Crítica

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Seria contente se gostasse de gostar
daquilo que gosta grande gente;
mas se eu gostasse não ia gostar
do que gosto sozinho e não me mente.

Não peno assim por este meu gostar,
ainda que goste gostando sozinho;
como da vida, só o próprio há-de gostar
de seu escrever todo certo e limpinho.

Se nem as diversas gentes nem a vida
a tão assombrosa perfeição ascendem,
maior razão tem para ser esquecida
a arte daqueles que felizes a entendem.

 

 

 

Fotografia: Jorge Muchagato, 2016.

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Um apontamento sobre o invisível

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Painéis de São Vicente, cerca de 1460-1470, Nuno Gonçalves (activo entre 1450 e 1491), óleo e têmpera (?) sobre madeira de carvalho, 207,2 x 64,2 cm; 207 x 60 cm; 206,4 x 128 cm; 206,6 x 60,4 cm; 206,5 x 63,1 cm, Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga (Inv.: 1361 Pint), proveniente do Paço de São Vicente de Fora, Lisboa, 1913. Imagem: Museu Nacional de Arte Antiga.

 

[Somos uma questão sangrante com o invisível – é questão diferente, a do sobrenatural; mais longínqua ainda a do religioso. O excesso, sublime ou grotesco, a essa questão nos puxa, como o silêncio vulgar da noite que, incessante, nos reenvia o ser em indagação, perguntas obsessivas que têm apenas respostas benevolentes mais ou menos fundamentadas e em constante transformação; somos o que vamos sendo e todavia desejamos fixar-nos, marcar o que não podemos suspender. Vamos simulando respostas benevolentes na Natureza – o mar, o céu, as cores das estações do ano, as árvores, os rios, as montanhas, as praias, a luz, o falso movimento do Sol. Na arte.]

A questão da história dos objectos tidos como arte, no seu tempo original, num tempo posterior ou hoje, é, decerto, o de uma determinada importância simbólica e material que lhe é conferida de acordo com funcionalidades diversas – políticas, sociais, religiosas, pedagógicas, porém, sempre culturais – com densidades variáveis, concomitantes ou descoincidentes, concordantes ou opostas que agrega: um pensamento que existe antes da chegada à imagem, que considera vital a sua transfiguração em imagem, e os horizontes de chegada que a imagem, efectiva ou potencialmente, comporta em si. Ora, se as imagens são pensadas, não podem deixar de ser vividas, pois uma das qualidades mais fortes e determinantes do humano é a memória; e a memória (o seu motivo, a sua narratividade) existe e determina a partir das qualidades da psychē, palavra grega que significa respiração, sopro, alento, ou seja, o ser. Mas o ser qualifica-se por ter uma vida e por estar, por sua vez, determinado por uma essência que é simultaneamente a sua consciência de fim: o saber a morte. Assim, e porque a produção de imagens e de objectos tidos como arte é realizada no tempo e nas suas particularidades (nem sempre progressivas), corresponde a desejos e a objectivos diversos que vão da política à pedagogia. Essa produção corresponde a uma vontade sobre a morte e, igualmente, a uma vontade disciplinadora dentro de uma dada visão do Mundo, da Natureza e do Humano. A arte é em primeira instância um acto do pensar destinado à visibilidade e à legibilidade segundo as condições da matéria, num contexto de forças concordantes ou discordantes, agregadoras ou estilhaçantes, que se manifestam e se medem entre o individual e o social. A arte questiona-nos acerca de um invisível que determina toda a existência; e a natureza desse invisível pode ser indomável quando advém do universo onírico. Se toda a história começa por ser uma história do visível – o testemunho, o vestígio – a sua razão mais profunda é “tocar” a história do invisível que motiva a lágrima e a guerra, o amor e o ódio, o bem e o mal, a felicidade e o infortúnio, fundamentada sobre conceitos, sistemas mentais, códigos emocionais, e as imagens e as palavras ocultam intenções. A escrita da história é vida vivida.

 

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O Inferno, cerca de 1505-1530, mestre português desconhecido, óleo sobre madeira de carvalho, 119 x 217,5 cm, Lisboa, Museu Nacional de Arte Antiga (Inv.: 432 Pint), proveniente de convento extinto em 1834.

Poema de Ano Bom para Susana

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[1]

canta
até que a tua ansiedade
com a nossa coincida
chora
essa devastada eternidade
de sobrevivente deicida
diz
o amor da tua verdade
(o amor o tempo não olvida)
tes yeux
pleureront ta secrète cité
et ton cœur
te guiderá dans l’obscurité
que tu aimes depuis le début

[2]

essa noite,
fechada de certas, invisíveis paredes,
vertendo lágrimas, voz, medo e assombros…
muda,
essa noite,
amorosa de escombros,
que beijas, guardas, mas a que não cedes;
essa noite inteira que te descobre os ombros.

