patologia do acaso, diário, 105: A arte, visibilidade de um exemplo

2018, Julho, 12. A arte, visibilidade de um exemplo. Na Idade Média, quando o tempo constituía uma das propriedades de Deus, a arte era uma linguagem da verosimilhança de um invisível existente até ao fim da história, até à última vinda de Jesus, o Cristo, o filho de Deus, à Terra, e ao triunfo definitivo do Espírito Santo. A arte era, assim, a visibilidade constante do exemplo numa história que existia porque tinha um sentido, para uma humanidade que prosseguia porque a salvação era o objectivo e transcendia todas as intencionalidades e acções da vida humana. A arte era a materialização de um invisível actualizado pelo intelecto e pela evolução da sensibilidade relacional com esse sobrenatural que, não estando dependente do tempo, tinha o devir na sua natureza. Esse devir era também humano, porque o humano fora criado à imagem e semelhança desse sobrenatural. O próprio corpo humano denuncia o imperativo do devir. No fim dos tempos, o criador reivindicará e julgará a sua criação. Sendo uma realidade denunciada pelo corpo, o devir é uno enquanto paradigma, mas nunca o mesmo enquanto expressão. A arte é a visibilidade de um exemplo.

 

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Imagens: Artista desconhecido, Retábulo  da Igreja de Orchaise, O Juízo Final (face) e Calvário com os doadores (reverso), óleo sobre madeira de carvalho, 90 x 142 cm., Musée du Château de Blois, ca. 1495-1500.
Fotografias: orchaise.fr

 

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condição

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Paul Cézanne [1839-1906], La Montagne Sainte-Victoire, óleo sobre tela, 65,1 x 83,8 cm., ca.1904-1906. New Jersey, Princeton University Art Museum

 

mas da nossa condição, tão breve, o que seríamos e o que faríamos sem sonhos altos, sem o sofrimento das montanhas, sem a vertigem dos rios, sem a pacificação dos planaltos

 

mais de notre condition, aussi brève, qu’est-ce qu’on serait et qu’est-ce qu’on ferait sans les hautes songes, sans la souffrance des montagnes, sans le vertige des fleuves, sans la pacification des plaines

 

tradução: Ana Horta

as horas

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Jorge Muchagato, 26 de Outubro de 2016, manhã

 

 

e de dentro do frio das cascas de muralhas, às cavalitas dos mortos
invisíveis, de boca aberta ao calor voltado dos girassóis, olhamos
o céu na omnisciência de o beber como se fora vinho; abaulamos
de choro e de silêncio, boca fechada na língua estranha e ácida dos portos

sob esse etéreo convexo eterno, há tantos anos matéria de lápis de cor
e de felicidade.
do céu nos abeiramos como de um curso de água errática, pura e incolor,
e da verdade.

todavia, certeza alguma nos augura qualquer explicação para a evidência do atos;
amamos a noite e as horas no molde das palavras e na crua nudez de um corpo,
sufocamos nas mãos os medos, bebemos o vinho, separamos os gomos das laranjas do horto.

Poeira

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Fotografia: Jorge Muchagato, 11 de Abril de 2018

 

 

O Princípio sabe-se a si mesmo e tudo o mais está fora desse saber-se, ignoto. Da poeira do Inúmero chegámos à Razão e descortinamos os paralelos do Tempo, a História. Celebrar os deuses é domar-lhes a divindade, pois entre os homens e os deuses nada mais existe do que uma terra de ninguém feita toda de silêncio eterno.

