fado (Amália)

DSC01265 - Cópia
Jorge Muchagato, Amália [esboço], pormenor, grafite sobre papel, 1995

 

 

fazer jura, ninguém pode, nem afirmar que sabe
essa tristeza, sem braços, sem ar nem salvação;
coração, ninguém pode ter, e dizer que nele cabe
todo o silêncio que arde no rosto da solidão.

numa palavra só, ninguém alcança encontrar
a noite inteira que arde na voz dessa exactidão;
saber, ninguém afirma, o tempo que fere esse cantar,
e procede da cadência fechada do coração.

de onde vem, ninguém sabe, este lamento assim feliz;
se da desgraça dos lúcidos ou de um só embarcado;
porque persiste, ninguém sabe, as veias de um país
no mistério da terra sem nome nem destino que é o fado.

Anúncios

ansa

All-focus
Fotografia: Jorge Muchagato, 4 de Maio de 2018

 

 

 

é noite, há silêncio e procuro
a terra bolorenta e granulosa,
esterroada e húmida, angulosa.
incendeio, no chão do escuro,
este purpúreo sofrimento
que procura palavras e se cansa.
inútil cansaço, ilusória vingança
que nas veias do sofrimento
assoreia distância e mudez.
esta ausência existente que meço
contra os sorrisos do regresso,
os seixos da desesperança, à vez,
no desenho de quanto não esqueço
na fronteira da espuma
da fúria do mar na areia.
e espero o mar que me resuma
na cinza viva de uma ideia.

o mar que me chama e alcança
e leva como da noite uma rara ansa

mas no enquanto arrisco as unhas
nas pedras, nos vidros quebrados,
nas raízes. e descarno-as da casca.
às raízes e aos céus parados.

patologia do acaso, diário, 87: Da “Globalização”

04a - Cópia
Imagem de rosto de Relacion Historica del Viage a la America Meridional hecho de Orden de S[u] Mag[estad] Para Medir Algunos Grados de Meridiano Terrestre, y venir por ellos en conocimiento de la verdadera Figura, y Magnitud de la Tierra, com otras varias Observaciones Astronomicas, y Phisicas, Primera Parte, Tomo Primero, En Madrid, Por Antonio Marin, M.DCC.XLVIII. [1748].

 

 

2018, Maio, 7.  Da “Globalização”. Nada é global, nem jamais o foi; sequer o universalismo das religiões e dos impérios. O conceito a que chamamos globalização não existe – é uma farsa vendida como simulacro e comprada enquanto índice de valor da antiga ideia de progresso. As mudanças mais lentas ocorrem nas mentalidades e a história não se detém para depois recomeçar; o seu movimento é, aliás, diverso, incluindo em si momentos paralelos, momentos de encontro e de desencontro. Se o conceito de globalização que aceitamos existisse para além dos fios, isto é, para além da comunicação mais elementar, recusaríamos comprar por mais ou menos bom preço, num lado do Mundo, o resultado do trabalho escravo infantil e adulto que ocorre, por um preço demasiado elevado e cujas consequências não suportamos ver, no outro lado do Mundo. E tanto mais.

a razão das flores do mundo

1987 - 005
Lisboa, Coliseu dos Recreios, 3 de Abril de 1987. Momento em que Amália recebe, no palco, as flores silvestres oferecidas pelo seu amigo Noel Cunha. Fotografia: Miranda Castela, publicada na primeira página do Diário Popular de 4 de Abril de 1987.

 

 

Senhora,
dia não passa em que eu não saiba
como sei do sol toda a esperança
de voltar o dia
que és a minha terra, o meu lugar, o meu choro,
e a beleza
de não querer da tristeza
nem distância nem livrança
pois é belo tudo o que é triste
e triste tudo o que é belo;
não passa, Amália, um dia em que eu não saiba
que és a razão das flores do mundo.

 

1 de Maio de 2018.

 

Publicado também em amaliarodriguescentenario.wordpress.com

quando o mar me salvar

Cópia de 15-01-2011 028 - Cópia (2)
Fotografia: Jorge Muchagato, 2011

 

 

Tudo o que eu tenho é haver sofrido
Pelo meu sonho alto e perdido

Cecília Meirelles*

 

 

quando o mar me salvar no refluir de uma onda milenar
e as palavras adivinhadas que nunca me salvaram se afogarem na areia – um esquecimento
breve, um esquecimento fugaz, uma subducção da pena; quando o mar me remir da terra
de ninguém; quando o mar me coincidir na existência e me guardar o tempo que foi;

quando o mar dissolver dos acidentes da terra a minha mais obscura nudez
e eu for a pele morta de tantas palavras presas com o meu sangue seco ao andaime da hora
da realidade,
chorarei;
quando o mar me salvar chorarei, sem eterno nem retorno.

 

 

*  Cecília Meirelles, «Canção a caminho do céu», de Vaga Música, 1942.