 

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Fotografias iniciais: Jorge Muchagato, a partir do vídeo de La Chanson d’Hélène (com Iggy Pop), do disco Delikatessen Café Concerto, realizado por Tiffany Meyer, encenação e coreografia de Amir Hosseinpour, 2013. La Chanson d’Hélène, do filme Les Choses de la Vie, de Claude Sautet.

Fotografia de cena: autor desconhecido, durante recital.

 

patologia do acaso, 64, diário: Consideração íntima

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Estoril, crepúsculo de 4 de Novembro de 2017

 

2018, Janeiro, 4. Consideração íntima. A memória e a posteridade não te pertencem sob qualquer forma de antecipação que proceda do teu inconfessável desejo ou da confirmação dos outros «e seus descendentes»*; sê apenas no tempo de seres enquanto fores existindo, inteiro e só; ama a tua solidão como um reduto protegido por um crivo rigoroso, ela é a tua terra mais fecunda, a tua construção mais segura. Considera, sem mágoa nem rancor, que possas não assistir aos frutos da tua longa sementeira – deve ser-te suficiente existir inteiro, rigoroso e livre sem a mácula do interesse material que nos pode fascinar sob tantas e tão diversas formas, algumas demasiado ocultas para que as consigas decifrar no correr do quotidiano. A história e a escrita são uma procura da invisibilidade na direcção inevitável da obscuridade; quando aí chegares, à obscuridade derradeira, no termo dos caminhos e dos atalhos, resta uma espera e uma esperança que já não te pertencem, onde já não existe a presença do teu ser; resta-se saber, nessa ponte do fim, que deixaste uma existência fora de ti e que não verás todo o esplendor da terra que cultivaste. Se essa for a tua herança, não te consideres na conta de infeliz.

 

* De um poema de Almada Negreiros [1893-1970], em «Poemas Invariantes», incluídos em Poemas, edição de Fernando Cabral Martins, Luís Manuel Gaspar e Mariana Pintos dos Santos, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, p. 221:

«[…]
E eu que amo a vida
mais do que o sonho,
e o sonho e a vida juntos
mais do que ambos separados,
e que não sei sonhar senão a vida
e quero viver o sonho
não hei-de morrer aqui
entre os outros
e seus descendentes.
[…]»

patologia do acaso, diário, 63: «a eternidade e um dia»

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Óbidos, 11 de Dezembro de 2017

 

2018, Janeiro, 1. O último dia do ano é benévolo, o céu está inteiro de azul, um mar superior, pelo meio da tarde as ruas começam a luzir de silêncio e de abandono, uma quietude desprovida de qualidades inunda e pacifica o ar, os ruídos urbanos recuam com lentidão. E agora, depois dos símbolos, o mundo recupera a sua essência. O silêncio regressa, da ponte da noite avista-se «a eternidade e um dia».

 

patologia do acaso, diário, 62: Vidro e luz

2017, Dezembro, 30. Vidro e luz. Vidro e luz na ombreira da noite, um acaso no absoluto silêncio do movimento sob a cegueira fria e imutável da perspectiva caótica do universo; por nós ou pelo calor dilacerante, por uma chuva pesada ou por uma desencontrada pedra de gelo cortante, o vidro será quebrado; se não hoje, amanhã; em qualquer facto, em qualquer circunstância, nenhum regresso é certo em cada rotação da Terra, nem o sono nem a luz; desejamos, nem pensamos e desejamos, damos como certo e justo esse regresso do limbo circular, mas não é certo nem a justiça é apanágio da Natureza; vivemos num assoreamento de riscos e fragilidades, coisa-vida que é mais uma razão para existirmos sem medo; e porque tudo é breve e nada é eterno e a morte é o motivo da vida na sucessão das pontes da noite.

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 30 de Dezembro de 2017

 

patologia do acaso, diário, 61: Escrever a história: «pour un jour de synthèse il faut des années d’analyse»

2017, Dezembro, 29. Escrever a história: «pour un jour de synthèse il faut des années d’analyse» O fascínio fundamental da história reside no desequilíbrio, na descoincidência permanente que existe entre a sua natureza e as expectativas que lhe são exteriores e de todo estranhas. A história nunca é, ao nosso juízo, suficientemente rápida nem necessariamente longa – é rápida quando não damos disso conta e muito longa quando não corresponde às nossas expectativas nem, pior do que isso, aos nossos desejos. A verdade é que estamos indefesos perante a história e é necessário que assim estejamos. De facto, como “descobriu” Paul Veyne há mais de quarenta anos [1], a história não mudou assim tanto desde Heródoto ou Tucídides, e é-nos difícil aceitar essa constatação quase “primária”. Mas nós, lentamente, mudámos, e muito. Resta saber, naturalmente, se mudámos o que se afigurava necessário e se não continuamos, talvez mais do que antes, talhados pela ideia de progresso e de superação constante, por oposição, por combate, por uma fictícia ordem natural das coisas demasiado rápida e “produtiva” para se alcançar, «honestamente, veridicamente», «quanto for possível», «os mecanismos ocultos das coisas» [2]. A descoincidência permanente em que se fundamenta o fascínio da história continua a fazer válidos os pressupostos de Heródoto e de Tucídides e o antigo célebre axioma de Foustel de Coulanges: «pour un jour de synthèse il faut des années d’analyse» [3]. A história nunca é, como uma espécie de ideia pura, o que esperamos ou desejamos; não estamos fora da história: é esse o seu imorredouro fascínio, a sua incontornável utilidade; a exigência está sempre do lado da história, do nosso lado está a postura filosófica de saber fazer perguntas e de não recear as respostas.

