A questão sanguínea de uma Testemunha da Ignorância

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Todos os dias um historiador pensa na razão das coisas e no poder, elevado ou miserável, das paixões humanas, e a sua capacidade de decifração e de análise, mas também de crítica, deve incidir com a mesma gravidade sobre o tempo que já se consumou e sobre o tempo que ele próprio sente transcorrer. Estamos sempre em relação com o passado, e isto quer dizer que «sermos membros de qualquer comunidade humana significa situarmo-nos em relação ao seu passado, ainda que assumindo uma atitude de recusa. O passado é, portanto, uma dimensão permanente da consciência humana, uma componente obrigatória das instituições, valores e outros elementos constitutivos da sociedade humana» [1] e portanto, «paradoxalmente, o passado continua a ser a ferramenta analítica mais útil no que se refere ao confronto com a transformação constante, mas assumindo uma forma nova. O passado transforma-se na descoberta da história como um processo de mudança direccionada, um processo de desenvolvimento ou de evolução. A transformação torna-se assim a sua própria legitimação, mas fundando-se agora num “sentido do passado”, que se transforma também» [2]. A verdade não é um fruto fácil de alcançar nem de saborear – isto é uma realidade, tanto para a vida quotidiana como para a escrita da história. Esse fruto que é a verdade nunca será suficientemente doce nem suficientemente amargo; ou será, por outro lado, demasiado doce ou demasiado amargo. A história é, de alguma maneira, semelhante à morte: uma espécie de «presença ausente» [3]; conhecem-na todos e ninguém. E com efeito: «não existe indicador mais significativo do carácter duma sociedade do que o tipo de história que se escreve ou não se consegue escrever» [4]. A verdade tem uma espessura insuspeita e não se pensa nisso com a devida frequência, mas devíamos: a vida é claridade e sombra, exposição e ocultação – «toda a gente sabe que os seres humanos não actuam sempre, nem mesmo habitualmente, a partir de motivos perfeitamente conscientes ou em função de motivos que estejam dispostos a confessar; e estaremos certamente a funcionar com um olho intencionalmente fechado se excluirmos o estudo dos motivos inconscientes ou inconfessados. Contudo, segundo alguns, é isso o que os historiadores deveriam fazer e este é o centro da questão» [5]. Parece ser fácil, imediato, tudo se poder saber neste tempo triunfal da informação, mas isso é, em certa medida, ilusório – na realidade sabemos pouco (ou sabemos o consentido) e decidimos ainda menos. A velocidade com que a informação se propaga e é tida, quase indubitavelmente, como verdadeira é tão vertiginosa que a sua manipulação é um exercício demasiado fácil e por conseguinte absolutamente tentador; o seu poder é desmedido. Esta realidade deveria fazer-nos pensar nas fronteiras reais da democracia, porque com as suas fronteiras retóricas convivemos todos os dias. A educação é a raiz comum da civilização e da democracia; é a educação, cívica e escolar, que a cada dia constrói e apura o instrumento e o método mais eficazes contra a indiferença em relação à mediocridade, à ignorância e à legitimidade do mal menor que cauciona todas as ditaduras independentemente das suas formais mais ou menos “legais” e das suas densidades repressoras. Esse instrumento é a capacidade informada de opção; os motivos da aceitação, os motivos da recusa.

De certa “notícia” e respectivo “rodapé” televisivo que enunciava o «sangue comunista» de um político português, o mais que se pode dizer é que se trata da questão sanguínea de uma Testemunha da Ignorância. É bem verdade que a história não se repete – é uma impossibilidade, teórica e de facto; mas, como escreveu o historiador britânico Eric Hobsbawm, se destituirmos a história do seu sentido pedagógico, isto é, se considerarmos que a história nada nos ensina, é provável que soframos de algum desajustamento psíquico. Todavia, escreveu o mesmo historiador, «infelizmente, se alguma coisa a experiência histórica ensinou aos historiadores é que, aparentemente, com ela, nunca seja quem for aprende seja o que for. Mas temos o dever de continuar a tentar» [6].

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[1]. Eric Hobsbawm (1917-2012), Escritos sobre a História, tradução de Miguel Serras Pereira, Lisboa, Relógio d’Água, 2010, p. 9. [Edição original: On History, London, Weindenfeld & Nicolson, 1997. A edição portuguesa é uma antologia da edição original inglesa.]

[2]. Ibidem, p. 20.

[3]. Paul-Louis Landsberg (1901-1944), Ensaio sobre a experiência da morte, tradução de Alberto Nunes Sampaio, Lisboa, Hiena Editora, 1994, p. 19. [Essai sur l’expérience de la mort, 1937.]

[4]. Edward Hallet Carr (1892-1982), Que é a História? Palestras proferidas na Universidade de Cambridge Janeiro-Março de 1961, tradução de Ana Maria Prata Dias da Rocha, Lisboa, Publicações Gradiva, s.d. [1982], p. 37. [Edição original: What is History?, London, Curtis Brown, (196_).]

[5]. Ibidem, p. 41.

[6]. Eric Hobsbawm (1917-2012), Escritos sobre a História, p. 44.