Do silêncio e da liberdade

70
Jorge Muchagato, dos diários gráficos, tinta-da-china, 2000

 

 

 

Amar o silêncio é um estar complexo. O ser é uma forma pura de silêncio que as circunstâncias da manifestação e do exercício do poder social e do poder político tendem a destruir, pois esse ser estrutura-se e evolui para a liberdade pela única do conhecimento. Do brincar da infância ao silêncio que sem lamentações espera o fim o ser humano existe para a liberdade, quer dizer, para a difícil conquista da liberdade, pelo conhecimento e pela acção, de acordo com pressupostos éticos e morais que lhe permitem viver em sociedade e satisfazer a sua natural inclinação gregária. Somos o que pensamos, somos o conhecimento que construímos. Uma sociedade niveladora da crítica é uma sociedade tendencialmente totalitária e o que vulgarmente hoje designamos por «politicamente correcto» é um dos instrumentos desse totalitarismo uma vez que destrói ou pretende domesticar a liberdade da evolução dos significados da linguagem. Esse totalitarismo semântico que pacientemente nos é inoculado (a modo de vacina), como todas as formas de totalitarismos passados, existentes ou por vir, estende a sua arbitrariedade à potência temporal do ser, isto é, considerando-se a força legitimadora de uma dada ordem, intervêm nos testemunhos do passado consumado, reescrevem a história segundo princípios que são estranhos e contrários à escrita da história. A essência pura do silêncio do ser, o reduto primeiro e último do ser, existe para a liberdade e realiza-se na liberdade; é essa a sua força indestrutível. A natureza do preço a pagar por esta liberdade é o espelho de uma sociedade. Sem atitude crítica o pensamento complexo não é possível e os limites do Poder vão-se tornando cada vez mais irreconhecíveis, o Poder ele mesmo cada vez mais arbitrário e totalitário dentro de uma formalização democrática. O Poder dissolve-se em pequenas ditaduras no interior da democracia para que da definição subsista mas os seus significados evoluam até se tornarem, de facto, o contrário da definição e sejam, finalmente, um outro conceito, um novo conceito preenchido por ideias anquilosadas numa instrumentalização técnica considerada nova ou contemporânea. As coisas simples não são simples apenas porque o são: as coisas tornam-se simples depois de procedimentos muito complexos. A facilidade das coisas requer o tempo da complexidade que as criou. Um procedimento fácil ou rápido é desigual a um procedimento complexo e não é verosímil que o primeiro pretenda alcançar os resultados do segundo.

A evolução natural do pensamento individual faz-se no sentido da densidade e da complexidade, qualidades que se conquistam pelo conhecimento. A essência da Natureza e da Humanidade é a complexidade do obscuro de um segredo, de um mistério que aguarda a decifração possível, diversos níveis evolutivos de decifrações possíveis. O conhecimento da realidade e de si mesmo constrói-se, sedimenta-se durante uma vida inteira; é um entendimento, um estádio efémero de algum domínio sobre a parte da complexidade decifrada, ou sobre a decifração de uma complexidade artificial que age pela distância, como o Poder. Nesta Era da Invisibilidade em que vivemos (a tendência paradoxal das redes sociais é a invisibilidade, ideia que não deve ser traduzida pela consideração da sua inutilidade) o pensamento é direccionado, em termos de pressão social e política, desde uma idade precoce, no sentido contrário ao do pensamento complexo. Brincar na infância interagindo com os outros é uma etapa preciosa do desenvolvimento do pensamento complexo que a tecnologia de entretenimento não substitui. Mas se a tendência é no sentido dessa substituição, a sociedade, tal como a conhecemos, ou seja, enquanto elemento de identidade, ficará em breve irreconhecível, pois os padrões éticos e morais serão destruídos sob a aparência da sua continuidade. A organização do trabalho evolui nesse sentido, ao mesmo tempo que se forma e calcifica, por meio das potencialidades uniformizadoras, não-críticas (anticríticas, mesmo) e indiscutíveis da tecnologia de comunicação e de entretenimento, um conceito de felicidade sem precedentes.

As sociedades são estruturas vivas e em movimento constante. Este movimento pode ser difícil de decifrar no que concerne aos seus reais objectivos, mas existe. Só as diversas formas de Poder, com maior ou menor abrangência, desejam a unidade indiferenciada, consensual ou imposta, considerando, assim, toda a contradição, toda a contrariedade e todo o confronto – toda a crítica – como um desafio apocalíptico a uma dada ordem estabelecida. Todavia, nem essa unidade e uniformidade está imóvel no tempo, por mais que esses Poderes as salvaguardem. O tempo tudo transforma e a essência da vida é ser também o seu contrário; um equilíbrio possível entre a ordem e o caos, entre a saúde e a doença, entre o Bem e o Mal, entre as pazes e as guerras. É pois necessário que exista uma tomada de perspectiva, uma atitude e uma qualidade de opção que se fundamenta no conhecimento. O capitalismo neoliberal entende a educação livre como um obstáculo ao alcance dos seus objectivos. Uma educação livre torna a revolução possível. Uma educação livre identifica as formas diversas que a escravatura pode ter.