patologia do acaso, diário, 44: Da imprescindível necessidade de tempo

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2017, Julho, 13. Da imprescindível necessidade de tempo. É necessário muito tempo, muitas diversas formas e entendimentos do tempo: é uma frutuosa possibilidade da absoluta e absurda carência de sentido da vida. Encontramo-nos, existimos, agimos e acabamos aqui, não nos foi dada, pelas categorias cognoscitivas que possuímos para decifrar, compreender e construir a realidade, evidência alguma de outro qualquer lugar onde possamos re-existir para além da carne deste. É nosso, portanto, apenas aquilo que jamais poderemos domar, apropriar-nos ou modificar: o tempo. (É preciso muito tempo para ver uma árvore, decifrar o movimento do mar, lançar as mãos em concha à agua do rio apenas para a sentirmos na pele das mãos, do rosto, nas pálpebras, nos lábios.) Mas não pensamos nisso com suficiente frequência nem nos conferimos a dignidade de sobre o tempo em que nos consumamos construir justificações (Séneca), razões, sentidos úteis ou simplesmente prazerosos. A consciência da necessidade e usufruto deleitoso ou útil do tempo pode ser uma forma de resistência contra a dignidade que a actual civilização todos os dias nos suga, desvitalizando-nos, até que nos tornemos invisíveis e reduzidos a um número que consome e paga sem qualquer noção de sentido ou de necessidade. Esta é uma das razões pela qual a actual civilização está a tonar invisível, em termos sociais e pedagógicos, a saúde mental. Os objectivos alienatórios desta civilização da “informação” e do “entretenimento” a qualquer preço no sentido do consumo, material e imaterial, desregrados, estão nos antípodas da necessidade imprescindível de uma preocupação pública com a saúde mental. Afigura-se-me que o futuro imporá sobre a saúde mental o mesmo nível de densidade de preconceito e de exclusão que em tempos recentes trabalhou e construiu para outras categorias intelectuais, biológicas ou de género. Todos os dias esta morte do tempo descobre novos preconceitos, alguns dos quais consegue domar transformando-os em doença e por consequência medicando-os, ou em simples exclusão com graves consequências no percurso escolar e profissional de uma pessoa. Já não existe uma resposta estruturada de política de saúde pública para a saúde mental; as pessoas que sofrem de algum tipo de doença do foro da saúde mental, a mais comum das quais será a depressão – que se expande sob o silêncio vendado dos poderes públicos – e que não detêm os meios económicos para obter a intransponível qualidade de vida (e inclusão social) ficam entregues a si mesmas, ou mais verdadeiramente, entregues a um suplemento de drogas que as levante todas as manhãs da cama para um novo dia. Porque o tempo tornou-se um “luxo” arcaico e dispensável em face das metas, dos objectivos, dos índices de “sucesso” e de “realização”, do “lixo” tecnológico de uma espécie de supra-tempo que ninguém jamais alcançará mas quase todos afiançam conhecer e viver e dele retirar prazer. É um “lixo” comestível destinado a queimar tempo, desde livros insanos que prometem a juventude intacta dentro de uma carcaça humana, ou concluem que Deus não tendo tempo suficiente criou as mães, a objectos inteiramente dispensáveis a maior parte do tempo necessário para usufruir da profana respiração do mundo onde existimos uma só vez: a respiração das árvores, do mar, da luz do sol, da terra.

É necessário muito tempo, até para algumas acções ou gestos vulgares que precisamente o tempo tornou vulgares e tão importantes; muito tempo para decisões que carecem da rapidez de uma resposta, porque, justamente, existe muito tempo antes e muito tempo por vir. A escolha de uma palavra carece do tempo para nos decidirmos por essa palavra e não por outra muito semelhante, mas que não é essa palavra, porque essa palavra pode ser o alicerce de um conceito, de um significado, de uma consequência interpretativa. Ensina-se hoje, creio, a arte de não ter nem sentir o tempo, a arte da voragem de acontecimentos (um sentimento é um acontecimento) que se devoram numa sucessão vertiginosa e quase vazia de entendimento, de significados e de consequências. Tudo acontece na fronteira do necessário imediato para não permanecer e assim se evitar a angústia da decisão, a angústia de se ter um natural motivo de conversa, a dor própria do tempo que se consuma, o sofrimento, em suma. Mas o sofrimento existe e ergue a força moral, é necessário à vida, e esse sofrimento do tempo não desaparece, apenas se aquieta ou sufoca, mas não se mata e espera-nos, é certo que nos espera, e em geral tarde demais. Esquecemos, todavia, (esquecemos tanta “coisa” que erradamente encerramos na conclusão do arcaísmo), que a «espera» ou «esfera» é a esperança do mundo. Receio que não seja hoje possível compreender a fecundidade dessa esperança do mundo fundamentada nos trabalhos do tempo. Não é possível «chegar novo a velho», como nos querem, sob o alpendre do dinheiro fácil, convencer; é apenas possível chegar a velho o melhor que nos seja possível em corpo e mente; porque não se chega a velho sem muito tempo e fazemo-nos novos contra o tempo.

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Fotografias: o livro de Alexandre de Humboldt, Histoire de la Géographie du Nouveau Continent, tome quatrième, Paris, Librairie de Gide, 1837, 12 de Julho de 2017 e Parque, 17 de Fevereiro de 2017.