide, 1837, 12 de Julho de 2017 e Parque, 17 de Fevereiro de 2017.

a ala psiquiátrica – terceira dimanação do caos

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desenhávamos artérias, veias, gestos de lâmina errados nos pulsos – não basta cortá-los, é necessária a arte de lhes conferir o golpe certo da liberdade, o exangue descanso antes do desapropriado descanse em paz –
o número dos comprimidos restantes
– ninguém ali desejou viagem alguma, e os passos, agora, sincopados, na perspectiva hirta do corredor, do princípio
para o fim e do fim para o princípio,
dentro do espelho,
medem apenas o branco, a ausência de todas as cores – não existe qualquer deslocação, nem caminho, nem libertação; apenas uma descoincidência tectónica e definitiva;
a tectónica da terra, do corpo e da sua inata respiração, e da linguagem,
das mãos e dos braços que seguram a acusação da própria morte que não deseja ser encontrada: o corpo desprovido enfim de um alvedrio do acaso sem razão alguma
(a minha decisão está no mar)

desenhávamos o branco da falta e do abandono, da verdade do impensado, o silêncio e as cores deambulavam ainda no sangue – mas estava envenenado, o sangue, pela supra descoincidência citada

eu chorei quando me trouxeram a comida no recipiente de alumínio e disseram que iam cuidar de mim, todavia o meu choro não era o de uma pessoa, mas o de um cão

jogavam-se cartas a cigarros, dentro do espelho,
dez cigarros pela manhã, dez cigarros pela tarde, cumpridas as refeições e os comprimidos e as cápsulas
as mãos postas a revelar as linhas da vida aos que nos queriam salvar
– mas isso não era possível

estávamos debaixo da garrada, na deformidade vítria da morte indiferente

eu acordava muito cedo e tinha que esperar duas horas pelo pequeno-almoço, todos os dias via o sol que resulta da rotação da Terra
entretanto abria a madrugada e chegava o carrinho, chiando no sufoco deserto do corredor, com as medidas dos pijamas lavados e as toalhas para o banho
mas nunca era manhã
alguns mandavam vir de casa os pijamas próprios, perguntaram-me, mas eu desprezo os simulacros

debaixo da garrafa existe algum espaço côncavo, um último bilhete de respiração

éramos todos salvados de um patíbulo algures na razão,

o meu patíbulo está certo desde o estalo da parteira naquela manhã de Abril
– nada existe para vencer

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Ilustração: [sem título], tinta-da-china, papel, 1998.

a ala psiquiátrica – segunda dimanação do caos

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cansaço
veias-sangue e cansaço,
esta morte dentro de mim,
tão antiga como o primeiro choro que abriu a respiração
e me matou nesse cansaço assim
neste cansaço,
cansaço, a outra palavra que escreveu o cansado suicídio de mim

(quem saiba a palavra cansaço que a escreva, se para tanto souber o seu sangue)

hei-de matar-me num desses fronteiriços momentos em que o sol se muda em dia,
e o meu suicídio estará enfim certo,
certo naquela cama do parto, e certo nos pressupostos que pela culpa me enforcariam
cansaço
é essa a certa palavra da minha morte que não sabiam