Quando tantas vezes ouvimos dizer, quase como uma repreensão, que «tempo é dinheiro», o que de facto nos é dito é que «tempo é Poder». Pensar requer tempo; dominar o tempo é enformar o pensamento, enfraquecendo assim a capacidade de recusar, de dizer «não». Ousar pensar é resistir à mediocridade que a ausência de crítica permite fazer passar por excelência criadora. Ousar pensar é resistir e saber decifrar os mecanismos, sempre em mudança, da manipulação. Mas não nos movimentamos na direcção da complexidade nem da felicidade e o movimento dado a ver é um simulacro, pois quase tudo apela à imobilidade, condição da mediocridade e da manipulação. Os mais capazes, os mais audazes, aqueles, portanto, que conseguem alcançar a consciência da força libertadora do conhecimento, poderão acabar destruídos pela função praticamente elementar que a linguagem tem já na sociedade; sentir-se-ão, esses que sabem o que significa o pensamento complexo e dele fazem o insubstituível uso, a falar sozinhos num deserto insuportável de ruído estéril onde a comunicação recíproca é elementar e a crítica uma impossibilidade ou uma ousadia punível. Um dia estaremos irreconhecíveis sem nos darmos conta desse vazio, sem nos darmos conta dos significados.

Egeu

Cópia de 15-01-2011 012 - Cópia
Fotografia: Jorge Muchagato, 2011

 

Yorgos Seferis
Konstandinos Kavafis

 

quando o cansaço me existir, ancorado, descerei.
descerei a verdade até ao Pireu,
a pele subjugada à luz rasante sobre os mármores
e aos vidrilhos ondulantes do Egeu.

o ar em movimento, por entre as amendoeiras,
em flor, embeberá o meu corpo no calor
quando eu descer aos reflexos do Egeu.

patologia do acaso, diário, 86

All-focus
Fotografia: Jorge Muchagato, 19 de Abril de 2018

 

 

2018, Abril, 25. Acordei demasiado cedo, um longo pesadelo de que recordo fragmentos reduzidos num meio sufocante de gritos inaudíveis. Retomei o sono e o pesadelo regressou, mas não consigo saber, agora, se foi a continuidade do primeiro ou outro. A luz tarda, os dias não abrem o bastante para o consolo do calor e o céu permanece fechado à violenta vida do sol. Como um Sísifo, mas sem condenação que entenda, recomeço a escalada da rocha do silêncio, da ravina de um estar envenenado de desespero e de sofrimento, de lonjura. A realidade o que é, e o tempo próprio, o que é. Para conservar a lucidez num tempo que combate todo o pensamento complexo e a sua natural e lenta sedimentação, é necessário recusar a realidade instituída desta Era da Invisibilidade. (Serei eu o erro, não me tenho em conta suficiente para o considerar de outra forma; mas não sendo esse erro não seria eu e eu sofro, mas não me odeio.) Depois da passagem da fanfarra comemorativa do dia e do abundante chilrear de alguns pássaros, vaga um silêncio imóvel sob o céu cinzento, mas a luz parece ligeiramente mais intensa, talvez o dia abra. Começo a levantar-me, é a renovação matinal dos antidepressivos, sinto o peito menos oprimido, a poeira do sufoco dos pesadelos nocturnos dissolve-se, desejo respirar, é tempo de deitar as mãos ao meu ofício de historiador. (E ontem reparei que umas ervas vulgares despontaram do chão, sob a travessa inferior do mármore onde encaixa a porta da cozinha que abre para a varanda.)

patologia do acaso, diário, 85

All-focus
Fotografia: Jorge Muchagato, 25 de Abril de 2018

 

 

2018, Abril, 24. Quando chego aqui, neste canto da sala afogada em penumbra, cuido-me a própria matéria do silêncio e a razão inteira do motivo esfacela-se no precipício, na obscuridade de todas as impressões até este momento se terem desfeito numa imobilidade intraduzível. Os fragmentos e as ruínas de frases perdidas onde não era possível parar, algumas imagens, afiguram-se frágeis ao meu juízo. É inútil prospectar as razões deste desamparo, pois esse exercício culminaria num cansaço ainda maior do que fazer valer o dia para além do trabalho a que me propus. O céu plúmbeo do fim do dia angustiou-me e respirei com mais determinação enquanto caminhava pelas ruas habituais do regresso a casa. A luz do tempo parece sufocada por um véu artificial. O meu pensamento e os meus gestos parecem, em momentos de acentuada acuidade, separados de mim pela dúvida de os meus braços serem os meus braços e de o que penso ser pensado por mim. Já tomei o tranquilizante que me ajuda a dormir, não é possível descer mais e contento-me com o intraduzível que me estanca.

a falta que faz Abril

001d
Fotografia: Alfredo Cunha

 

 

para F.R.D.

 

cegas arcadas da sombra se despem ao largo da fornalha
que desce na rua um horizonte único de palavras e mudezes;
um girassol na perspectiva nocturna da rua vermelha amortalha
a última noite e das entranhas do medo a alba antecipa de jaezes.

as aves abrem o céu e a névoa da madrugada dissipam. as cegas arcadas
da noite gritam fissuras encarnadas: são os cravos da manhã verosímil.
a falta que fazem as pessoas, a falta que faz viver a nudez das mãos dadas,
a falta que faz a dignidade, a liberdade e o pão. era Abril. a falta que faz Abril.