um dia bom [3]

Isabel_02

um pouco mais do miolo dos dias, tão passados, um pouco mais para além
da habitual rotina dos dias
: no céu do ocaso um primeiro vislumbre da lua,
nas luzes nocturnas da cidade um perfil novo para as mesmas casas,
no anguloso recorte a escurecer nos prédios iguais
uma sombra menos densa, um pouco mais
no papiro da árvore dos dias, na pele sedenta, na luz do sol, no íntimo calor da noite,
no brilho da água nas folhas verdes

no alcance dos olhos, no diafragma, no movimento, nos gestos

: palavras novas na página antiga da árvore do papel, sobre o livro do lume da redondeza do mundo,
um desejo equinocial que escreva radicalmente a verdade,
mais para além, mais para além da habitual rotina dos dias

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para I.
manhã de 26 de Junho de 2017

em itálico:
mais para além da habitual rotina dos dias: I.
lume da redondeza do mundo: do livro Esmeraldo de situ orbis, de Duarte Pacheco Pereira (ca.1460-1531/33). O Esmeraldo de situ orbis é um roteiro náutico e geográfico, um tratado de cosmografia e que o autor escreveu entre cerca de 1505 e 1508, ano em que interrompeu a sua redacção deixando-o inacabado. Foi publicado pela primeira vez em 1892. radicalmente a verdade pode ler-se na penúltima frase da página aberta, na fotografia.

*

Fotografias: I., vista urbana nocturna, e JM, um pedaço da entrecasca, semelhante ao papiro, da chamada árvore-do-papel, cujo nome científico é Lasiandra Papyrifera, sobre página da edição mais recente do Esmeraldo de situ orbis (1991).

 

 

 

um dia bom [2]

 

DSC02389 - Cópia

escrevo o teu nome com a minha voz
e aporta em mim,
à suavidade de respirar quando escreves com a tua voz o meu nome,
um abandono feliz que me chama e desejo seguir,
uma voz de pétalas que me acelera o coração
e ao sangue avermelha de vontade,
uma voz de pétalas de rosa

levarei uma rosa vermelha o saber
não-pensado da seiva deste acaso

para I.

 

 

um dia bom [1]

Isabel_01

é hoje de luminoso azul a tua voz, na explicação do céu – moléculas de ar, água e poeira
que dispersam, como o espelho de um desejo, a película azul que abraça este único momento
da rotação da Terra e tem a sua génese na luz solar que trespassa o prisma das cores
da tua voz que compreende a eternidade do mundo
– que eu reconheço, entendo, e sem o sentido da explicação própria, o seu suave e belo apelo sigo;
uma frequência não já próxima da ressonância dos átomos que o crepúsculo dispersará
mudando o céu em vermelho-fogo – as palavras-cor que o sol a todas as horas aperfeiçoa
sob o humano céu que confirma este enigma de um tão feliz acaso
é hoje a alegoria de um sereno e alvo céu a tua voz, a metáfora de todas as cores
do genesíaco prisma da poeira original do universo que o teu olhar me traz
– um dia bom

para I.

manhã de 24 de Junho de 2017

*

Fotografia: I.