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A televisão: um problema mental

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Por detrás da fachada bem desenhada e construída da informação e da comunicação, a civilização regride; dentro desta contemporaneidade, as divisões que se encaixam, transposta a fachada, tornaram-se inabitáveis para a humanidade, espelham os extremos da loucura: imediata à aparência principal, ficam as divisões onde impera a assepsia e no tardoz, separadas por uma comunicação vigiada e exigente, as divisões da imundície. Aos assépticos se convence do seu poder, aos imundos, que estão limpos. Nem os primeiros têm poder, nem os segundos estão asseados, mas ambos estão convencidos de que os direitos fundamentais à dignidade da vida humana se alcançam a partir do consenso. Os direitos que garantem a liberdade e a dignidade e conferem o devido valor à verdade, nunca foram alcançados por requerimento ou por concessão; existem porque foram conquistados e pagos com o sangue de séculos; com a vida de muitos humilhados, torturados, estropiados. Os direitos são defendidos e mantêm-se naquilo que é a vanguarda da civilização: a educação e a consequente maioridade intelectual. É pela educação, menosprezada e reduzida a um negócio político ou monetário, e pela cultura, considerada um empecilho à funcionalidade do sucesso e às imagens vigentes do estatuto social, que a civilização agora regride, quando a maior parte das pessoas pensa que se está no ponto mais adiantado e feliz do progresso. Mas não é assim: para pensarem isso seria necessário que soubessem o que é e o que significa o progresso; o mundo mudou, mas não começou anteontem. O acesso à informação fidedigna e à cultura, é inútil se as pessoas desconhecem os caminhos que a elas conduzem; é o mesmo que enviar alguém à Torre do Tombo, confiado nas possibilidades da história que lá está guardada para ser conhecida: sem saber o que procura e desprovido do método adequado para encontrar o que pretende, pouco ou nada alcançará. Muitas pessoas vi perdidas na Torre do Tombo julgando ser fácil conseguir um registo de casamento ou de óbito, um registo de baptizado, que algum advogado lhes disse quase de certeza lá existir exarado em antigos registos paroquiais para resolver os violentos imbróglios que embalam partilhas familiares. Muitas idas se tornavam vãs por falta de referências fundamentais para localizar a pesquisa: uma data aproximada, um nome de freguesia, um apelido. Não basta a ilusória segurança da existência da informação e dos canais de comunicação; sem que se saiba decifrá-los, não se é, verdadeira e eficazmente, usufrutuário mas prisioneiro ou vítima. As pessoas concluem com demasiada facilidade que estão a ser informadas quando na realidade estão a ser manipuladas no sentido de uma impotência que requer a qualquer preço uma protecção por pior que ela seja, desde que seja segura. Seria necessário que averiguassem se estão efectivamente seguras e estando, do que se dão por seguras. Pois de nada podem dar-se por seguras; se tudo isto estoirar de uma vez por todas, o mais que lhes resta é conseguirem arranjar umas conservas e uns garrafões de água, levantarem algum dinheiro se o tiverem durante os prováveis minutos em que as caixas multibanco ainda funcionem, e terem a esperança de que seja rápido e com o menor sofrimento possível.

O que consideram as pessoas saber num tempo em que a televisão se tornou um problema público de saúde mental e a informação não existe? Terão as pessoas a noção de viverem rodeadas da mais pura propaganda, ainda que não vivam num Estado totalitário? Que essa propaganda particular oficiosa é perniciosa e violenta e inocula na maior parte das pessoas sentimentos de impotência, de insegurança, de frustração, de medo, no sentido de uma vivência quase paranóica que potencia a fragilidade e a dependência dos poderosos e dos trepadores quase-poderosos? Suponho ser provável que não saibam, pois a ideologia triunfantes do futebol, das religiões religiosas ou zen encarregam-se, a tempo, de decepar essa ousadia. A televisão é, desde que apareceu e depois se generalizou, o mais forte instrumento e meio de manipulação que os diversos poderes de imediato reconheceram e procuraram dominar. O menosprezo crescente pela educação e pela cultura foi erodindo a fronteira do pudor que ainda aceitava alguma função educativa e cultural, por muito mediana que fosse, para a televisão. Hoje, os canais generalistas têm futebol, desastres, facadas, homicídios, assaltos, acidentes de toda a espécie e quilate e até a meteorologia se tornou um sublime instrumento da catástrofe, desejada, expectável ou real; numa repetição nauseante. À celebrada sociedade do espectáculo acrescentou-se a insanidade mental institucionalizada sob o eufemismo alienador da informação, da comunicação e por fim da qualidade garantida por todos os selos possíveis, da crítica especializada – mas não é um especialista alguém que “tudo” conhece de um assunto e ignora tudo o mais, como o definiu Ambrose Bierce [1842-1914] no seu Dicionário do Diabo? – ao coach guru repleto de estrangeirismos zen, desde que visível na montra ou na hierarquia das vendas? Nesta sociedade histriónica em que vamos sobrevivendo, sob o recuo entrincheirado dos direitos sociais e laborais, existe um problema público de saúde mental no qual a televisão é uma das lobotomias praticadas.

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Fotografias: 24 de Abril de 2017