A televisão: um problema mental

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Por detrás da fachada bem desenhada e construída da informação e da comunicação, a civilização regride; dentro desta contemporaneidade, as divisões que se encaixam, transposta a fachada, tornaram-se inabitáveis para a humanidade, espelham os extremos da loucura: imediata à aparência principal, ficam as divisões onde impera a assepsia e no tardoz, separadas por uma comunicação vigiada e exigente, as divisões da imundície. Aos assépticos se convence do seu poder, aos imundos, que estão limpos. Nem os primeiros têm poder, nem os segundos estão asseados, mas ambos estão convencidos de que os direitos fundamentais à dignidade da vida humana se alcançam a partir do consenso. Os direitos que garantem a liberdade e a dignidade e conferem o devido valor à verdade, nunca foram alcançados por requerimento ou por concessão; existem porque foram conquistados e pagos com o sangue de séculos; com a vida de muitos humilhados, torturados, estropiados. Os direitos são defendidos e mantêm-se naquilo que é a vanguarda da civilização: a educação e a consequente maioridade intelectual. É pela educação, menosprezada e reduzida a um negócio político ou monetário, e pela cultura, considerada um empecilho à funcionalidade do sucesso e às imagens vigentes do estatuto social, que a civilização agora regride, quando a maior parte das pessoas pensa que se está no ponto mais adiantado e feliz do progresso. Mas não é assim: para pensarem isso seria necessário que soubessem o que é e o que significa o progresso; o mundo mudou, mas não começou anteontem. O acesso à informação fidedigna e à cultura, é inútil se as pessoas desconhecem os caminhos que a elas conduzem; é o mesmo que enviar alguém à Torre do Tombo, confiado nas possibilidades da história que lá está guardada para ser conhecida: sem saber o que procura e desprovido do método adequado para encontrar o que pretende, pouco ou nada alcançará. Muitas pessoas vi perdidas na Torre do Tombo julgando ser fácil conseguir um registo de casamento ou de óbito, um registo de baptizado, que algum advogado lhes disse quase de certeza lá existir exarado em antigos registos paroquiais para resolver os violentos imbróglios que embalam partilhas familiares. Muitas idas se tornavam vãs por falta de referências fundamentais para localizar a pesquisa: uma data aproximada, um nome de freguesia, um apelido. Não basta a ilusória segurança da existência da informação e dos canais de comunicação; sem que se saiba decifrá-los, não se é, verdadeira e eficazmente, usufrutuário mas prisioneiro ou vítima. As pessoas concluem com demasiada facilidade que estão a ser informadas quando na realidade estão a ser manipuladas no sentido de uma impotência que requer a qualquer preço uma protecção por pior que ela seja, desde que seja segura. Seria necessário que averiguassem se estão efectivamente seguras e estando, do que se dão por seguras. Pois de nada podem dar-se por seguras; se tudo isto estoirar de uma vez por todas, o mais que lhes resta é conseguirem arranjar umas conservas e uns garrafões de água, levantarem algum dinheiro se o tiverem durante os prováveis minutos em que as caixas multibanco ainda funcionem, e terem a esperança de que seja rápido e com o menor sofrimento possível.

O que consideram as pessoas saber num tempo em que a televisão se tornou um problema público de saúde mental e a informação não existe? Terão as pessoas a noção de viverem rodeadas da mais pura propaganda, ainda que não vivam num Estado totalitário? Que essa propaganda particular oficiosa é perniciosa e violenta e inocula na maior parte das pessoas sentimentos de impotência, de insegurança, de frustração, de medo, no sentido de uma vivência quase paranóica que potencia a fragilidade e a dependência dos poderosos e dos trepadores quase-poderosos? Suponho ser provável que não saibam, pois a ideologia triunfantes do futebol, das religiões religiosas ou zen encarregam-se, a tempo, de decepar essa ousadia. A televisão é, desde que apareceu e depois se generalizou, o mais forte instrumento e meio de manipulação que os diversos poderes de imediato reconheceram e procuraram dominar. O menosprezo crescente pela educação e pela cultura foi erodindo a fronteira do pudor que ainda aceitava alguma função educativa e cultural, por muito mediana que fosse, para a televisão. Hoje, os canais generalistas têm futebol, desastres, facadas, homicídios, assaltos, acidentes de toda a espécie e quilate e até a meteorologia se tornou um sublime instrumento da catástrofe, desejada, expectável ou real; numa repetição nauseante. À celebrada sociedade do espectáculo acrescentou-se a insanidade mental institucionalizada sob o eufemismo alienador da informação, da comunicação e por fim da qualidade garantida por todos os selos possíveis, da crítica especializada – mas não é um especialista alguém que “tudo” conhece de um assunto e ignora tudo o mais, como o definiu Ambrose Bierce [1842-1914] no seu Dicionário do Diabo? – ao coach guru repleto de estrangeirismos zen, desde que visível na montra ou na hierarquia das vendas? Nesta sociedade histriónica em que vamos sobrevivendo, sob o recuo entrincheirado dos direitos sociais e laborais, existe um problema público de saúde mental no qual a televisão é uma das lobotomias praticadas.

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Fotografias: 24 de Abril de 2017