*

[1]. Paul VEYNE [n.1933], Como se escreve a História, tradução de António José da Silva Moreira, Lisboa, Edições 70, 1983. [Edição original: Comment on écrit l’histoire, Paris, Éditions du Seuil, 1971.]

[2]. Marc BLOCH [1886-1944], Introdução à História, 4.ª edição, tradução de Maria Manuel e Rui Grácio, mem Martins, Publicações Europa-América, s.d. [ca.1983], p. 15. [Edição original: «Apologie pour l’histoire ou métier d’historien», Cahiers des Annales, Paris, n.º 4, 1949.]

[3]. Numa Denis Fustel de COULANGES [1830-1889], Histoire des Institutions Politiques de l’ancienne France. Premiére Partie: l’Empire Romain, les Germains, la Royauté Mérovingienne, deuxième édition revue, corrigée et augmentée, Paris, Librairie Hachette, 1877, «Introduction», p. 4.

 

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, Óbidos, 13 de Dezembro de 2017

 

 

 

fábula

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Fotografia: Jorge Muchagato, Óbidos, 13 de Dezembro de 2017

 

para onde íamos que não fomos para lado nenhum?
Paul Celan [1]

 

 

insondável o caminho para o teu esquecimento, a razão,
como o fragmento
infinitesimal de tempo no ponto do toque das pétalas rubras na nudez que não
te conheci

regressam as flores amarelas de maio, no cume da minha carne
está sempre a tua boca, o vislumbre fantasioso das tuas mãos

dados momentos inconsiderados de desespero, de arfante fome inútil,
mas pondero a fábula, o elogio da sombra e da lonjura,
a indiferença à ravina, a pele que se regenera sozinha, sob a crosta cor de terra
falha dos sucessos

nenhuma ciência se fez – um andaime de palavras, silêncios e mito
rodeando o vento e as estações do ano, longe da noite e por consequência
da manhã

 

 

[1]. Paul Celan [1920-1970], Havia terra neles, de «A rosa de ninguém» [1963], in Sete rosas mais tarde, 4.ª edição, selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno, Lisboa, Cotovia, 2017, p. 99.

patologia do acaso, diário, 60: Uma divisão fechada da casa

2017, Dezembro, 9. Uma divisão fechada da casa. Neste intervalo do tempo em que a normalidade no mundo adquire a patina de uma realidade inverosímil sedenta de ansiolíticos e a que os artilheiros do consumo chamam, de mãos postas, a «quadra natalícia»; nesta invenção não documentada que se sobrepõe ao natural solstício de Inverno, a verdade muitas vezes involuntariamente emerge da maçada da obrigação e torna-se audível. Na livraria, enquanto olho as lombadas dos livros, oiço, duma voz feminina e jovem, «Ele gosta de coisas fascistas». Reparo que o acompanhante da rapariga, depois de constatar, «Ah, para o teu cunhado…», logo lança mão de uma biografia de Hitler. «Ele do Hitler não gosta assim muito, gosta mais é do Salazar», particulariza ela. No movimento de me afastar para outra secção temática da livraria, olhei sem pudor, e constatei que tinham idade para poderem ser meus filhos; eu, que tenho a idade daqueles para os quais foi sonhada a nova sociedade que se desejava construir a partir de um golpe militar e de uma revolução, hoje tão longínquos quanto tudo o que está registado, para ser “fixado”, num manual escolar da mal-aventurada disciplina de História.

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Fotografia: Alfredo Cunha, Lisboa, 1974

patologia do acaso, diário, 59: Morte, história e sociedade

2017, Dezembro, 8. Morte, história e sociedade. Tão longa como a morte é a história; a justa importância que a ambas é devida releva da naturalidade das suas presenças. A naturalidade destas presenças que se enlaçam, que se aliam e se combatem, indica o nível civilizacional de uma sociedade e permite aferir, nos tempos que transcorrem, do pensamento primitivo alojado sob o feérico relacional de cada nível tecnológico que define o lugar do humano. A relação que instituímos com a morte e com a história define a destruição a que poderemos propor-nos na sequência das intencionais vagas de alienação que nos cercam.

 

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Fotografia: Jorge Muchagato, 4 de Novembro de 2017