patologia do acaso, diário, 82: O inúmero

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Fotografia: Jorge Muchagato, 6 de Abril de 2018

 

 

2018, Abril, 6. O inúmero. No seguro desespero da respiração, não sei explicar-me a chuva nem a cinza que se interpõe entre a a clareira da minha sede de horizontes oscilantes, a espaços vã ou fora de toda a esperança, e a película azul da atmosfera que antecede o frio e a escuridão. O tempo é o vazio, o nada e a destruição, no mesmo inúmero instante existe e não se encontra nem sente ou desfaz-se dentro, em miríades de pontos luminosos num quê perfeito por excesso depois de um fim. Um Bem eterno onde toda a harmonia cabe dentro do mais puro conceito de silêncio, dentro da palavra silêncio. E a Criação regressa depois, na face ao espelho.

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 6 de Abril de 2018
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Cinzas

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[ no apogeu da tarde outonal, enquanto bebo o café e fumo, sinto as lágrimas ainda tépidas abrindo sulcos na irregularidade da pele. mas é por mim que choro, por me lembrar agora de ouvir os velhos dizerem que se ousarmos comer cinza enlouquecemos. faziam-se ainda lareiras nesse tempo, toscas ou artísticas, nas cozinhas ou nos salões, o fogo era gregário a cinza um desespero catártico; o lume tornou-se um privilégio e a cinza já não é o apanágio acidental dos loucos. choro por mim, por certas vidas e coisas de mim abandonadas ou traídas. gosto de ficar horas mortas a olhar o lume numa lareira real não contaminada com o egoísmo de um recuperador de calor. a radical verdade última revela-se na coincidência entre a palavra e o gesto, fora desta coincidência, a verdade não chega a ser uma palavra. ]

Palavras revolucionárias não são a Revolução; amorosas palavras não são o Amor propriamente feito. Carecem assim, as palavras, do sangue e da decisão; do movimento e do risco; do recuo ou do salto.

Do ser à visibilidade de si, existem as palavras que erguem, para nós e para os outros, uma dada verdade, uma dada persona; mas a verdade última, a verdade de si e, por conseguinte, a primeira verdade das palavras, carece, na fronteira decisiva, do crivo da acção, dos gestos, da verdade física, vertiginosa. É por isto que nas sociedades mais civilizadas o Teatro e a Música florescem enquanto condição feliz de humanidade. O Teatro é o que não somos e poderíamos ser, o que somos e não deveríamos ser, o que confessamos, o que omitimos, o que ocultamos e, sobretudo, o que desejamos. A Música é a civilização. As sociedades decadentes por opção e que assim iludem a dor de ser-se não apreciam a violência dos espelhos e, por consequência, decepam o Teatro. As sociedades domesticadas confundem a decadência imposta com o Bem possível. Mas o Bem possível, uma espécie menor de felicidade, não é mais do que o Bem permitido, precisamente esse Bem menor destinado a envenenar toda a utopia.

Saber ler não é o bastante, é preciso ler sem medo. A mentira não se resume a ser nem a estar no antípoda da verdade.

 

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Fotografias: Ruínas da Casa da Cultura e antigo Casino de Caldas da Rainha, Jorge Muchagato, 26 de Setembro de 2017, durante o evento Noites da Lua Azul, organizado por Electricidade Estética